As duas mortes de Luzia

Arrancada do fundo da terra em 1975, a primeira brasileira teve como destino desaparecer na fogueira do Museu Nacional

Daniel Teich
Sep 6, 2018 · 4 min read

Daniel Hessel Teich

Texto original publicado no Facebook na noite de 2 de setembro de 2018

Antigo palácio dos imperadores brasileiros no Rio, com seu acervo inestimável de mais de 20 milhões de peças, queimou em poucas horas

A primeira morte de Luzia, a real mesmo, aconteceu há 11 500 anos, quando ela, uma jovem de uns 25 anos, perambulava pelas bandas de Lagoa Santa, em Minas Gerais, e despencou num buraco dando adeus à vida terrena. Na verdade, nessa encarnação seu nome nem mesmo era Luzia — alias não se sabe nem mesmo se tinha nome.

Lá pelos anos 1970, um grupo de antropólogos meio hippies encontrou seus ossos na caverna onde havia despencado alguns milênios atrás. Pesquisa daqui, futuca dali, a moça acabou entrando para a história — do Brasil e da ciência.

O nome, uma versão abrasileirada de Lucy, a famosa garota australopiteco encontrada na África e hoje habitante do Museu de História Natural de Nova York, foi dado pelo pesquisador Walter Neves, da USP. Ao analisar o crânio da brasileira, ele fez duas descobertas intrigantes.

A primeira é que seus traços morfológicos não tinham nada a ver com os índios que habitavam o país nos tempos de Cabral, mas sim eram muito parecidos com o dos aborígenes australianos. A outra surpresa foi a datação do osso: 11 500 anos, o mais velho fóssil humano a ser encontrado nas Américas.

A mineirinha provocou um rebuliço no mundo científico. Os americanos, indignados de perder a primazia de ter em mãos os restos mais antigos das Américas, questionaram o estudo. Uma turma de franco-brasileiros chiou também porque defendia a tese de outro fluxo de migracão que passava a ser totalmente contraditório com a nova descoberta.

Mas não houve jeito: a legitimidade de Luzia era incontestável, sacramentada pelos laboratórios mais avançados do mundo e publicada nas revistas cientificas mais prestigiosas. Da caverna de Lagoa Santa, a mineirinha despontou para o estrelado.

Eu conheci Luzia mais adiante, por volta de abril de 1999. Havia acabado de ser promovido a editor de Ciência da Veja quando recebi uma missão do meu chefe, Laurentino Gomes, que anos depois escreveria o best seller 1808, sobre a vinda da família real portuguesa para o Brasil. Segundo ele, um grupo internacional de pesquisadores estava recriando os traços físicos de Luzia.

O trabalho a que Laurentino se referia era parte de um documentário produzido pela BBC em parceria com a Universidade de Manchester. A pedido dos produtores ingleses, que estavam refazendo os passos da ocupação humana na Américas, o especialista Richard Neave (o mesmo que ficou mundialmente famoso anos mais tarde ao reconstituir a face de Jesus Cristo com traços que lembravam os do Lula) iria refazer o rosto de Luzia, em um modelo de argila.

Pendurado no telefone e disparando dezenas de emails, passei meses em negociação com os ingleses. Fiquei tão obcecado pelo assunto que o então diretor de redação, Tales Alvarenga costumava se referir a mim como “o garoto do fóssil” na reunião de pauta da revista.

Depois de meses de insistência, os ingleses concordaram em autorizar o uso da imagem da Luzia desde que a publicação acontecesse simultaneamente com a veiculação do programa na TV da Inglaterra. Uma semana antes da transmissão, no entanto, o produtor responsável Jean-Claude Bragard permitiu que a Veja usasse as imagens antes da veiculação, que aconteceu no dia 1o. de setembro.

A matéria saiu na edição de 25 de agosto de 1999, foi o meu primeiro furo na capa da Veja. Na capa, foi usada uma solução gráfica ousada criada por Beto Nejme. A reportagem saiu recheada de infografias coordenadas e produzidas pela talentosíssima Andreia Caires.

Conhecer Luzia, contar sua história e mostrar seu rosto para os brasileiros foi uma experiência que mudou minha vida profissional. Ao ver as chamas consumirem o velho palácio de São Cristóvão, senti o coração ficar apertado. Ali era a casa do crânio e da cabeça de argila de Luzia, dada de presente pela BBC para o Brasil depois da veiculação do programa na Inglaterra.

Luzia exposta no Museu Nacional, antes do incêndio na noite de 2 de setembro

Nesse momento, com o fogo ainda ardendo, penso se há alguma chance da mineirinha ter sido poupada do fogaréu. Wishful thinking típico, em que nos iludimos em acreditar que ainda há esperanças. Mas no caso de Luzia, lá no fundo, tenho quase certeza que tal expectativa é vã e que ela não escapou. Dessa vez, a mineirinha morreu para sempre.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade