A Verdadeira Carta de Iwo Jima

Dezy Fukushima
Aug 22, 2017 · 9 min read

Diante da derrota em Saipan (15/07/1944 - 9/07/1944), o império japonês temia o avanço dos norte-americanos à ilha principal. E por questões estratégicas, o alto comando militar americano decidiu conquistar Iwo Jima, uma ilhota localizada exatamente entre Saipan e Tóquio, a fim de dominar o campo aéreo existente para aterragem e reabastecimento para bombardeios com aeronaves Boeing B-29. Entretanto, havia um grande risco de contra-ataque japonês, pois as aeronaves de escolta, os caças, estavam à caminho. Assim, em fevereiro de 1945, deu-se a Operação Detachment, uma das mais sangrentas batalhas da Guerra do Pacífico.

Iwo Jima

No filme Cartas de Iwo Jima – continuação do filme A Conquista da Honra – cujo cenário é Iwo Jima, é ilustrada a desvantagem beligerante do império japonês, formado por cerca de 21 mil homens, maioria civis e praticamente sem treinamento militar. Do lado americano, 110 mil homens, a maior frota de desembarque reunida no Pacífico – dois corpos de fuzileiros navais, três de infantaria e mais dois batalhões de engenharia da marinha –, sob comando do almirante Chester Nimitz, prontos para executar a missão de encurralar os japoneses. Com número de combatentes cinco vezes maior, estrategistas militares americanos calcularam que Iwo Jima cairia em três ou quatro dias. Mas para os japoneses, lutar por Iwo Jima era proteger a última barreira que impedia a pressão norte-americana à ilha principal.

Uma das frases mais marcantes do filme é a do comandante do batalhão japonês, o tenente-general Tadamichi Kuribayashi: “Estarei sempre à frente de vocês”, interpretado pelo ator Ken Watanabe. Kuribayashi teve uma brilhante carreira militar e experiências militares nos EUA, onde viveu por cerca de dois anos. Vendo de perto a tecnologia e a potência industrial norte-americana, o comandante sabia que não havia chances de seu país vencer. Contudo, Kuribayashi inicialmente não aderiu à tática suicida comum do império japonês, os ataques carga banzai [1].

Primeiramente ele evacuou civis da ilha e elaborou estratégias de defesas como construção de túneis, cavernas e bunkers para minimizar o impacto de bombardeios. Assim, Kuribayashi comandou a defesa japonesa que resistiu por longos trinta e seis dias. Estima-se que o Japão perdeu cerca de 20 mil homens e os norte-americanos perderam aproximadamente 7 mil. Sabe-se que o general Kuribayashi ficou ferido e teria sido levado ao quartel-general ainda com vida, mas cometeu seppuku (ritual japonês de suicídio) tendo seu corpo enterrado por um de seus oficiais.

Nos EUA, combatentes sobreviventes foram recebidos como heróis. Soldados de outros departamentos das forças armadas prestavam continências – independentemente do nível hierárquico – e, até hoje, combatentes de Iwo Jima estão entre os mais respeitados. A prolongação da batalha fomentou o desejo de vitória do povo americano. “Como vencer o Japão sem que percamos tantas vidas americanas?” Resultando posteriormente o uso da mais poderosa arma já existente, a bomba atômica.

O principal ícone da batalha de Iwo Jima é a foto da bandeira norte-americana sendo hasteada no cume do monte Suribachi, sendo a primeira fotografia a vencer o Prêmio Pulitzer [2], vindo a ser impressa em selos postais e também transformada em estátua no Museu de Guerra dos Fuzileiros Navais, no Condado de Arlington em Virgínia com a seguinte frase: “Uncommon valor was a common virtue”. [3]

No filme, centenas de cartas que os soldados japoneses direcionaram às suas famílias são retiradas do subterrâneo dos túneis e cavernas de Iwo Jima. Mas aqui pretendo divulgar “A Verdadeira Carta de Iwo Jima”.

Em 17 de março de 1945, nove dias antes do último ataque japonês, o contra-almirante Rinosuke Ichimaru [4] juntou todos os homens capazes de se mover numa caverna a 20 metros do subsolo, ordenando que seu assistente, o tenente-coronel Mase, lesse a carta.


Uma carta ao Presidente Roosevelt

O contra-almirante Ichimaru da Marinha Japonesa escreve esta para Roosevelt.

Eu tenho uma palavra a lhe dar com o término desta guerra.

