Selvagem Loba

Era estranho observar meu reflexo no espelho e ver meu lado selvagem me observando com seus olhos felinos, sob a superfície calma e arrumada. No reflexo ela sorria em meio aos cabelos desgrenhados. Mais estranho ainda era ver que aquela parte existia. Que ela dormia e agora acordada me encarava de volta.
Para os outros, aquela parte não era perceptível. Apesar disso, era possível vê-la em meus extremos. A raiva capaz de destruir tudo como uma grande enxurrada, a lealdade que me que funciona como uma faca de dois gumes,eu sabia o que essa parte em excesso poderia causar e como sua falta poderia tornar uma pessoa amarga e dura. As piadas que sempre a ponta da língua, eram capazes de fazer sorrir a pessoa mais triste a ponto de faze-la esquecer mesmo que momentaneamente suas dores e as minhas principalmente. As vezes em que chorei até pegar no sono ao tentar arrancar a dor, que na manhã seguinte seria deixada de lado, pois eu sabia que todas as lagrimas são como um rio cuja correnteza tem que seguir seu curso, antes que se pudesse fazer os reparos necessários, afinal a terra do fundo do poço também é boa para semear.
Em cada um desses extremos, essa parte selvagem me fez tremer. Não de medo, mas pelo tamanho da força que se abrigava dentro do meu ser. Aquele ser selvagem vivia mesmo em mim? Era eu mesmo ali? O reflexo daquela parte dizia que sim.
Eu não compreendia a chave que a fazia vir a superfície. Aquela capaz de invoca-la. Apesar disso ela não me causava medo, estranheza sim, risos as vezes e segurança, sempre.
Dividíamos o mesmo corpo, era a parte da minha alma que saia para dançar quando o vento tocava minha pele, era a parte que se enche de uma força incomum ao estar perto ao fogo. Era a parte que me consolava e me dava sua mão para me erguer mais forte. Era a parte que me dizia que minha alma tinha a forma de um lobo correndo sobre o sol.
A parte na qual eu devolvo o sorriso, sabendo que ela é a parte da minha identidade. Parte do que sou. Aquela que me faz seguir em frente…
Correndo…
Como a loba, a velha,
A Selvagem que vive em todas nós.
Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.
Mulheres que Correm com os lobos — Clarissa Pinkola Estés
