Um novo projeto pessoal e impressões sobre a Pré-Temporada
Mais uma temporada de Indianapolis Colts, e dessa vez livres do fantasma que a gestão Grigson e Pagano (leia-se PAGRIGSON™) deixou em Indianapolis, com a quase aposentadoria de nosso franchise QB. Sobre esse período da história dos Colts, escrevi para o Pick Six um texto analisando taticamente toda a desgraça que se abateu sobre a carreira de Andrew Luck (parte 1 e parte 2), bem como outro elencando o que #12 fez de melhor carregando times medíocres que teve durante suas seis primeiras temporadas.
Primeiramente, o propósito deste meu novo projeto aqui pelo Medium é de depurar de forma mais pessoal e informal os aspectos táticos do jogo do Indianapolis Colts pelos dois lados da bola, como forma de exercitar meu conhecimento sobre futebol americano e cobrir o time que eu escolhi para torcer. Ao longo dessas 12 temporadas acompanhando os Colts, sempre senti falta de textos explorando X&Os específicos e frequentes do time, seja em inglês ou em português, então decidi fazê-lo por contra própria. Como não cabe realizar uma análise semanal falando apenas do meu time com doses de clubismo em terceiros, decidi fazê-lo individualmente.
Tive vontade de começar esse projeto ano passado, mas claramente a ausência de Luck tirou um pouco da vontade de acompanhar muito mais além do que as três horas dominicais, e como análise tática exige um acompanhamento muito mais aprofundado, eu simplesmente não queria ver péssimo football mais do que o necessário.
Posso até trazer minha relação pessoal com os Colts em outro texto, mas para não alongar este além do necessário, tratemos logo dos aspectos táticos do time na pré-temporada de 2018. Como sabemos, a franquia trouxe Frank Reich para head-coach, acompanhado por Nick Sirianni como coordenador ofensivo, Matt Eberflus como coordenador defensivo e Bubba Ventrone responsável pelos special teams. Outros dois nomes importantes estão em Marcus Brady, técnico de QBs e Dave Deguglielmo, responsável pela linha ofensiva.
A chegada de Frank Reich nos faz acreditar em um ataque operando aos moldes do Philadelphia Eagles em 2017, misturando conceitos de west-coast offense e run-pass-option. Alguns pontos desse ataque a se observar permitirão que Luck tenha um plano de jogo funcional para que seu talento sobressaia, em vez de se esforçar para mascarar lacunas de talento de seus companheiros e de preparo por partes dos técnicos. Estes pontos são:
- Conceitos que permitem uma rápida tomada de decisão por parte do QB;
- Envolvimento dos RBs no jogo aéreo;
- Maximização das possibilidades por jogada de jardas após a recepção por meio da quantidade de movimento dos recebedores;
- Mistura de conceitos híbridos como o Run-Pass-Option;
- Proteção do QB por meio do esquema;
- Participação do HC como mente ofensiva para trabalhar com Andrew Luck.
O Ataque
Retornando aos aspectos pessoais, minha “especialidade” no que se refere à análise tática de futebol americano é sobre os ataques. Como é a posição em que joga o QB, portanto foi o que eu mais me interessei em ler materiais sobre desde que eu comecei a estudar mais profundamente sobre o esporte. Portanto, será natural que meus próximos textos tenham maior profundidade sobre essa parte do jogo, enquanto eu tento correr atrás para equilibrar meus conhecimentos sobre a parte defensiva.
Sem dúvida, o objetivo da pré-temporada para o time titular de ataque foi “desenferrujar” Andrew Luck. Vimos uma atuação quase leve em Seattle, uma certa dificuldade no primeiro jogo no Lucas Oil Stadium contra os Ravens, compensada com uma atuação melhor e mais flúida contra os 49ers.
Colts @ Seahawks — Semana 1 da Pré-Temporada
6/9, 64 jardas. Esse é o statline de Luck para a partida em Seattle. Dentro dos 12 snaps jogados pelo camisa 12 nessa partida, destacamos a conversão de uma 4th & 11 aos 11:55 restantes do primeiro quarto, na linha de 37 do campo de ataque.

Na figura 01 observamos a jogada desenhada com um conceito mesh e uma hot-route com o running-back atacando o flat. Pela reação de Luck no desenvolvimento da jogada, o recebedor primário é o RB com a rota indicada em laranja (posteriormente eu explico a dinâmica de cores que eu utilizo em meus desenhos táticos — sim, existe uma lógica para tal). As rotas que se cruzam em amarelo no box formam o conceito mesh, que na jogada terão o objetivo de criar tráfego e stress em cima do defensor circulado em azul. Essa é a chave da jogada, permitindo que Robert Turbin converta a descida.

