Como eu entrei em um relacionamento abusivo

Ana Clara
Ana Clara
Aug 25, 2017 · 6 min read

Esta noite estávamos eu e Daniel conversando em uma praça… uma praça que já foi especial para nós um dia. E ele me fez uma pergunta muito simples. E doeu. Doeu ouvir. Doeu responder.

“Ana, como que você entrou em um relacionamento abusivo?”

Tive que lembrar ele que eu não entrei em apenas um relacionamento abusivo, mas em três! Sim. Três relacionamentos abusivos. De quantos? De uns oito relacionamentos que podem ser chamados de namoro em toda a minha vida. Eu não diria que meu aproveitamento está muito bom. Vamos levar em conta que, desses oito relacionamentos, pelo menos três foram namoricos bobos e sem muita importância na adolescência… Ou seja, piora ainda mais!

Mas ok… a pergunta dele não foi quantos relacionamentos desse tipo eu tive, e sim como eu entrei neles…

Tive que revirar muito as minhas lembranças, as minhas memórias, e tudo que eu aprendi nos últimos anos para entregar uma resposta conclusiva… e não apenas o “não sei” que eu teria entregado há uns três anos atrás.

Sabe… para que uma pessoa entre em um relacionamento abusivo, precisamos apenas de dois elementos… o abusador e a vítima. O abusador, geralmente, é um narcisista perverso, ou algum outro tipo de psicopata. Pode ser uma pessoa cruel também — o que eu acredito que seja o caso que eu estou vivendo. Alguém inseguro, que foi muito mimado quando criança e não aprendeu a ouvir não, e sempre teve tudo que queria, de uma forma ou de outra… Existem muitos estereótipos que fazem um abusador… olha, eu acho que atualmente, existe até o “abusador de ocasião”… sabe, a oportunidade tá ali, apareceu… tá dando sopa e pah! Vou pegar o que eu quero aqui enquanto a outra pessoa ali não acorda, né? Pois é.
E a vítima… ah, essa tem vários padrões também… mas, geralmente, ela precisa ser insegura e ter baixa auto estima. Sério, ela não pode ter auto estima. O resto o abusador cria sozinho. Mas, se ela tiver a auto estima lá no pé… é o cenário perfeito para que o abusador entre, e se instale. Uma pessoa que tenha auto estima, vai perceber os truques que ele usa, e vai se afastar. O abusador vai perceber isso e também não vai insistir… Simplesmente porque ele não terá espaço para isso… mas, se ele encontrar uma brechinha que seja, ele vai se instalar… e vai rasgando essa brechinha bem devagar, para que a vítima não perceba… quando essa ferida começar a doer, o estrago está feito, e é muito difícil voltar atrás. O abusador se faz de tapa-buracos para aquele rasgo imenso… e se a gente empurra ele dessa ferida, ela dói demais. A dor é enlouquecedora, melhor deixar ele ali mesmo, ao menos ele tá tapando, né?

Nessa hora, ele me olhou assustado… e fez a segunda pergunta mais dolorida… até porque, mano! Era ele quem estava me fazendo essa pergunta… Eu nunca achei que tivesse conseguido esconder alguma coisa do Daniel… mas, pelo visto, meu disfarce foi bom demais. Eu devia mesmo ter seguido a carreira de atriz…

“Mas, Ana… se a vítima, NECESSARIAMENTE, precisa ter uma auto estima muito baixa, como foi que você, logo você, foi a vítima três vezes???”

