Sociedade x saciedade

Aceleramos e perdemos o controle.

O cheiro de comida entra pela fresta da janela e domina o ambiente. O seu cérebro interpreta que tem comida na área.

Ele envia uma mensagem pro estômago. O estômago recebe o recado e inicia a produção de sucos gástricos, essenciais para o processo de digestão.

Com tamanha produção, nossas glândulas salivares entram em ação, o que nos deixa com a sensação de “água na boca”.

Você acaba de entender como ficamos com água na boca. E acredito que essa seja a única parte fácil do texto.

Não quero dizer que as próximas linhas serão difíceis, mas temos agonia do que está por vir.

Se você ler o título com rapidez, pode cometer um erro gigante: achar que escrevi duas vezes a mesma palavra.

Além de errar na leitura, você errou na comparação, já que sociedade e saciedade são paradoxos.

Na verdade, de tão distantes, acho que são antípodas que só se conheceram pela internet e, numa paixão lancinante, começaram a trocar mensagens.

Apenas.

Aí, num deletério dia, resolveram marcar um encontro.

Para que ambos tivessem fácil acesso, escolheram um lugar chamado atualidade.

Um lugar que carrega outro paradoxo: é inóspito com 7 bilhões de pessoas.

Encontro marcado. Estrago feito.

A sociedade tem fome. A saciedade pula essa parte.

A saciedade nos deixa satisfeitos. A sociedade pula essa parte.

Trocamos a vogal. Trocamos o final.

Em tempos hodiernos, estamos famintos, mas, na maioria das vezes, não sabemos o que queremos comer.

Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa? (Freud)

Pensando melhor, em alguns casos, voltamos ao costume antropofágico e caçamos uma pessoa pra comer (sem malícias, ok?!), sem quaisquer pudores. E, no fim, palitamos os dentes com as batutas que nos ajudaram na regência dos males orquestrados.

Na falta de competência, vamos de apetência, né?

Falar mal é mais fácil que superar. Caluniar é mais fácil do que admirar.

Invejamos ou homenageamos com ódio?
“Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais: somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos ‘sem querer”. (Freud)

Ser pequeno ao assumir uma mediocridade tamanho família? Crescimento válido!

Vemos tanta gente curtindo séries e/ou filmes com zumbis que é tentador achar que não estamos vendo atrações de não-ficção, e sim um retrato da sociedade.

E quando falo de zumbis, não estou falando só do desejo de devorar os outros. Falo das horas de sono que não temos devido aos intermináveis feeds que precisam de atualização.

O celular nos trata como súditos e nós, obedientes, acatamos, abaixando a cabeça e seguindo o rumo que a tela informa.

Os vagões estão cheios de silêncios ensurdecedores. As salas de espera são legais por terem um wi-fi que poupa o nosso pacote. Esperar ficou legal, menos nos bancos: os vigias não deixam você passar a fase do Candy.

Estamos naquela coisa da cenoura e o burro, manja? A cenoura é o celular e o burro… Você sabe quem é.

O tema central é a fome, mas estamos com o ego obeso e ira farta.

É uma alimentação desregrada, com prazo de validade vencido.

Ia falar de coliformes fecais, mas esses saem de nossas bocas, e não do que comemos.

O mundo é feito de hipocondríacos e hipocrisias.

Vivemos com medo de ter medo e levantamos bandeiras que não suportamos o peso das hastes.

Choramos em documentários sobre as crianças da África, mas escarramos em pedidos intermitentes de crianças nos faróis.

Fome: se não matamos, morremos.

É um negócio estranho, já que nos aproximamos de quem está longe e nos distanciamos de quem está próximo.

Enquanto isso, seguimos a horda da superficialidade e só nos aprofundamos em aparências movediças e fétidas.

Cheio de mundo, vazio de alma.

Torcemos pras horas passarem, rezamos pros dias acabarem, suplicamos pras festas de fim de ano chegarem. Afinal, com os fogos do ano novo, fica mais fácil fazer promessas que serão quebradas no mês seguinte.

Escrevendo este texto, pensei que era muito pessimista e, vagarosamente, percebi que tô mais pra realista. Somos culpados em deixar a realidade ser péssima.

Mas há uma luz no fim do túnel. E não é um trem carregado de lamúrias e descasos: é a luz da sabedoria, aquela do mito da caverna, sabe?

Na verdade, nem é um túnel, já que seria muito fácil sair numa disparada ignóbil: tá mais prum buraco.

Esse buraco é gigante, mas podemos sair dele sem esmagar o próximo: basta oferecermos o nosso ombro — lugar onde poucos amigos podem derramar lágrimas — para que outras pessoas escalem, cheguem na superfície e tragam ajuda para que possamos sair.

Ah!, mas não se assuste: as pessoas que ajudamos na escalada do sucesso podem — quase sempre — virar as costas e seguir para o apogeu da mesquinhez e canalhice.

A merda de ser “gente boa” é que achamos que os outros também devem ser.

Aí, vem aquela parada de ingratidão, reciprocidade e inconformismo por tais atitudes.

Atitudes que ganham, cada vez mais, altitudes.

Voos assim não são raros, mas, na maioria das vezes, as pessoas beijam o céu com asas de Ícaro.

A queda é mais célere que a subida.

Por isso, nos alimentemos de coisas boas. De perseveranças. De paciências. De compaixões. De ensejos. Desejos.

“Aquilo que se chama desejo é o suficiente para que o sentido da vida não seja o de produzir um covarde.” (Lacan)

A sociedade prefere o desperdício em desgraças do que a fartura em benesses.

A desigualdade, desmembrada, nos faz achar que temos dez em igualdade. Se estamos bem, o outro também deve estar. E se não estiver, que dê um jeito de ficar.

Um não chega aos pés do outro.

Horrendo é ver que muitos buscam a felicidade roubando-a dos outros, independente do que era: carro, casa, esperança, amor, vida…

Só corremos. Socorremos!

O mundo é brutal. É animal. É canibal. É real.

E no final dessa vitória de Pirro, veremos que a morte não virá pela fome, e sim pela vergonha.

Se continuarmos assim, a sociedade acaba.

A saciedade não.