A injustiça avança hoje a passo firme

Hoje, dia 31 de Agosto de 2016, vamos ver, provavelmente, o impeachment de Dilma. Acima disso, vamos ver também mais um capítulo de um país que está acostumado a dar um jeitinho em tudo para favorecer os interesses daqueles não acostumados com a democracia.

Algumas pessoas sentem um gosto amargo na boca nesse momento. Não é o gosto da derrota, que passa. É o gosto da impotência. De a sua voz, não importa o quanto grite, não ser relevante. Esse foi o gosto da grande maioria dos seres humanos que já passaram nesse planeta, que apenas podiam observar o Poder fazer o que quiser.

Por muito tempo procuramos um sistema político em que a vontade individual não suplantasse a vontade coletiva. Reis não poderiam decidir ao bel prazer o que fazer com uma larga região geográfico do globo. Um pouco disso mudou com o desenvolvimento político e filosófico que nos levou a república representativa, que convencionamos chamar de democracia.

Mas no Brasil, assim como todas as boas invenções da modernidade, a democracia chegou capengando, e nunca deu certo. E o gosto amargo nunca saiu da boca dos brasileiros.

Em defesa do voto

A democracia é um sistema. Não pode ser definido em uma palavra. Mas sem dúvidas, a sua maior qualidade é o voto. Tanto é que o direito de todos terem acesso a esse maravilhoso mecanismo foi conquistado com muita luta e sangue. Hoje podemos dizer que temos o sufrágio universal em quase todas as repúblicas representativas.

E não é surpresa que a elite brasileira tenda a preservar o seu poder por vias não-sufragistas. Sergio Buarque de Holanda já nos avisava:

A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios.

O golpe de 64 foi perpetrado pela elite militar, política, civil, jurídica e econômica, que acharam que a sua posição os legitimavam a fazer quaisquer mudanças bruscas sem precisar do voto.

Vemos isso se repetindo em 2016. E todos aqueles que entendem o motivo de vivermos em um regime democrático, e todo o sofrimento histórico para chegar aonde chegamos, sente uma injustiça engatada na garganta.

Na democracia temos um sistema para resolver as nossas diferenças, onde há ganhadores e perdedores. Na maioria das vezes, os que perdem aceitam a derrota, e isso tem um efeito de pacificação da sociedade. Ideias são complexas, não existe uma “ciência” que diga que votar na Dilma é o certo e no Aécio é o errado, então, sem eleições, essa eterna disputa nunca cessaria, nos levando a guerras intermináveis. Aliás, isso é um resumo da história da humanidade.

Então, ao valorizar pelo menos o aspecto mais fundamental da democracia, o voto, garantimos paz!

Agora faço-lhes um desafio: abra o jornal desde a eleição de Dilma. Veja quantas coisas mudaram, quantas mudanças bruscas foram feitas (inclusive por Dilma). Onde foi que teve o voto pra isso tudo?

Como é concebível, na cabeça medieval de alguns brasileiros, que os rumos de um país possam sofrer tamanha revés sem que os brasileiros sejam consultados pelo voto? É algo apenas imaginável nos regimes plutocratas da pós-modernidade, mas até isso o Brasil ainda não alcançou, pois parecemos mais com os regimes monárquicos absolutos.

Hoje você pode estar feliz, pois essa mudança de trilhos é a que você queria. Mas não se engane: você está assinando um cheque em branco. Hoje o gosto na sua boca é doce, mas apenas porque adicionaram uns saquinhos de açúcar. Ele derrete rápido. Amanhã o gosto voltará a ser amargo.

O voto é a coisa mais importante de todo esse debate.

Golpe ou farsa?

Sempre defendi que golpe é uma palavra fraca para descrever o que está acontecendo no país. Golpe diz respeito a legalidade, e a questão vai muito além do direito objetivo. É uma questão ética e filosófica.

Se a disputa for de legalidade, vale lembrar que o STF observou o golpe de 64 e deu seu verniz constitucional. Disputar nesse seara é perda de tempo. As forças jurídicas já se mostraram acovardadas na nossa História, capazes apenas de atos isolados de resistência. Sem a baliza de um supremo tribunal para julgar o que é legal ou não, como podemos resolver esse problema? Assim como o voto, se perde o elemento pacificador, e tudo o que vale são as “nossas opiniões” e a disputa interminável.

No entanto, é inegável a farsa do processo.

A ideia base do impeachment é a de um processo extraordinário (tanto que o Estados Unidos, o mais robusto sistema presidencial, só usou duas vezes em toda sua história, e nós estamos partindo pro segundo em menos de 30 anos), em que um crime muito grave é capaz de mexer com a coisa mais preciosa da democracia: o voto.

O crime de Dilma é grave? Tirando os discursos de whatsapp que dizem que “crime é o desemprego, recessão, etc”, seus prováveis crimes são intensamente disputados. Estão longe de ser uma causa irredutível para um processo extraordinário.

O que explica isso? O jeitinho brasileiro!

A expressão jeitinho brasileiro, ou simplesmente jeitinho, refere-se de modo abrangente à maneira que o povo brasileiro teria de improvisar soluções para situações problemáticas, usualmente não adotando procedimentos ou técnicas estipuladas previamente.

Primeiro achou-se a necessidade: precisamos tirar uma presidente ineficiente e desastrosa. Como fazer? Opa, pera aê. Temos um tal de impeachment! Quê? Como assim não serve pra destituir presidentes? Ah sim, precisa de um crime. Não tem problema, vamos achar algum aqui agora.

Ingênuo é aquele que acredita que alguém que tenha passado por um Executivo não tenha feito nada, no mínimo, duvidoso, mesmo sem intenção. Pra transformar o duvidoso em crime, basta apenas vontade política. O motivo nunca foi o crime, e aqui reside a farsa.

O jornal francês Le Monde disse que se não for um golpe, no mínimo é uma farsa. Eu já diria que se não for uma farsa, no mínimo é um golpe.

O futuro

O futuro não é tão incerto. A curto prazo vamos ver os que defendem políticas conservadoras se regojizarem. A longo prazo, os que hoje comemoram, vão, talvez, ver o grande equívoco que é confiar em atalhos.

Poderíamos ter seguido o caminho de todas as democracias maduras: votamos em um presidente ruim. Paciência! Vamos aprender e nos organizar para que esse momento não seja tão desastroso. Nas próximas eleições, teríamos aprendido uma lição importantíssima: a de votar direito. Aprenderíamos responsabilidade. Daríamos mais um passo rumo à vida adulta democrática.

Mas nos comportamos como adolescentes mimados. Demos um empurrãozinho na nossa já incipiente democracia. Aprendemos o que? Quase nada, talvez apenas um pouco do poder das ruas. O voto perdeu a validade, pois de um lado existem aqueles que estão seguros que basta um pouco de pressão e o impeachment está feito, e do outro estão aqueles que estão usando o título de eleitor pra limpar as unhas, já que os resultados estão suscetíveis aos interesses de uma parcela da sociedade e das elites.

O populismo, tanto de direita quanto de esquerda, parece ser o caminho mais óbvio a partir de agora. Quem vai querer desagradar um Congresso símbolo de virtude? Quem vai querer fazer discursos conciliatórios sendo que no primeiro descuido a rasteira pode ser dada? A paz se quebrou, agora a luta é nos dentes, de ambos os lados.

O gosto amargo da impotência não vai demorar para se generalizar. Logo, vai chegar em você que está comemorando.

Deixo-lhes com o silencioso poema de Bertolt Brecht, o barulho dele um momento irá chegar em todos:

A injustiça avança hoje a passo firme;
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
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