Na figura 02 observa-se o momento em que sai o passe. O defensor marcado em azul, apesar de não sofrer uma pick-play (bloqueio por parte de um corredor de rota), não consegue se deslocar para cobrir o flat apenas pelo fato de ter dois adversários correndo em sua direção, mesmo sem exercer contato. Por essa razão, Turbin tem vida fácil a converter a descida. Dentro dos pontos levantados a serem chave do ataque de Indianapolis para esse ano, pode-se destacar a utilização de um design de jogada que permite a rápida decisão de Luck da jogada, afinal, ele não precisa escanear o campo para encontrar Turbin, apenas se certificar que a “armadilha” do mesh prendeu o defensor que deveria ler na jogada, gerando o espaço vazio, ao mesmo tempo em que essa rota pré-determinada garante que Luck solte a bola rapidamente, evitando pancadas. Além disso, como Robert Turbin está em velocidade, é mais provável que ele consiga quebrar a primeira tentativa de tackle do adversário, aumentando as possibilidades de jardas após a recepção.
Utilização de conceitos como esse serão de grande importância para que o ataque dos Colts pare de depender exclusivamente da capacidade de Luck em construir scoring-drives através de big-plays, e sim tenha um ritmo mais cadenciado de ataque que permita a implantação de dúvidas nas defesas adversárias, controle o relógio e canse os adversários.
Ravens @ Colts — Semana 2 da Pré-Temporada
O “Monday Night Football” foi o jogo em que Luck teve dificuldades contra uma excelente defesa dos Ravens mesmo já em ritmo avançado de training camps. Apesar do bom desempenho nos treinos conjuntos na semana da partida, o evento mostrou um jogador mais hesitante, o que se espera de um atleta que há mais de 500 dias não jogava uma descida em seu estádio.
Nessa partida, os Colts já haviam perdido por lesão o WR calouro Deon Cain (fora da temporada) e o RB Marlon Mack, que deve perder os primeiros jogos. Ao contrário do que ocorreu em Seattle, o jogo corrido teve problemas para se desenvolver, e mesmo colocado em uma amostra maior de snaps, Luck sofreu dois sacks. Sua statline ficou em 6/13, 50 jardas e 1 INT, uma regressão em relação à partida anterior.

Utilizo como exemplo a interceptação sofrida por Luck como exemplo de sua esperada hesitação pela falta de prática no jogo. É sabido por todos nós a capacidade do jogador de estender e criar jogadas com as pernas, mas aqui esse asset de certa forma fez com que ele perdesse uma janela de passe.

Como observamos no desenvolvimento da jogada nas figuras 03 e 04, percebemos a abertura de duas possíveis opções para que Luck solte a bola. A primeira, com o RB no flat é improvável pela relação descida-distância. Já a segunda, mais possível com Jack Doyle atacando o pylon em uma rota out. Entretanto, um passe desse numa rota dessas é difícil, apesar de um jogador como Luck ser capaz de realizá-lo em condições normais de temperatura e pressão. Apesar de Doyle quase não aparecer no frame, tenho quase certeza que a possibilidade do passe existiu, mesmo que precise confirmar na câmera All-22, indisponível em jogos de pré-temporada. Os replays que a ESPN colocou também não ajudam a confirmar minha suspeita.
Pela postura dos pés, Luck estava tentando evitar o rush pelo meio da linha, enquanto tentava criar a extensão da jogada para que o passe acontecesse. Pela figura 03, observamos que ele detectou Doyle como alvo, apesar de ter perdido a janela para um passe que no mínimo resultaria na conversão da terceira descida.
49ers @ Colts — Semana 3 da Pré-Temporada
No jogo conhecido o ensaio geral dos times para o início do campeonato, tivemos um Luck bem mais solto e arriscador. Isso, além de um jogo mais vistoso na medida do possível, também resultou no primeiro e único TD do jogador nas partidas preparatórias. Se na semana 2 vimos o que de pior a capacidade de extensão de jogadas de Luck pode gerar, agora observaremos os aspectos positivos dessa ferramenta.
Desde laceração nos rins e a cirurgia no ombro, esperamos que haja uma mudança em que Luck cuide da sua própria proteção, jogando a bola fora e fazendo slides e saindo de campo em situações de scrambles. Ao mesmo tempo, o jogador tem um potencial de criar jogadas com as próprias pernas. Essa é uma característica que o jogador vai manter em seu arsenal queiramos ou não, por que já é um hábito de um atleta que joga como quarterback há pelo menos uns 12 anos, contando por baixo.
Como falado anteriormente, essa capacidade traz pontos negativos e positivos. Os negativos já são bem conhecidos da torcida do Indianapolis Colts, já que o atleta perdeu a temporada de 2017, agora ressalto os positivos através do vídeo de jogo, tomando a partida contra os 49ers como exemplo.

