Aquele sobre lá
Hoje o dia acordou cinza. Com uma chuva daquelas que parece que o mundo vai acabar. Digno das lágrimas que eu despejava a um ano atrás. Digno do mundo que acabou pra mim, a um ano atrás. Digno do cinza que tudo se tornou. De lá pra cá.
Não que a vida aqui seja feita apenas de cinzas. Mas é que depois que se conhece a beleza das cores vívidas, fica difícil aceitar um mundo menos colorido. Parece que aquele azul, antes tão lindo, simplesmente desbotou. O tão amado laranja do céu, do qual morria de saudade, agora parece tão mais do mesmo. As cores que aqui brilham, não brilham como lá.
Sei que a felicidade faz com que todas as cores brilhem mais. E a saudade também. Mas o ar de lá parece que tem fe² (felicidade) ao inves de O². Porque a felicidade parece que corre nas veias do povo. E aqui, bom aqui parece que a felicidade anda correndo do povo. Até o O² parece que vai acabar.
Hoje o dia terminou com aquele lindo sol entre nuvens. Cinza e laranja. Um céu misturado. Bittersweet. Digno do que tudo isso, é agora dentro de mim.
Aprendi a viver melhor. As coisas simples hoje pesam mais. Nas pequenas alegrias, vou recolorindo minha terra. Entre cinzas e laranjas vívidos. Me encontro um pouco mais aqui. Às vezes um pouco mais lá.
Só sei, que Gonçalvez Dias entende perfeitamente do que eu to falando…
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em. cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar sozinho, à noite
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Em cada palavra, em cada vírgula.
Mas ele fala daqui. Eu falo de lá.
Não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá.