UMA REFLEXÃO METROVIÁRIA

No metrô, a caminho da faculdade, fui pego em uma situação que me fez refletir.

Quando se espera o transporte público, você tem que focar o olhar para algum lugar e, muitas vezes, coloco o meu em pessoas e as observo em suas atitudes. No meio do furdunço, na espera do próximo trem, havia um rapaz, a minha frente. Seria ele, de certo, o foco do meu olhar. Era alto, forte, de estilo descolado, camisa, mochila e calça bege, cheio de tatuagens pelo corpo, bem conservadas — as quais pude notar devido a qualidade das cores.

Passados alguns minutos, ouvia-se a aproximação do trem. Quando as portas se abriram uma multidão apressou os passos para tomar um acento, o mais rápido possível, antes que o desejo de sentar ficasse apenas como desejo. Eu mesmo fiquei em pé, o jovem que estava na minha frente conseguiu um lugar para sentar. E, assim, o metro começou mais uma de suas viagens.

Em poucas paradas todos os vagões já estavam lotados. E, no meio do caminho, no meio do aperto, o rapaz, que aproveita o conforto de um banco, sem demorar muito, pegou um caderno e, por incrível que pareça, começou a desenhar ali mesmo. Com uma lapiseira e borracha nas mãos, começou a traçar linhas, sem se importar com os balanceios que o trem fazia. Era incrível sua concentração em meio aquele momento. Cercado de pessoas e de movimentos involuntários, ele foi dando rabiscos ao papel, com movimentos firmes, como se já soubesse o final do que ele estava desenhando, ele só parou por três instantes.

Fiquei admirando a situação, tentando entender qual a motivação, qual a inspiração para que, naquele momento, inoportuno talvez, o rapaz quisesse colocar sua habilidade para funcionar. A viagem foi se esticando e o desenho foi ganhando forma e contexto, já dava para ter uma ideia sobre o que ele estava querendo transfigurar para o caderno pessoal. Era o desenho em retrato de um homem, como em foto 3x4. Mas não era um homem comum, era o homem daquele cara, com características próprias, mostrando uma personalidade única, assim como o autor imaginou e queria ser, de uma maneira que apenas ele sabia como é e do porquê de ser daquele jeito.

Parecia que quanto mais ele desenhava, mais estava empenhado em dar vida ao personagem, os traços não paravam, ele só parou porque, presumi, que estava desconfortável naquela posição, afinal, ninguém é de ferro. Ele parou, deu aquela estalada de pescoço e continuou a manter o foco no grafite que saia da lapiseira que impregnava no papel. O desenho ficou mais forte, a cor em tonalidades escuras. Nesse momento, ele só olhou para além da janela para ter uma noção do local onde ele se encontrava, foi a segunda parada dele para com o desenho.

Além de mim, outras pessoas estavam com rabo de olho tanto para o desenho quanto para o artista. Durante todo momento em que estava observando-o em seu trabalho, ele só precisou usar a borracha uma única vez, talvez por conta dos movimentos do trem que o atrapalharam em algum traço, foi também a última pausa que ele fez.

Já entendido pelo o que estava no papel. A representação que ele fazia era de um índio, cabelos lisos, olhos puxados, de olhar penetrante, dificilmente poderia passar despercebido por alguém. Cheio de adereços naturais, diferentes, como também marcado com tinta, mostrando ser digno de sua cultura. Enquanto eu estava no trem fiquei observando para ver o fim daquele desenho, mas infelizmente não pude ver a assinatura final dele pela arte. Ele, usando o dedo, já estava suavizando o desenho, colocando uma realidade para aquela ideia.

Pensei comigo mesmo, que não tem momento certo ou errado para demonstrar aquilo que se quer fazer. A criatividade chega de modo súbita, repentina, e se por um acaso você pensa que pode guardar uma ideia para extraí-la mais tarde, posso dizer, com muita convicção e com muita experiência, que você não dará conta. Talvez consiga, mas sentirá que não foi tão bom quanto se fizesse naquele momento em que a criatividade bateu à sua porta. Quando se tem uma habilidade de expressão não podemos deixar a essência se perder. Não podemos guardar tudo, temos que transformar nossa imaginação em algo real antes que isso se perca em nossa memória. É admirador quando se vê isso sendo praticado, colocado em prática, pois é uma maneira de expor uma parte de você para o mundo, para outras pessoas. Independente do modo, horário ou local, é algo que outros precisam ver, pois muitos podem aderir a sua ideia: que em vez de se bloquear por conta dos outros, é se desbloquear para você mesmo.

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