Observemos a capacidade de Luck em antecipar janelas estreitas e conectar passes, aproveitando-se de um curto dropback e sua sintonia com TY Hilton. A defesados 49ers mostra uma blitz que não irá acontecer, já que o box-safety recua pré-snap e o camisa #48 circulado fará o mesmo. Os Colts partem de um set de recebedores congestionando o weakside, mostrando que ali será criado o ponto de estresse na defesa. Enquanto os demais recebedores correm rotas dig, TY Hilton traça um slant que quebra cinco jardas após a linha de scrimmage. Luck apenas posiciona os pés após sair do shotgun e lança um passe preciso em antecipação para converter a descida.

Retomando o raciocínio sobre o estilo inconsequente de Luck, vamos até as duas jogadas-chave no drive de touchdown do jogo contra os 49ers. A figura 06 mostra o momento em que Luck evita um sack e dispara 15 jardas ao fundo do campo, produzindo com as pernas uma jogada já morta em uma 3rd & 13.

Em seguida, saiu o TD. Conceito four verticals clássico partindo de um set com TE (Eric Ebron). Na redzone, essa jogada tem o objetivo de criar estresse na marcação de fundo de campo, que em defesas inteligentes normalmente é em zona. Basicamente, ataca-se o campo com mais jogadores que a secundária pode marcar. Portanto, algum defensor terá que fazer uma escolha e sobrará o alvo da jogada livre.

Apesar de ser uma progressão simples, ela precisa ser feita on-flow para que funcione perfeitamente. Além disso, o posicionamento da bola é excelente para que apenas Ebron a alcance.

Linha Ofensiva
Setor do ataque eternamente problemático em Indianapolis durante a carreira de Luck, supostamente foi resolvido com a adição do left-guard Quenton Nelson (Notre Dame) com a sexta escolha geral do Draft. Supostamente resolvido por que nossa OL é ruim até que se prove o contrário, e como Nelson ainda não jogou um snap profissional valendo, então seu possível impacto na unidade por enquanto é apenas promessa.

Ryan Kelly, center que por anos foi o pilar do jogo corrido em Alabama e teve uma sólida temporada como calouro, contribuindo para que os Colts tivessem em Frank Gore seu primeiro corredor a passar 100 jardas em um jogo desde Vick Ballard em 2012, batalhou contra lesões em sua temporada de Sophomore. Afinal, Colts é isso mesmo, errado é quem espera diferente. Portanto, um jogador que parecia ser indestrutível em sua carreira no College, teve o azar de se machucar em seu segundo ano.
Na pré-temporada, vimos Kelly, Nelson e Braden Smith (37ª escolha do Draft — 2ª rodada — Auburn) sólidos na proteção interior em jogadas de passe. O zone-blocking teve problemas, possivelmente pelo fato de Reich ainda estar escondendo o playbook (também existe a possibilidade de ele ser ruim em desenhar esquemas de bloqueio, a confirmar). Para complicar os parâmetros dessa equação, o comitê de running-backs contendo Marlon Mack (machucado), Robert Turbin (suspenso por quatro jogos — PEDs), Nyheim Hines, Jordan Wilkins (calouros) e Christine Michael deve gerar certa instabilidade no jogo corrido.
Apesar da receita pronta pro desastre, é esperado que o esquema de zone-blocking entre em sintonia à medida que os jogos forem acontecendo e dando o mínimo de suporte para que Luck possa conduzir o ataque. Quanto à proteção do passe, temos uma situação complicada nas duas posições de tackle, já que Anthony Castonzo passou o training camp lesionado e o correspondente do lado direito da linha parece não ter um titular a ser nomeado.
Possíveis titulares: Anthony Castonzo, Quenton Nelson, Ryan Kelly, Matt Slauson, Denzelle Good.
Depth da posição: Le’Raven Clark, Joe Haeg, Braden Smith, Mark Glowinski, J’Marcus Webb.
Skill-Position Players
Quanto aos jogadores que recebem passes, temos como principais nomes e go-to-guys de Andrew Luck o WR T.Y. Hilton e o TE Jack Doyle. Com esses dois jogadores Luck mostrou uma sintonia quase que automática, mesmo nas partidas em que teve dificuldades. Além disso, Eric Ebron pareceu mais integrado ao ataque, enquanto Chester Rogers parece ser o slot receiver, e Ryan Grant, trazido para ser o flanker, está tendo dificuldades, sobretudo nas recepções contestadas por defensores.
Erik Swoope parece ser o jogador a se posicionar em situações de goal-line e formações de fullback, algo semelhante ao papel que Jack Doyle exercia quando começou a entrar no radar da torcida. Também chegou Marcus Johnson via troca de Seattle, com os Colts mandando o FB/TE Darrell Daniels.
Defesa
Na defesa, o trabalho deve ser maior, já que o atual elenco não permite fazer muita coisa além de torcermos para que os atletas se desenvolvam. Entretanto, com bases em entrevistas de Chris Ballard e de Frank Reich, esperamos o seguinte:
- Defesa construída sobre os moldes da velocidade como principal característica.
- Front 4–3 e cobertura em zona.
- Utilização de um núcleo jovem que integre o time por muitos anos.
Mesmo utilizando esses preceitos, o trabalho defensivo é mais complicado, já que Ballard dispensou a maioria dos veteranos do elenco. Nomes sólidos como Johnathan Hankins e John Simon não estão mais disponíveis, enquanto o time terá que contar com a evolução imediata de nomes como Quincy Wilson, Malik Hooker, Darius Leonard e Kemoko Turay.
Se nas últimas temporadas a defesa apesar de ser uma peneira contra o passe, teve certa solidez contra a corrida, a partida contra os 49ers mostrou uma queda no run-stopping. Anteriormente, a principal dificuldade da defesa era o preparo contra quarterbacks acima da linha Andy Dalton, e agora a dificuldade parece ser novamente parar a corrida, assim como em 2006 e 2014, por exemplo.
Se o cenário parece desesperador (ou mais do mesmo, para quem já é um torcedor vacinado), há um sopro de esperança no retorno dos safeties Malik Hooker e Clayton Geathers, que atuaram juntos pela primeira vez contra os Niners. A ascenção dos LBs Skai Moore e Darius Leonard no time titular também é auspiciosa, principalmente com Leonard ter demostrado durante a pré-temporadaaaaaaaaaaa uma capacidade de seguir a bola como se fosse um típico ball-hawker, apesar de não ser safety.
Provavelmente veremos uma defesa que cederá muitos pontos, principalmente pela inexperiência em quase todas as posições. Resta saber se esse abismo será tão alto como em 2016 que Luck não seja capaz de corrigir. Minha opinião? A defesa fará muita raiva à torcida ao longo de 2018, mas haverá alguns flashes principalmente dos jogadores citados.
Análise da Tabela e Palpite
A ordem dos jogos na tabela é um fator a ser considerado para determinar as pretensões de um time ao longo da temporada. O âmbito mental pode prejudicar ou facilitar o desenvolvimento do time. Por exemplo, se um time perde as cinco primeiras partidas, é provável que o coaching staff passe a pensar mais no draft que em tentar uma recuperação, tal como ocorreu na última temporada. O front office decidiu pôr Luck na Injury Reserve e passou a buscar uma escolha top 3 no Draft.
Sequência dos jogos: Bengals, @ Redskins, @ Eagles, Texans, @ Patriots, @ Jets, Bills, @ Raiders, Jaguars, Titans, Dolphins, @ Jaguars, @ Texans, Cowboys, Giants, @ Titans.
Para 2018, os Colts além dos seis jogos divisionais enfrentam a AFC East, a NFC East, com Raiders (quarto colocado da AFC West) e Bengals (quarto colocado da AFC North) completando a tabela. A bye-week está na semana 9, bem ao meio da temporada, então vamos dividir a jornada de 2018 em blocos de quatro jogos.
Bloco 1: O primeiro jogo contra os Bengals deve ser mais complicado que se espera, afinal os dois times são ruins. Apesar disso, os Colts devem sair com uma vitória no jogo de abertura pela primeira vez desde 2013 (claramente ziquei depois dessa). É provável que Luck tenha que resgatar o time com uma virada no segundo tempo. Apesar disso, a sequência de dois jogos fora de casa contra Redskins e Eagle deve ser de derrotas, completando o record de 1–3 contra os Texans em Indianapolis contra um Deshaun Watson e uma defesa saudáveis.
Bloco 2: O segundo bloco da temporada compreende três times da AFC East e os Raiders. Após o jogo contra os Texans, os Colts têm uma semana curta até o jogo de Thursday Night contra os Patriots em Foxboro, o que deve gerar uma derrota. O time deve se recuperar contra os Jets, Bills e Raiders, fechando a primeira metade da temporada em 4–4.
Bloco 3: A segunda metade da temporada compreende os demais jogos divisionais e os jogos em casa contra times da NFC East. O time deve ter duas derrotas contra uma forte defesa dos Jaguars, enquanto deve se aproveitar dos jogos em casa contra Titans e Dolphins. Record parcial de 6–6.
Bloco 4: A última perna da temporada é mais difícil da segunda metade. Derrotas contra os Texans, Cowboys e Giants, times que prometem ser fortes no jogo terrestre em 2018 terminarão com chace de playoffs, enquanto uma vitória em Nashville deve finalizar o record dos Colts como 7–9, primeiro retrospecto negativo de Andrew Luck como quarterback.