Ah Daniel! Meu amigo, meu querido amigo… como você nunca enxergou? Como você nunca enxergou que tudo isso aqui era apenas disfarce? Eu nunca fui um mulherão da porra… eu nunca me achei nem a metade das coisas que eu transparecia… ter você e os meninos à minha volta foi a melhor coisa que eu já tive na vida. Vocês eram os melhores amigos que eu já tive, só com vocês eu senti carinho, amizade, verdade… Só com vocês eu sentia que era realmente querida onde eu estava… E bem, você bem sabe que eu me afastei disso por consequências de um destes relacionamentos abusivos, né? Então tá.
Vamos juntar tudo isso ao fato de eu ter TDAH. Sim, eu tenho. E infelizmente, só descobri isso depois dos 30. Olha que legal. Ok que tudo na minha vida fez sentido após esse diagnóstico… finalmente entendi porque eu tinha tantos problemas na escola, porque eu me sentia tão deslocada, tão ignorada, tão desprezada… porque eu sofria bullying. Porque eu apenas me encaixei em um colégio mais fraco. Porque eu era tão diferente das pessoas da minha idade.
Sim, Daniel, eu, quando criança, fui julgada por ser diferente. Eu não conseguia copiar a lição do quadro, eu não entendia as operações matemáticas, eu não entendia porque não podia simplesmente dar vazão aos meus pensamentos quando eu quisesse… ou melhor, quando eles surgissem, porque eu não controlava isso. Ainda não controlo. Fez sentido o fato de eu gostar tanto de escrever… quando a professora falava que iríamos escrever um texto, parecia que ela tinha acabado de dar um pirulito do Chaves inteiro só pra mim, e não dar nada pro resto da sala. Ali eu podia deixar as histórias e pensamentos malucos que ecoavam na minha cabeça dançar sem medo, e ali eles criavam cor, gesto, movimentos, músicas… eles ganhavam sentido. Acho que é por isso que até hoje, eu gosto de escrever. E ainda não entendo operações matemáticas.
Ou seja, eu fui uma criança que cresceu ouvindo gritos, xingos, deslocada do universo… claro que eu me acho péssima em tudo. Você ainda acha que eu tenho auto estima? Não, a minha foi destruída quando eu era uma criança. Minha auto defesa foi me fingir de forte… fingir que eu era exatamente quem eu queria ser. Poucas pessoas entraram no meu casulo. Você foi uma delas, mas acho que você não percebeu esse detalhe. Também, você nunca precisou usar essa falha minha para conseguir alguma coisa… Tudo que você conseguiu de mim, quando eu não deveria olhar na sua cara, foi por opção minha, escolha minha… eu sempre soube que poderia terminar quando quisesse, assim como eu fiz, quando se fez necessário para que eu pudesse continuar caminhando.
Até hoje, eu ainda me acho um lixo. Até hoje, eu sofro tentando gostar um pouquinho de mim a cada dia. Não é fácil, não está sendo fácil… mas, eu sei que posso contar contigo, e isso ajuda.

É bem difícil encontrar alguém, especialmente mulher, que não tenha sequer uma brecha em sua auto estima, em seu amor próprio… mesmo que seja algo dela mesma para ela mesma… sabe, aquela menina que tem o biotipo mais “cheinha”, e gostaria de ser capa de revista? Ou aquela que tem os seios pequenos demais, e gostaria de colocar silicone? E aquela que não tem bumbum, a tal da preferência nacional? Coisas bobas como essas podem desencadear nessa menina um processo de falha na auto estima… e pode ser a brecha que um abusador precisa para que essa menina se torne dependente dele… quer sentir um exemplo?
Vamos pegar a menina que não tem bumbum… ela está rodeada de informações sobre como é lindo ter aquele bumbum volumoso… mensagens subliminares que dizem a ela que só quem tem aquele bumbum da capa da revista arrumarão os namorados mais bonitos e perfeitos… para ela, o que sobrar tá bom. Chega o abusador. Ele faz com que ela se sinta a mais amada das mulheres, a mais perfeita… ela acredita nele, afinal, ele faz tudo para ela, sem que ela peça, por que ela pensaria algo de mal dele? E é aí que ele começa o seu trabalho, é aí que ele começa a rasgar a brecha para se prender nela… Em alguma briga, ele vai dizer para essa menina que ela tem que dar graças aos céus por ele estar com ela… porque ela, sem bumbum nenhum daquele jeito, jamais vai encontrar outra pessoa como ele. Pronto. Ela já está tão dilacerada por dentro que, essa frase vai fazer um enorme sentido para ela. No coração dela. Oi Abuso, seja bem vindo.

Ana Clara

PS: Chegou agora? Tá perdido nos personagens? Não lembra quem é quem? Tem problema não, clica nesse post aqui que eu relembro tudinho pra vc… até as recomendações pra comentar…
https://medium.com/@diariode1relacionamentoabusivo/apresentacao-785b03b15e3e

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Ana Clara
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