Na segunda, o samba é de primeira

Evento mantém público fiel às segundas-feiras no Renascença

O coro é um elemento sonoro ancestral da humanidade, presente em templos religiosos e rituais de adoração ao sagrado desde a pré-história. De lá pra cá, muita coisa mudou. Mas, no bairro do Andaraí às segundas-feiras, a ancestralidade se mantém: dessa vez, o sagrado é o samba e o templo de adoração se chama Renascença Clube.

Sob o olhar e as bênçãos de Nossa Srª Aparecida, São Jorge, São Cosme e São Damião, expostos em pinturas nas paredes, uma multidão entoa com os olhos fechados um “ôôôô” emocionado, acompanhado do ritmo sagrado do samba. No centro da roda, o músico e compositor carioca Moacyr Luz, condutor do ritual, ergue uma taça de vinho na mão cheia de anéis e cumprimenta com os olhos uma legião de verdadeiros fiéis: “Vida da minha vida / Peço ao meu protetor / Se for pra ser vivida / Diga pra onde eu vou”. É segunda-feira e os frequentadores do Samba do Trabalhador recebem de braços abertos os versos-oração para que possam — agora sim — começar a semana de trabalho com o pé direito.

“Pra mim, é Deus no céu e Moacyr Luz na Terra”, afirma Jorge Ferraz, de 64 anos, que foi presidente do clube quando o Samba do Trabalhador começou, em 2005. À época, Moacyr já carregava uma bagagem de importantes parcerias musicais, como com Aldir Blanc, Martinho da Vila e Paulo César Pinheiro, além de álbuns solo e composições gravadas por grandes nomes da MPB. O compositor viu no Renascença, antigo reduto do movimento negro carioca, um bom lugar para reunir os amigos músicos numa despretensiosa roda de samba semanal. “Ele chegou pra mim e disse: ‘Jorginho, eu queria fazer um negocinho aí’. Ele falou e hoje tá aí. Há dez anos e alguns meses”, conta o ex-presidente, orgulhoso.

O tal do “negocinho” — que recebeu perto de 50 convidados na primeira semana; e por volta de 100 pessoas na segunda — hoje tem um público de mais de mil pessoas, que lotam o espaço e param a rua Barão de São Francisco no Andaraí, Zona Norte do Rio, toda semana, religiosamente. “Quando a roda começou, a entrada era franca, não tinha equipamento de som, porteiro, garçom, segurança… O conceito era realmente reunir os amigos, fazer uma comida e tocar um violão”, relembra Moacyr, que diz que o crescimento do evento foi surpreendendo seus membros. “Todas as segundas-feiras, por maior que fosse a quantidade comprada, a bebida sempre acabava cedo porque a gente não esperava que encheria tanto. Hoje nós temos 17 seguranças, pra você ver como que é o negócio”, conta o músico.

Imagem retirada do site Catraca Livre

O Samba do Trabalhador, que no início começava às 14 horas, acontece no dia e horário mais improváveis para a maioria dos trabalhadores — segundas-feiras às quatro e meia da tarde. Mas a ironia tem explicação: o trabalhador do nome é o músico, que trabalha duro no final de semana e tem a segunda-feira como dia de folga. O evento — feito de músico pra músico — buscava inicalmente manter o clima descontraído e acústico das reuniões tijucanas que Moacyr organizava, lá pelos anos 1990, onde encontravam-se grandes sambistas como Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Zé Ketti e João Nogueira. Mas, se o clima acústico não deu pra manter (“Você não consegue fazer acústico pra 2 mil pessoas, né?, ressalta Moacyr), o encontro de bambas é, até hoje, característica própria da roda, em que já deram canja nomes como Dudu Nobre, Wilson das Neves, Leila Pinheiro, Xande de Pilares e Zélia Duncan.

