DO DISTRIBUTISMO AO REALISMO ECONÔMICO

Tristão de Athayde — Alceu Amoroso Lima

Publicado no Jornal Folha de São Paulo 21/04/1966

Foi há quarenta anos precisamente, em 1926, numa conferência na Escola Politécnica do Rio, que comecei a preocupar-me sistematicamente com o reformismo social, na base do distributismo chestertoniano. A colocação do problema social por GK Chesterton era de uma simplicidade meridiana: entre o capitalismo, baseado na hipertrofia da propriedade particular, e o socialismo, baseado na eliminação dessa propriedade, o distributismo pregava a disseminação da pequena propriedade. A primeira obje­ção que recebi foi no fim da própria conferência, formulada por Fernando Laboriau, que preferia a formula fordiana, lançada havia pouco — da grande empresa, racionalmente organizada, na base da produção em série.

Poucos anos depois, em 1931, aparecia a encíclica Quadragésimo Anno, em que Pio XI atualizava a doutrina social da Igreja, pela primeira vez formulada, de modo sistemático embora ainda vago, por Leão XIII, em 1891. A Rerum Novarum se prendia ainda à primazia do elemento moral, e, portanto, apenas de consciência, como fator essencial de uma boa organização social. A Quadragésimo Anno dava um passo à frente, exigindo, ao mesmo tempo «a reforma dos costumes e das instituições», como ponto capital da doutrina social católica. O elemento político-social (instituições) adquiria, com isso, uma importância equivalente à consciência individual, na organização racional da sociedade humana. Já não prevalecia apenas a sentença de S. Pio X, de que «a Igreja só intervém na política, quando a política toca o altar». Embora prevalecendo a autonomia do político ou do econômico, baseada na sentença evangélica de «dar a Deus o que é de Deus e a Cesar o que é de Cesar», a Igreja passava a sustentar oficialmente a existência de exigências intrínsecas da vida social, baseada na natureza das coisas (e não apenas no altar, isto é no elemento religioso) às quais nenhum cristão e nenhuma comunidade cristã poderia furtar-se.

Infelizmente, a formação catequética anacrônica e a desastrosa confusão entre cristianismo e burguesia, como antes da Revolução Francesa, entre cristianismo e nobreza, impediram a tomada de consciência efetiva, tanto individual como coletiva, de que havia exigências sociais imperativas do cristianismo, na organização da sociedade. E a «civilização crista» passou a ser em geral um «slogan» sem sentido, quando não uma impostura «ocidental», a serviço do classismo burguês dominante. E o capitalismo passou a confundir-se, subconsciente ou mesmo conscientemente, com o cristianismo.

Por muitos anos procuramos pregar, entre nós, a doutrina social da Igreja, já convictos de que o distributismo era apenas um de seus aspectos — o da distribuição racional da propriedade, e não a sua expressão completa. A preocupação de objetividade e de multilateralidade caracteriza sempre as posições oficiais da Igreja, em face dos grandes problemas humanos. Daí a sua aparente hesitação ou dubiedade em face do problema social. É fácil ser individualista ou coletivista, optar pelo liberalismo capitalista ou pelo socialismo comunista. O difícil é ser realista. Mas de um realismo proporcionado. Os simplificadores têm sempre por si o grande público, que quer entender sem esforço e ver os resultados imediatos. Daí a tremenda dificuldade de propor a teoria social católica e ainda mais a de passar da teoria à pratica. Os católicos, em geral, estão de tal maneira impregnados de liberalismo capitalista, que quando ouvem falar, hoje, em doutrina social da Igreja, clamam logo por «lobo, lobo», isto é por… comunismo, comunismo. Foi o que vimos, à farta, depois do lançamento da nossa frota marcial de IPMs…

Mais um motivo para que martelemos os espíritos, «opportune et importune», com as encíclicas de João XXIII, com a constituição «Gaudium et Spes» ou com os nossos mais recentes tratadistas de sua interpretação autentica, os padres Charbonneau, da Congregação da Santa Cruz, e De Margerie e Avila, da Companhia de Jesus.