Entrevista — Pastor José Marcos da Silva

Diaconia
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Aug 31, 2018 · Unlisted

O Pastor José Marcos da Silva é líder religioso há 16 anos da Igreja Batista do Coqueiral, bairro da zona sudeste do Recife (PE). Além disso, ele preside o Instituto Solidare, criado para dar sentido à igreja no que se refere a ação social, atendendo a comunidade local e de outros municípios. O pastor é formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Pós-graduado em Fé e Política pela PUC/RJ.

Durante sua palestra no Interterritorial Igrejas e Justiça Social, Pastor Marcos perpassou pelos principais problemas enfrentados pelas igrejas no tocante à Justiça Social. Em uma de suas reflexões, ele questiona as razões pelas quais a Igreja, enquanto instituição, ainda está tão distante de promover um Reino de Justiça e Paz. Confira a entrevista abaixo.

Por Tádzio Estevam (Assessor de Comunicação da Diaconia)

Diaconia — Em seu discurso, o senhor falou que a Justiça é o principal identificador do Reino de Deus, e que a Igreja, enquanto instituição, não consegue enxergar isso. Por quê?

Pastor José Marcos — A Igreja, em geral, se tornou mais uma entidade religiosa. E essa não é a finalidade de Deus. Deus está em Missão. A Missão de Deus, desde o começo, é harmonizar tudo que foi desarmonizado por causa das nossas falhas. Esse é o projeto de Deus para a Igreja. Com o passar do tempo, nós fomos criando aspectos de qualquer tipo de religiosidade de mundo, templo, clero, de doutrinas próprias de uma religião, e dessa maneira ela se distancia da Justiça. Ela cria um submundo, deixando de cumprir sua fé em atos concretos e nisso a Justiça vai se distanciando cada vez mais da sua finalidade. Hoje ela se perdeu nesse aspecto porque pensa muito em vida além da morte e esquece da vida aqui. Mas ela [a Igreja] está voltando.

Diaconia — Para o senhor, em que nível o aspecto econômico tem sido o grande responsável pela alienação da Igreja?

Pastor — Eu sempre digo que a Igreja quer operar o poder de Deus na lógica de Mamon. Mas, o que isso quer dizer? Mamon, também quer dizer “riquezas”, uma divindade do Panteão Greco-romano que significava o Deus da Riqueza, da Luxúria. Dentro dessa analogia, a Igreja vai se distanciando da figura histórica de Jesus que era completamente avessa àquilo que podemos chamar de seguidor das riquezas de Mamon. Jesus é um sujeito simples que vem para servir. A Igreja começa a se distanciar disso. Ela opta por eleger e criar um Jesus ressurreto, entronizado, espiritualizado e vai deixando de seguir ao Jesus histórico. E ela não pode seguir um outro Jesus que não seja o histórico. Quando ela vai deixando esse Jesus de lado, ela vai se apaixonando pelos poderes desse mundo.

Diaconia — O senhor teria exemplos que embasassem as afirmações acima?

Pastor — Sim. Um exemplo disso aconteceu no século IV, quando a Igreja e o Estado se alinham na suposta conversão de Constantino. Também tivemos provas das afirmações na Idade Média, quando a Igreja irrompe, enquanto detentora do grande poder, a Reforma Protestante. Hoje a situação ainda acontece. Vou falar do meu lugar enquanto Igreja Evangélica. Nós estamos desprezando esse Jesus Cristo histórico para sermos abençoados pelo que temos e o quanto aparentamos, e isso tudo está dentro das riquezas. A partir daí a Igreja é embebedada por esse sistema de poder, o econômico. Hoje no Brasil existem setores da Igreja que têm projetos de poder político e econômico, inclusive, fazendo de algumas detentoras de grandes monopólios, a exemplo da Comunicação no País. Por isso que elas elegem senadores e querem eleger até um Presidente da República. Então a Igreja se encanta com um projeto de poder e se desencanta da figura pobre, pé no chão, simples, do Nazareno. Aí ela se desvia.

Diaconia — Essa seria uma das principais mudanças que a Igreja deve adotar para construir um novo ser humano?

Pastor — Exatamente. A Igreja precisa ser imitadora de Jesus. Assim como um discípulo de Luiz Gonzaga só é considerado como tal se ele toca sanfona, veste gibão, se canta as coisas do Sertão, um discípulo de Jesus só será identificado como tal se ele servir. Não há como se parecer com Jesus com toda essa sofisticação que essa economia traz. Mais uma vez a lógica de Mamon.

Diaconia — Como ler a Bíblia sob a perspectiva da promoção da Justiça diante da atual conjuntura nacional?

Pastor — Eu tenho um amigo teólogo e sociólogo, chamado Clemir Fernandes, que diz que a Igreja precisa ler a Bíblia “contra ela mesma”. A primeira coisa a aprender é ler as Escrituras Sagradas e deixar elas nos interpelar, nos exortar, nos ferir, nos humilhar. Não é usar a Bíblia como um amuleto e como justificação de tudo que a nossa carne quer, que a nossa Igreja quer. É deixar a Bíblia falar contra mim, contra o meu estilo de vida, contra as minhas injustiças internas, contra todas as vezes que eu apoio projetos econômicos, ou políticos ou sociais que não dialogam com esse Nazareno. Jesus é o grande farol da Bíblia. Ou nós lemos a Bíblia a partir desse Nazareno, ou toda leitura que nós fizermos vai ser enviesada. Temos que ler o livro sagrado olhando para Jesus como ponto de partida e de chegada. Ou a gente se esvazia e passa a olhar para o texto todo a partir do testemunho de Jesus ou vamos continuar usando a Bíblia para matar como foi feito há dois mil anos.

Diaconia — Esse seria o principal paradigma a ser quebrado?

Pastor — Sim. Eu sou convencido que o principal paradigma da Igreja é entender que ela é chamada para imitar Jesus. E não dá para imitar Jesus fora das categorias da Justiça. Jesus é o grande paradigma de operação de Justiça. O problema é que a Igreja majoritária não se parece mais com Jesus. A suntuosidade do templo não se parece mais com Jesus. Você foca no pastor ou pastora — figura que mais deveria se parecer com Jesus — e eles não se parecem mais com Jesus. As roupas deles não se parecem com Jesus, as cadeiras que eles se sentam nos cultos aos domingos não tem nada a ver com Jesus. Seus carros e casas, as pessoas com as quais eles se relacionam não se parecem com Jesus. Esse é o grande paradigma

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Promoção e Defesa de Direitos // Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará

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