Como todo grande acontecimento tem um estopim, o rápido crescimento do Samba do Trabalhador também teve o seu. Na terceira semana de samba, João Bosco e Aldir Blanc visitaram a roda para gravar a canção “O Bêbado e a Equilibrista” para o filme “Três Irmãos de Sangue”, sobre Francisco Mário, Henfil e Betinho. A gravação despertou a curiosidade da Folha de São Paulo e da BBC de Londres que, segundo Moacyr, “estava cobrindo alguma coisa por lá em relação ao longa e se espantou ao descobrir o que acontecia em plena segunda-feira à tarde na cidade”. Pouco tempo depois, o público do evento — que em breve adotaria o uso de amplificação sonora — já superava a marca de 500 pessoas por semana e iniciava a contagem regressiva para um crescimento exponencial.

“O expediente da roda sempre contemplou trabalhadores com horários de trabalho diferentes do convencional de escritório. O público inicial era composto por músicos, cabelereiros, garçons, comerciantes, bombeiros, taxistas e outros profissionais que poderiam folgar nas segundas”, analisa a frequentadora Anette Alencar, que afirma que conforme o evento foi ficando famoso, outras categorias passaram a compor esse grupo. “Uma galera mais jovem, que também poderia ter a segunda-feira livre, começou a frequentar: estudantes, freelancers e, como no meu caso, fotógrafos, por exemplo”, diz a pernambucana, de 27 anos, moradora do Rio desde 2008, que conhece o Samba do Trabalhador desde seu início.

Hoje, o horário ingrato já não restringe o público do samba. Quando dá 19h30 da noite, o engarrafamento de táxis na rua entrega: quem não pode às 16h30, pode depois do horário de trabalho. Lá pelas 20h, já não cabe mais ninguém no clube e o coro emocionado do Samba do Trabalhador — encorpado com as vozes recém-chegadas — toma conta dos arredores do Rena, como é carinhosamente chamado o local por seus frequentadores. “Depois de um longo dia de trabalho, encontrar esse convívio social e esses músicos maravilhosos é bom demais”, vibra Mariléia, de 65 anos, enquanto observa a mãe Jacira, de 98, rodopiar e convidar a todos que se aproximam para dançar com ela.

A roda, que acaba rigorosamente às 22h da noite, passou por momentos difíceis em 2014 quando uma decisão judicial — baseada numa ação do Ministério Público de 1988, época em que o evento ainda nem existia — proibiu o uso de equipamentos de amplificação sonora na roda. Por alguns meses, os músicos tiveram que tocar e cantar sem a ajuda de microfones e caixas de som. O clube recorreu e recuperou o direito do uso, mas com restrições. “A gente está tocando hoje com 40% da possibilidade técnica. As percussões não são amplificadas e isso prejudica muito os músicos. Mas, acreditamos que até o meio do ano tudo estará resolvido”, diz Moacyr, que afirma que uma obra de tratamento acústico do espaço já está a caminho.

O sucesso do Samba do Trabalhador já ultrapassou as fronteiras do bairro da Zona Norte. A roda, com seu repertório recheado de clássicos do samba de raiz e composições próprias do grupo, não só atrai pessoas de todos os cantos do Brasil e de outros países, como já tem temporada fixa em São Paulo — tocam sempre numa quinta-feira do mês na casa de shows Traço de União. Além disso, o grupo de 9 integrantes que compõe a roda, batizado de Moacyr Luz & Samba do Trabalhador, já tem 2 DVDs e 3 CDs gravados — sendo o último o “10 anos & outros sambas”, lançado no ano passado quando o grupo completou uma década. O alcance internacional já levou Moacyr a fazer dois shows na França em nome do Samba do Trabalhador.

Já na cidade maravilhosa, a roda de segunda-feira faz parte do tour cultural oficial. “O cara salta no Galeão, vem de Paris e tem lá na agenda dele: Corcovado, Pão de Açúcar, Praia de Copacabana, isso, isso, aquilo e o Renascença, no Samba do Trabalhador”, garante Moacyr. Para ele, o evento reforça sua crença de que é preciso tirar um pouco o foco cultural da cidade da Zona Sul e levar para a Zona Norte. “Chegou a hora dessa gente não-bronzeada mostrar seu valor”.

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