Problemas da vida conjugal

D. Fulton J. Sheen

“Como continuar casado sendo infeliz.”

Depois de expor as proposições que são apresentadas a favor do casamento depois do divórcio, o autor continua:

“Os casais que se encontram em grande aflição física ou moral têm o direito de conhecer os argumentos espirituais contra o divórcio. Deveriam também conhecer as consolações provenientes da aceitação do fardo comum e a riqueza que isto representa.

1) Nada vem da esperança ilusória. Esperar do casamento ou de outra coisa qualquer nesta vida, uma felicidade perfeita, é preparar-se para muitas desilusões. Somente o perfeito amor pode nos cumular e o amor perfeito se chama DEUS. Desejamos todos uma felicidade infinita. Aqueles que não creem de modo concreto em Deus, transferem o infinito para o domínio do sexo, do poder, do dinheiro.

A conclusão que devemos tirar de um casamento infeliz não é que o amor não saiba alcançar vitória, mas sim que um ser humano não soube vencer. A essência do amor não foi atingido mas sim o egoísmo. Se uma ponte desmorona a arquitetura em si mesma permanece intacta.

Não é verdade que depois de um mau casamento a vida seja vivida sem amor. O amor existe ainda, não somente o amor do companheiro indigno, mas o próprio Amor mesmo.

2) Ser vítima de um casamento infeliz não significa necessariamente que esteja privado de felicidade. Existem diversos níveis de felicidade. Um é o da carne, o outro é do espírito e um terceiro é o do sobrenatural. A lei que rege o universo quer que não se alcance um amor maior sem morrer àquele que o precedeu. Quando o caminho da carne está impedido, o caminho do espirito pode abrir-se.

3) Os maiores amores não são muitas vezes partilhados. O casamento é destinado a produzir recíproco amor. É uma felicidade quando duas correntes procuram uma na outra aquilo que lhes falta para atingirem o mesmo nível. É falso, entretanto, afirmar que não ser correspondido é viver sem amor. O amor divino geralmente não é correspondido. “Ele veio no meio dos seus e os seus não O receberam”. O amor é sempre vigilante mesmo quando o seu objeto não presta atenção a isso.

Convenhamos que o companheiro seja. Ao menos, este ser “impossível”, aos olhos de Deus, está ligado para sempre ao outro, durante a vida. Suponhamos agora que o tal marido ou mulher seja atingido por uma pneumonia. Deve um deles abandonar seu cônjuge por motivo da sua fraqueza física? Por que deveria agir de modo diverso quando se trata de uma doença moral? O amor cumpre aqui seu verdadeiro fim; é de destruir o egoísmo por meio do sacrifício. Aceitar a provação com amor incessante não é uma sentença de morte. O soldado que presta juramento pela sua pátria não está condenado à morte mas reconhece apenas que está pronto a morrer antes do que perder a honra. Ser ferido pela pátria, é nobre; ser ferido por amor de Deus e a salvação de sua alma ou da alma do seu companheiro, é ainda mais nobre.

O sofrimento é suportável se amamos sempre. Ninguém pode escolher livremente uma vida sem provações ou sofrimentos. Elas acompanham a vida como a sombra pertence ao sol. Nossa liberdade pode apenas escolher a maneira com a qual reagiremos. Certas provas da vida conjugal são tão imensas que não há remédio humano capaz de aliviá-las; é então que deve voltar-se para Deus e para a plenitude do Seu Amor. O mundo está cheio de sofrimentos estéreis, de cruzes estéreis, de angústias estéreis, porque aqueles que são sofredores não têm bastante amor para darem, suportando sua provação. Somente o amor de Deus pode tornar suportável a união que não o é, tornar leve um fardo pesado. É preciso que sejam três a se amarem: o esposo, a esposa e Deus. Quando amamos e nenhuma correspondência humana existe, é Deus quem traz o complemento e o amor de Deus é a plenitude da alegria.