Estamos há aproximadamente 100 anos desde que o Japão iniciou as relações diplomáticas com outros países do mundo, desde a chegada de Comodoro Perry em Shimoda. [i]

Durante este período, o Japão enfrentou crises extremas e conflitos indesejáveis como a Primeira Guerra Sino-Japonesa, Guerra Russo-Japonesa, Primeira Guerra Mundial, Incidente da Manchúria, passando pela segunda Guerra Sino-Japonesa, e infelizmente hoje em conflito com seu país.

Ao julgar o Japão por este lado da moeda, você irá difamar nossa nação como “perigo amarelo”, a nação sedenta por sangue ou talvez um protoplasma da camarilha militar.

Embora você tenha em mãos apenas o ataque surpresa à Pearl Harbor como propaganda para iniciar esta guerra, eu acredito que você e todos sabem que você nos encurralou, e que o Japão não teve alternativa para se salvar da autodestruição.

Nós somos governados pela Alteza Imperial sob os ensinamentos do Grande Imperador, criador deste Império: “Yōsei” (Justiça), “Choki” (Sagacidade), “Sekkei” (Benevolência) e “Sanko” (Ordem) – “Hakkō ichiu”. [ii]

“Os quatro mares do mundo unidos em fraternidade não conhecerão ondas altas, nem ventanias.” [iii] Seu tio Theodore Roosevelt deve saber bem do que se trata.

Existem japoneses de várias classes e variadas profissões e nós confiamos na doutrina do Imperador. E nós soldados da força de defesa imperial pegaremos em armas e seguiremos a doutrina acima mencionada.

Embora nós, neste momento, estejamos sofrendo ataques aéreos e bombardeios por sua potência material superior, espiritualmente nós estamos queimando de prazer e desfrutando a paz mental.

Esta tranquilidade espiritual é a nossa peculiaridade e nós estamos ardendo de entusiasmos para defender nosso Imperador, e isto deve ser difícil para você e Churchill compreender.

E é com pena desse espírito fraco que escrevo uma ou duas palavras.

Julgo vocês por seus atos de supremacia branca e especialmente anglo-saxônica em escravizar o povo de cor para monopolizar recursos naturais do mundo.

E para alcançar este fim, inúmeras jogadas foram feitas para persuadir as raças amarelas para, no final, tirarem toda sua força.

Agora estão punindo o Japão apenas por libertar outras nações asiáticas dos seus interesses e ambições. E apesar do nosso tratado de aliança, vocês passaram a julgar nossa existência como prejudicial para seu plano, nos difamando de selvagens e que devemos ser exterminados. Isso condiz com os ensinamentos do seu Deus?

A conclusão da Guerra Pacífico-Asiática provocará o nascimento de uma nova esperança no Leste Asiático e essa virada num futuro próximo resultará na independência dos povos em forma de paz, sem a suas intermináveis intervenções.

Vocês já são uma nação próspera. Por que podam as nações que estão brotando quando ainda são folhas novas?

É preciso apenas devolver o que pertence ao Oriente para o Oriente.

Por que vocês são assim, gananciosos e tacanhos?

A existência da União do Leste Asiático não é uma ameaça à sua nação, pelo contrário. Será o pilar da paz e felicidade mundial. A paz eterna é o único desejo do nosso Imperador e espero que você tenha generosidade suficiente para compreender.

Analisando a situação Europeia, não há dúvidas de que a triste luta de raças causadas por desentendimentos mútuos nos fazem sentir na pele a necessidade da paz mundial.

Por ora, abdico meus julgamentos a respeito do Hitler, mas não posso ignorar o fato de vocês culparem a Alemanha como o pivô da Segunda Guerra Mundial, sendo que excluíram sua chance de restauração – na base da pressão, após sua terrível derrota na Primeira Guerra.

Não consigo compreender como querem destruir os planos de Hitler, mas ao mesmo tempo se aliando a Stalin.

A humanidade continuará em guerras e jamais conhecerá a paz enquanto o mais forte tiver poder sobre todos.

Você deve estar eufórico neste momento vendo que seu plano de dominar todo o mundo está prestes a se realizar. Mas não se esqueça de que seu predecessor Presidente Wilson fracassou em seu momento de auge.

Esperançosamente, desejo que você não siga essa mesma trilhada.

