mais um. 23h14min.
Deixei-me ser Lua enquanto queria terra pra cavar meus pés em solo seguro.

Esse texto não é sobre você. Nem sobre sentimentos meus. É sobre como tudo aconteceu e vem acontecendo drasticamente. É sobre o nuance existente entre o chá e o café, ou sobre a dúvida entre meu pão de queijo branco ou meu bolo de laranja, sem açúcar e bem fofinho. Sobre aquele fim de tarde aconchegante e o calor confortável de um moletom de lã no frio da rua Paulista com aquela música “Bailarina” da Banda Ventre ecoando nos meus ouvidos através dos fones conectados ao meu celular, que se encontra em modo avião. Observo tudo enquanto ando nas calçadas, penso nele. Penso nele. Mal penso. A música que toca agora é “Pra Onde Devo Ir” da Vanguart na espera de “Olha Pra Mim” que vem em seguida da “quando bate aquela saudade” do Rubel e algumas outras como Phill Veras, Boogarins, Metá Metá entre outras que me fazem lembrar você.

— que me cheira a arte —

Eu canto todas elas. Canto. Canto mal. Cantarolo. Me lembro do quanto você me encantou, me levou as alturas, e é dai que vem, virei Lua mas não Luar; alucinei.

Você virou o que chamamos de Amor, s.m. afeição baseada em admiração, benevolência, forte. Não foi comum, admito. Incomum. Me apaixonei, me descompassei pelo teu olhar, tua mão, teus gestos e expressões. O admirava. Errei. Somente eu. Estava a procura de um aconchego e acabei pressa em uma confusão criada por mim mesma. Queria um solo seguro, um porto, uma terra firme pra me apoiar, mas virei Lua.


Eu dizia sobre as ruas da Paulista, barzinhos na Ladeira e meu velho e aconchegante apartamento na Vila Madalena, aquelas ruas de paralelepípedo, as árvores de forma simétrica entre as decidas das calçadas cobertas por folhas, flores e frutos que caiam conforme a estação passava sem o mínimo cuidado ou cultivo dos morados dá rua. No apê não, eu tinha jarros de árvores, vasos de plantas e até aquários de cactos e suculentas. Bem cultivadas. Eu cultivo, cultivava até então. Sobre os metrôs? Ah! Aquela sensação de ver a vida passar aos seus olhos ou a sensação de subir um ou dois lances de escada e observar pessoas se espremerem naquele curto e vago lance de escadas rolantes. Me sentia diferente e boa. Forte e revigorante. Sem contar as faltas de ar que minha asma me causava. Aqueles entardecer na lage do apartamento, os prédios, as casas, as ruas e os barulhos do trânsito. A grande São Paulo. A cidade cinza que tornava meus dias mais coloridos. Aquele momento na lage que tornava meu dia especial e válido, a lage que me deixava inteira sem ter medo de cair. A confusão das cores no céu, das janelas de outros prédios e de suas luzes, algumas acessas e outras não. Era apenas eu e meu sketchbook para desenhar breves e minimalistas desenhos acompanhados de frases soltas ou poemas solitários.

Mas entre todos esses aspectos que tornavam meus dias aconchegantes e que não me deixava temer minhas crises de agorafobia ou existenciais eu possuía o que muita das pessoas possuem, o vazio, aquela lacuna mal organizada, aquele estado do corpo em que algo sempre vai faltar, a solidão de dias confortáveis e seguros. Eu me sentia só, me sentia ruim, me sentia vazia, e por muitas das vezes me sentia morta. O desespero da solidão havia chegado em mim. Eu aceitava, mas tinhas momentos em que minhas crises tomavam conta de mim e eu quase deixava de existir. Essas crises, são obscuras.

Mas era lindo os meus dias. Até que você chegou — quem dera não houvesse partida.

Você chegou

Foi assim. Minucioso. Acomodativo. Você se aconchegou a mim, a meus braços e minha presença, e foi lindo. Ah se foi. Por breve momento eu estava feliz, realizada por hora, mas, talvez, eu era confusa e complicada de mais para firmar meus pés em ti. Eu sou complicada. Você parecia se esforçar, se manteve curioso a todos os assuntos que eu me deixava pendente, vocês se preocupava, era o que eu precisava, alguém pra me ajudar a lidar. Mas como humano, você falhou. Por certo tempo você se manteve disposto, não te culpo, aliás você me manteve segura mesmo sendo um perigo, você entendeu a agorafobia, compreendeu as crises, os problemas e a felicidade, você me proporcionou um pouco de vida quando eu não tinha mais ar nos pulmões. Você me fez viver. Você me beijou, calmamente, rapidamente e me fez desejar beijos sem fim, prazer, satisfação e alegria. O gozo do amor. O gozo da felicidade. Da parceria. Do riso. Da vida. Gozo no sentido da alegria não apenas do prazer.

Com você estava tudo bem, mas foi ai que eu errei.

Não estava nada bem. Não era terra firme ou porto, nem solo seguro pra firmar os pés, não era suporte pra apoio ou segurar de mão sincero, beijo calmo ou relacionamento. Então eu cai. Cai. Mas cai levemente, eu flutuei. Nadei entre o inexistente. Entre a distância que crescia entre nós. Tive tanto medo que fui pro ponto mais distante e virei Lua. Virei lua. Me encontrei em órbita de você, sua terra. Queria me cavar profundamente em ti como as lembranças de nós cavadas no meu peito, mas eu acabei no espaço. Eu orbitava á sua sombra e criava forças falsas pra ser sua luz. Eu estava ali, sempre li, e mais um vez, esse foi o erro. Você me guardou, guardou. Guardou pra depois. Vaguei á sombra de sua terra nesse vasto e infinito vaco de solidão que foi não me querer agora, só depois. Quando o depois chegava, meu Luar te confortava, teu desejo, tua carência, tua falta de alguém. Eu errei. É dolorido viver a seu tempo e desejo, ser resguardada na gaveta do cérebro e não no peito. Dói lembrar dá solidão e de quem um dia me salvou dela. Dói tentar contar essa história em apenas trechos. Dói querer te ter mas ter que aceitar que é o fim.


Não dá pra finalizar agora. Eu sei. Mas como toda estrela um dia, meu brilho pode estar acesso e viajar a quilômetros de distância mesmo já estando morta, você nem vai perceber. Me perceber. É necessário retomar a beleza pra poder aceitar o rumo que tomou.


Antes de você partir

Na primavera, quando as calçadas estavam cobertas por flores​ e tudo em meus olhos eram a beleza das borboletas no estômago. Você foi uma borboleta, uma que floresceu e tomou espaço aqui, do jeito mais afetuoso que existia. O sentimento brotou em meio a toda solidão e tristeza. Você era minha escala do castanho. O tom escuro que coloria a minha vida e que eu admirava na paleta de cores dos meus desenhos, junto do mais claro marron misturado com amarelo que Van Gogh usava. Me trouxe calma nas crises​, fobias​ e caos. E eu não esqueço mais de jeito nenhum. Você é lindo.

Em todas as estações.

Ele é a nova sensação que me abraça toda vez que o sinto; é a cor que pinta meu corpo e alma; o gosto que me entrelaça a língua com seus beijos e o poema que me permite ser lido com meu corpo no dele. Minha alma foi conhecida pela pessoa mais linda que eu conheci.

Ele é o que quero sentir para sempre, de todos os jeitos e formas. Mesmo sendo Lua, eu o admiro do céu, mesmo depois do Adeus.


Fim?
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