Travessia

E é inútil procurar encurtar caminho (…) A trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. 
(
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G. H.)

Sou psicóloga há pouco mais de sete anos, e tenho trabalhado principalmente na saúde pública e no consultório privado. 
Ao longo desses anos pude acolher diferentes pessoas e ajudá-las1 a enfrentarem dores, medos, bloqueios - em suma, a se reinventarem. 
Uma das minhas frentes de trabalho é a orientação vocacional/profisssional: fiz curso de formação, pesquisei esse campo no mestrado, atendi indivíduos, grupos, ministrei oficinas, palestras, escrevi um livro... Ufa! Não é fácil receber essa demanda: “O que eu faço da minha vida?”, “Mudo ou não de direção?”, “Estou no caminho certo?”. Entretanto, é delicioso mergulhar nesse processo e descobrir junto com quem pede "socorro" como uma trajetória pode ser mais potente e enriquecedora.

Então era 2016 e eu estava desempregada. Se fosse apenas isso. Na verdade, eu continuava no consultório com alguns clientes, no meu grupo de supervisão coletiva, e tinha umas aulas para gravar no studio da Faculdade Estácio de Sá, mais o conteúdo das aulas para escrever, apostila para desenvolver, etc. Ou seja, não era só ausência de trabalho. 
Eu estava desiludida, ressentida, um pouco derrotada. Fosse um paciente na minha frente dizendo tudo isso e eu saberia como acolher, como acessá-lo. Mas na casa do ferreiro usualmente haverão espetos de pau. 
Então eu tinha estudado, tinha me dedicado - até meio obssessivamente - aos trabalhos que desempenhava. Então possuia um currículo interessante, mas estava na rua da amargura. 
E havia algo pior: fui dispensada do último emprego com a possibilidade de retorno futuro e no fundo não sabia se desejava voltar para aquele lugar.
Lugar onde aprendi uma nova linguagem, conheci chefias sensacionais, fiz amigos, tive acesso a um salário melhor, a minha própria mesa e computador - depois de quase quatro anos no sucateamento da rede de saúde mental do meu município -, lugar que me possibilitou enfrentar minhas inabilidades e viver coisas novas. A esse monte de coisas serei sempre grata. Mas também foi o lugar onde vivenciei o assédio moral em suas torpes faces. Exponho isso porque precisamos parar de calar as violências institucionais veladas em nome de sair bem na fita. 
Assim, sem rumo, enquanto me entregava as séries da Netflix, ao colchão e ao sofá, enquanto a pia ia se enchendo de louça e na minha análise pessoal já não achava palavras pra me expressar, uma amiga me indicou o Coach dela. 
X reais a sessão. Ele não havia escutado que eu estava indo a falência?! Negociamos um valor diferente, que mesmo assim eu não podia pagar. Meu marido, que não acreditava em coaching, ajudou. Na ocasião eu sentia profundamente que não tinha nada mais a perder. Estava com 29 anos e até então a esperança (arrogância?) e a sensação de que “eu dou conta da minha vida e ainda apoio todos que precisarem”, nunca havia me abandonado. Até aquele momento. Contei sobre o Coach à minha Analista esperando que ela ficasse escandalizada. Eu era a psicóloga das subjetividades, "psicóloga raíz", contra receitas prontas e manuais superficiais. Eu fazia análise há muitos anos. Que história era essa de procurar um "treinador"?

Ela sorriu e disse que podia ser uma boa ideia. Que eu estava tentando fazer algo com aquele estado inerte. 
Dá pra imaginar isso? Pagar análise, pagar coach, desempregada e sem marido rico? Bem, eu fiz.
Eu sou muito crítica ( ser muito crítico não é uma coisa útil depois que a faculdade termina...). Mas enfim, sou crítica a religião do consumo, ao culto do corpo, ao sorriso forçado, a qualidade de vida crossfit. Eu tenho angustia quando um paciente me diz que vai abandonar a terapia pra procurar uma cartomante. Eu tenho dificuldade com as respostas imediatas.
Tenho ainda um livro no qual diferencio a orientação vocacional, do aconselhamento, do coach, e dos gurus. E defendo um processo de conhecimento de si que viabilize processos de autonomia.
Mas quem me acompanhou nesse processo que durou 10 sessões, não recordo o número exato, não foi esse tipo de guru. Nao foi essa imagem pós-moderna de O Aprendiz. Foi Fábio Meirelles. E quem estava lá não era a psicóloga mestre pela UFF, que trabalhou lá e cá. Era uma pessoa que precisava se reencontrar com seu desejo de fazer as coisas. Em suma, era alguém que precisava de ajuda. Que finalmente estava sentindo no corpo o efeito de uma coleção de explorações. A pessoa pra quem todo mundo ligava quando queria fazer uma oficina- gratuita-legal-pra um montão de gente. Ligavam em cima da hora, sem problemas, Diana é criativa... Era minha carcaça que estava lá pra Fabio trabalhar. E ele fez o melhor possível. 
Levei muita coisa comigo desse processo, inclusive copiei algumas estratégias para meu trabalho de orientação vocacional. Talvez o Coach tenha levado algo de mim pra ele também . 
E o principal, que compartilho aqui através desse relato estranho, aparentemente sem razão de ser:
Se você for esperar pela excelência antes de fazer, nunca fará nada.
2016 acabou por ser um ano muito bacana: lancei meu livro, perdi as reservas de me afirmar enquanto psicóloga clínica que atende em consultório privado, incorporei o "Não" ao meu vocabulário, ingressei no Doutorado, retornei para a rede de saúde mental do meu município, mas de um outro lugar: recebendo em dia, almoçando, indo ao banheiro, evitando me sobrecarregar demais (mas reconheço, ainda preciso trabalhar muito nisso...). Continuei fazendo minhas oficinas e palestras, mas combinando as condições (que fossem os valores da passagem). Passei a organizar melhor meu tempo.
Claro que eram coisas engatilhadas desde 2015, desde antes até. Não é tipo "Faça Coaching e publique um livro", "Faça terapia e seja aprovada no Doutorado". Mas a maneira que pude cuidar dessas coisas se devem muito ao processo de análise, a Fabio e principalmente a todas as intempéries que me levaram ao fundo do poço. 
Eu tampouco gosto dessa frases de que se tira algo bom do sofrimento. Mas, bem, elas podem ser verdadeiras se você estiver disposto. O fundo do poço te traz perguntas, ou melhor, questionamentos. Que dão medo de responder, porque não aceitam respostas baratas:
_ Tem certeza que não prefere um caminho diferente? ↩↪⤴
_ Mas por que você quer tanto isso? 🤔
_ Mas o que você está fazendo da sua vida? 🙃
E outras mais escabrosas, que cada um sabe a sua maneira, dependendo do quanto consegue escutar. Dizem que existem pessoas que passam a vida sem se questionar. Só calando as dúvidas por medo de perder a segurança. Dizem que isso vira amargura e às vezes pedras. Pedras no caminho, nas vesículas, nos rins, na fala...
Agora é 2017, sinto que o Carnaval passou e estou meio estagnada. Com um monte de sonhos e desejos dormindo na gaveta do adiamento. Uma dessas coisas é escrever. Recordo de Fabio e seu "chicoting"2. Decido parar de adiar.

Eis aqui um texto como ponto de partida pra uma direção que não enxergo muito bem ainda.
Adoro horizontes. Eles me puxam a caminhada.


1 - É feio dizer isso na graduação ou no mestrado de psicologia mas psicólogos ajudam as pessoas sim. Pra caramba!

2 - Segundo Fabio é uma mistura de chicote com coaching, para clientes mais rebeldes.

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