Quando eu era pequeno, me lembro do dia em que um amigo me mostrou seu ferrorama que tinha ganhado há poucos dias no seu aniversário. É uma cena curta, mas lembro até hoje que achava aquele brinquedo a oitava maravilha do mundo. Aos meus olhos era um brinquedo mágico, e tê-lo era um objetivo de vida. O tempo foi passando e hoje em dia eu não consigo entender o que me atraiu tanto naquele ferrorama.
Mesmo assim o sentimento é pequeno perto do que o Japão sente.
Trens não são somente uma moda no Japão, são uma obsessão. Os japoneses amam trens assim como nós amamos o futebol, e isso não é exagero. Existem revistas sobre trens, fotógrafos de trens e fãs fanáticos por essas locomotivas. O que mais intriga é: o que faz desse meio de transporte algo tão atraente para os japoneses ao ponto de obsessão?

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Os primeiros relatos sobre trens no Japão são datados do fim do Período Edo, entre os anos de 1850 a 1860. Na época o país ainda vivia no xogunato, uma espécie de governo feudal, e por se tratar de uma ilha a sua comunicação com outros países era escassa. Durante essa época vários estrangeiros, como o russo Yevfimy Putyatin e o Comandante americano Matthew C. Perry trouxeram ao país locomotivas para demonstrá-las aos japoneses. As máquinas despertaram o interesse do governo, que decidiu investir na construção de ferrovias, sendo a primeira delas, que ligava as estações de Shimbashi e Yokoyama, inaugurada em setembro de 1872.
Enquanto que no começo do século 20 a indústria automotiva prejudicava as ferrovias, no Japão os trens ainda continuavam fortes no mercado devido à baixa disponibilidade dos carros no país (poucos carros eram importados e montadoras nacionais como a Toyota foram surgir apenas no começo dos anos 30). Entretanto, durante a guerra, as ferrovias sofreram enormes danos com os bombardeios americanos, situação que foi agravada com a falta de materiais para reparos e manutenção das linhas. Mesmo com todos os obstáculos, os japoneses se empenharam e, inspirados no espírito de reconstrução, não só reconstruiram sua malha ferroviária como também criaram o primeiro trem bala moderno, a Tokaido Shinkansen, inaugurada em 1964 para as olimpíadas de Tóquio, época em que o país estava sobre holofote da mídia mundial e que criou uma relevância ainda maior para o acontecimento, cuja viagem inaugural se tornou um evento nacional. Em um século, o país se transformou de importadora a pioneira das ferrovias.
Mesmo com a popularização dos carros no país, os trens se mantiveram fortes até hoje e são responsáveis por cerca de 43% das viagens diárias da população nas grandes metrópoles, comparada com os menos de 20% relativos aos carros. Um dos fatores para essa porcentagem é o fato de que poucos são os japoneses que possuem um carro nas metrópoles, devido à falta de espaço para estacionamento. Só pra ter uma comparação: estamos falando de uma ilha de quase 380,000 km² com uma população de quase 127 mil habitantes. A cidade de São Paulo possui uma área de mais de 1,500,000 km² e uma população de 11 milhões de habitantes. Não dá pra todo mundo ter um carro.

