Um olhar sobre Lili Marleen

A visão do melodrama político alemão Lili Marlene (Lili Marleen, 1981), dirigido por Rainer Werner Fassbinder, foge das regras de seu gênero da dicotomia entre o bem e o mal.

A moral de punição e vingança submetida pela função dramática é levada para outro momento pela narrativa de Fassbinder, onde é imposta ao espectador a reflexão sobre a situação. Feita entre janelas, frestas ou espelhos, o diretor oferece ao espectador uma visão não subjetiva sobre a história, não favorecendo um lado ou ponto de vista de determinado personagem.

Com portas e janelas determinando o que será observado no cômodo em que a câmera se volta, a narrativa não contém uma objetividade de transparência, proporcionando um campo de visão restringido, que envolvem o espectador nas cenas. Não existem paredes falsas, o público pode ver cômodos inteiros, dando a noção de voyeurismo no qual Fassbinder coloca o espectador em seu papel de voyeur somente a partir do campo que a câmera oferece sobre o ambiente.

A narrativa cinematográfica põe o leitor/espectador como testemunha, um observador dos fatos, colocando nele o poder de julgamento sobre o caráter de sobre um personagem e suas atitudes, sem seu ponto de vista subjetivo. Este poder que a descrição onisciente oferece ao publico, dá ao espectador a possibilidade de ver e rever suas tendências de pressuposições, negociando com seus julgamentos.

Rodado em inglês, devido à distribuição no circuito da época, e dublado em alemão, Lili Marlene traz ao publico uma visão de uma Alemanha nazista em um plano geral místico e único. Apresentando a decadência em meio as cores exasperadas e a histeria, Fassbinder explora a trama baseada de modo livre na autobiografia da cantora Lale Andersen, intérprete da musica hino entre os soldados do front alemão na Segunda Guerra Mundial, cujo nome dá título ao longa. Sob a ótica de uma cantora decadente alemã, Willie (Hanna Schygulla), e seu romance proibido com o músico judeu, de família influente e membro da Resistência, Robert Mendelson (Giancarlo Giannini), o diretor transita desde sua performance sedutora em um cabaré suíço, até o seu auge em terras alemãs que surfa em meio a guerra.

A música propaganda de guerra que tem letra de Hans Leip, em 1915, e composição por Norbert Schultze, em 1938, promove montagens rítmicas memoráveis entre trincheiras e campos de batalha, e apresentações de Willie, oferecendo um contexto amplo ao espectador da situação da trama.

Fassbinder oferece metáforas entre o regime nazista e seu povo dando o olhar dos coadjuvantes e de suas estórias que podiam ser consideradas pequenas no contexto que se encontram.

Como outras de suas heroínas da tetralogia vivida durante a ascensão do nazismo alemão do diretor, que inclui os filmes Lola (1981), Berlin Alexanderplatz (1981) e O Desespero de Veronika Voss (1981), Willie se encontra presa pelo regime que a usou e posteriormente perseguiu, em paralelo ao seu amor que atravessou anos de difculdades e paralelismos perante a guerra. Fassbinder mostra aos seus olhos a relação entre uma situação política totalitária e a dependência amorosa.