Contra-Almirante Ichimaru


A carta foi traduzida pelo soldado Hirofumi Mikami, nascido e criado no Havaí até os 14 anos de idade. Os jornais norte-americanos publicaram a carta [5] no dia 11 de julho causando grandes críticas e opiniões sobre culpar os EUA pela guerra e sobre contradições do fascismo japonês. Em 1975, Keinichi Murakami, filho do capitão Harushige Murakami, concedeu a carta ao museu da Academia Naval dos Estados Unidos em Anápolis.

Notas

[1] Ataque carga banzai

O ataque carga banzai constitui em atacar em massa o inimigo despreparado com o grito de guerra: “banzai”. Banzai significa “dez mil anos”. Termo utilizado para louvar o Imperador: “Tenno Heika Banzai” – Longa vida ao Imperador ou viva o Imperador. Na batalha de Iwo Jima, encurralados, os japoneses realizaram o último ataque carga banzai no dia 26 de março de 1945. Com a escassez de armas e munições, o último ataque foi executado com granadas, espadas, facas e pás. No Japão, o termo é mais conhecido como banzai totsugeki, ou apenas totsugeki.

[2] Prêmio Pulitzer

A foto da bandeira norte-americana sendo hasteada no monte Suribachi foi tirada duas vezes. A primeira, na manhã do dia 23 de fevereiro de 1945, no momento da conquista do monte Suribachi, mas a bandeira era pequena, media 131 x 71 cm, não podendo ser vista de longe. Algumas horas depois, outro batalhão que escalava o monte Suribachi para instalar fios telefônicos hasteou novamente uma bandeira maior, utilizando um cano de esgoto. Esta segunda foto venceu o Prêmio Pulitzer.

[3] “Uncommon valor was a common virtue”

Esta frase foi proferida pelo Comandante Supremo das Forças do Pacífico dos EUA, Chester Nimitz. Sua interpretação, no contexto da batalha de Iwo Jima, é que há momentos em que um nível mais alto de coragem, ou valor é necessário para realizar uma tarefa impossível. A maioria das pessoas não tem a capacidade de reunir esse tipo de coragem. É raro e, portanto, é incomum. Com efeito, durante a Segunda Guerra Mundial, 82 medalhas de honra foram concedidas aos fuzileiros navais dos EUA. Dentre elas, 22 medalhas – cerca de 25% – foram concedidas aos fuzileiros navais que lutaram em Iwo Jima.

[4] Rinosuke Ichimaru

Rinosuke Ichimaru adquiriu o título de Vice-Almirante após sua morte. Alguns sites e jornais americanos publicaram seu nome como Toshinosuke Ichimaru, mas seu nome correto é 市丸利之助(いちまるりのすけ)Rinosuke Ichimaru.

[5] Veja a carta do Vice-Almirante Ichimaru publicada no Jornal Chicago Tribune no dia 11 de julho de 1945 aqui.

Notas do tradutor

[i] O Comodoro Matthew C. Perry da marinha norte-americana foi o responsável pelo tratado de amizade e comércio entre Japão e os EUA no dia 31 de março de 1854. Apesar de Perry ter chegado por Uraga, província de Kanagawa, tal acontecimento era citado como “Shimoda”, que é o nome da cidade onde se estabeleceu o primeiro Consulado no Japão. Este acordo fez com que o Japão adotasse a política externa. Posteriormente, o Japão assinou acordos similares com a Rússia, França e Inglaterra.

[ii] Hakkō ichiu é uma passagem do Nihon Shoki (Crônicas do Japão) – segundo livro mais antigo da história japonesa – que pode ser traduzido como: “Fazer do mundo inteiro uma única casa” ou “Todos sob o mesmo teto”. Sustentando a filosofia da “fraternidade universal”, a harmonia e igualdade entre as raças. A frase tornou-se slogan da Segunda Guerra Mundial após o então primeiro ministro japonês Fuminaro Konoe citá-la em seu discurso no dia 8 de janeiro de 1940, enfatizando o imperialismo japonês. A frase acabou sendo proibida pelo Comandante Supremo das Forças Aliadas após a derrota japonesa.

[iii] Poema composto pelo Imperador Meiji, Mutsuhito, em 1904, no período da Guerra Russo-Japonesa. O poema foi citado durante a conferência imperial no dia 6 de setembro de 1941 para expressar sua opinião contrária ao início de guerra com os EUA, Holanda e Inglaterra, rogando solução por meios diplomáticos.

よもの海 みなはらからと思ふ世に
など波風の たちさわぐらむ

“Yomono Umina harakarato omouyoninado namikazeno tachisawaguramu”

“Os quatro mares unidos em fraternidade não conhecerão ondas altas, nem ventanias.”

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