Entre o horror, o suspense, e a tragédia.

Nelson
Nelson
Nov 5 · 3 min read

A história, longe da assepsia de uma “ciência exata”, antes é, como nos disse o filósofo alemão, Walter Benjamin, fabulação, uma narrativa. Seria possível, portanto, classificar tais narrativas em gêneros e modelos literários? Ainda que para alguns a resposta seja não, o exercício se mostra particularmente interessante quando analisamos a história do Brasil. Como classificaríamos nosso período de Colônia? E nosso período Imperial? Provavelmente concordaríamos em dizer que estas foram narrativas de horror, suspense e grotesco, uma espécia de “Ero Guro” caricato e burlesco.

Mais interessante ainda, seria pensar em nosso período Republicano. Podemos afirmar, que até aqui, a história da República Federativa do Brasil vem sendo mesmo uma tragédia. Não o digo no sentido banal, pequeno, mesquinho. Mas sim num sentido particular e original do termo, que se refere ao antigo gênero artístico grego.

Pensemos na instauração da República, que se deu não para a criação e organização de um Estado que servisse aos interesses do povo brasileiro, mas apenas para passar o poder das mãos dessa figura político e socialmente abominável, o Imperador, para as mãos das igualmente abomináveis oligarquias regionais, que em sua unidade, formalmente passava a ser nossa classe dominante. A “República Teatral”, porém, embora idealizada pelos de cima, não tardou a acreditar na própria farsa e querer se tornar em real, ou seja, a coisa pública brasileira, materialização da união de nosso trabalho e espírito, na forma de infra-estrutura coletiva, socializada para o benefício de todo o nosso povo.

Sintetizando tudo, poder-se-ia dizer que a história de nossa República no século XX foi como uma tragédia grega, gênero no qual o ponto de partida já define o fim da história, em que padece nosso herói, mas ainda assim, este nos ilude de que irá superar os deuses e seu destino, apenas para “morrer na praia” em uma espécie de anti-clímax, particularmente no caso de nossa estória, capítulos como estes não nos faltaram.Vargas, João Goulart, e Brizola, todos, em suas diferenças, carregam consigo, a semelhança, dentre outras coisas, na forma da estrutura-lógica de suas tragédias e de períodos de nossa tragédia republicana. Como diria um dos maiores intérpretes da cultura brasileira, Chico Buarque:

Faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há;
mas eis que chega a Roda viva, e carrega a roseira pra lá.

Poderia Sófocles pensar em tão bela e melancólica tragédia? Qual seriam os impactos de tal narrativa na cultura e espírito de nosso povo? Para um país que é vendido e se vende, como um exemplo de “alegria”, causa espanto, e certa curiosidade, quando constatamos que apenas estivemos, em termos de gênero literário, entre o horror, o suspense, e a tragédia.

Uma vez, o excelente filósofo, Alexandre Costa, em uma aula de Filosofia da História, disse que, “Iludir, também é, jogar luz sobre algo, para elipsar outra coisa que se pretende esconder. Seus alunos puderam certamente concluir:

“Pobre Brasil, tão triste na matéria, que só encontra onde ser feliz na ideia.”

Esse fenômeno certamente não nos ocorreu por acaso. Como nos deixa claro em sua obra chamada “ Teses sobre a história”, Walter Benjamin, a história é feita, e sobretudo, perpetuada, tanto na construção de seus mitos e narrativas, quanto na realidade, feita de forma ativa, em batalhas reais, de vida e morte, e em geral, a “história oficial” é a história da classe dominante. Mas para que revolução social, se somos tão alegres, não é mesmo?

Significa o fato da história da nossa República até aqui ser uma tragédia, que estamos destinados ao masoquismo, por amar tal mal-afortunada pátria, e tão espirituoso povo?Não. Quando tratamos de textos literários , quando não gostamos da narrativa, poder-se-ia, culpar o autor. Muito mais complicado, porém, é, entender quem dita e escreve nossa história “por nós”. Para tal, é necessário olhar a interação e a correlação de forças entre as classes sociais, e os modos de produção e organização do trabalho, durante certo período histórico.

Disso analisado, a Tragédia da “República Teatral” só irá se tornar num Épico, quando nossa história for escrita pela classe trabalhadora, por nosso povo, a quem convém apenas redenção, e não mais tragédia.

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