O mais importante não são as estatísticas, mas sim o fato de que no Japão, o trem é uma cultura de respeito. Aliada à famosa pontualidade do país, os trens são considerados uma das redes de transporte mais desenvolvidas do país. Atraso por lá é uma palavra definida em segundos, e quando alcança os minutos se torna uma ofensa. A média de atraso de um trem na Tokaido Shinkansen é de 0,6 (36 segundos) por trem. Em 2005, um acidente causado devido à uma medida desesperada de um engenheiro de trem depois de um atraso de 90 segundos deixou cerca de 94 mortos. Foi o maior acidente ferroviário em quatro décadas. Além disso, para evitar suicídios, as linhas costumam cobrar das famílias de pessoas que se suicidam pulando na frente dos trens a quantia calculada da perda de lucro e dos atrasos ocasionados pelos incidentes.
Porém essa é a menor (e uma das piores) partes de toda a mágica por trás dos trens japoneses. No Japão, os entusiastas são chamados de “tetsudo fans” (tetsudo significa “ferrovia” em japonês). Eles observam, estudam e sabem de todos os fatos sobre cada locomotiva e linha existente no país.
A Takara Tomy, uma das maiores produtoras de brinquedos do país (aquela do Giga Pudding, o pudim gigante) possui uma marca chamada Tomix especialmente feita para vender modelos realistas das grandes máquinas focado em um público mais velho, enquanto que a linha Plarail, uma espécie de Hot Wheels ferroviário, é voltado para crianças.
Os trens não ficam apenas confinados aos brinquedos. A Taito, produtora de jogos responsável pela criação de Space Invaders, produz desde 1995 a franquia Densha de Go!, que é um dos simuladores de trens de maior sucesso no país. O objetivo do jogo é seguir o itinerário das estações, baseadas em linhas reais do Japão, obedecendo as normas de velocidade e segurança e chegando sem atrasos no destino. E acreditem: é uma das franquias de maior sucesso da produtora.
A indústria ferroviária no país utiliza desse sucesso para promover o serviço e também criar um ambiente agradável para os japoneses ao utilizarem os trens. Ao invés da campainha padrão quando o trem parte da estação, cada estação possui seu próprio “toque de embarque” avisando os passageiros que o trem já vai partir. É algo incomum mas que dá um toque de identidade para cada estação.

Além disso, uma rede de lanchonetes chamadas de Tetsu Cafe existe no país, com uma temática toda voltada para as grandes locomotivas. No seu interior, os Cafes possuem objetos históricos da indústria no país, peças antigas de trens, maquetes com ferroramas e fotos. A temática está em todo lugar, desde a roupa das garçonetes, até o cardápio, chegando até mesmo ao formato dos pratos (e do gelo) servidos no local.
Trens não são apenas parte do mundo real. A mais nova temporada da franquia Super Sentai (a “inspiração” original dos Power Rangers) é chamada Ressha Sentai ToQger e tem uma temática voltada totalmente para os trens. Os heróis ganham seus poderes de uma linha mística chamada Rainbow Line, dirigem mechas gigantes (o equivalente dos Megazords) em formatos de trem e impedem os vilões de construirem uma ferrovia das trevas para espalhar o mal no mundo. A série é um dos tokusatsus (séries de super-heróis de armadura) de maior sucesso do Japão.

Apesar da diminuição do uso dos trens durante as últimas 5 décadas, o amor do Japão continua sólido. Uma das provas é a inauguração da linha Kyushu Shinkansen em 2011. Antes da inauguração, um comercial foi gravado para celebrar o acontecimento e teve a participação de mais de 10 mil pessoas que compareceram em vários pontos da rota numa tentativa de aparecerem no comercial. O comercial de três minutos foi feito a partir de uma edição de mais de três horas de imagens gravadas ao longo da viagem.
No dia 11 de março, um dia antes da inauguração da linha, o Japão foi atingido por um terremoto de 9 graus na Escala Richter que causou uma tsunami na costa de Tohoku, deixando cerca de 15 mil mortos e 6 mil feridos, fazendo com que o comercial não fosse ao ar. Algumas semanas depois, o comercial foi liberado novamente no Youtube e conseguiu alcançar mais de 1 milhão e meio de visualizações em poucos dias, o que fez com que o comercial tivesse seu espaço novamente na TV.
Um dos motivos para a volta do comercial é que a mensagem que ele passa é que com a união de todos, o Japão se torna um lugar melhor, uma esperança necessária em uma época difícil. E uma mensagem como essa ganha mais força ainda com a figura dos trens, que cativa um orgulho e um amor de uma nação, resistindo ao tempo enquanto caminha lado a lado com toda uma cultura.
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