levanta e anda.

Quantas histórias temos para contar dessa vida?

Hoje minha avó disse algo pra minha irmã, disse o seguinte: “Eu amei essa casa, minha nova casa, mas só não amo mais porque não posso andar pra cuidar dela”.

Vó! Não faz isso comigo, não me deixa com vontade de voltar alguns vários ponteiros pra te ver sorrir e te ver “andar bem andado” por todos os cômodos espaçosos da sua nova casinha. A casa da minha avó! Essa lembrança me veio a memória, eu devia ter uns 8.

Tinha um pé de manga bem grandão, um quintal com terra, muita terra e bananeiras ao fundo. Não me esqueço daquele cheirinho de “migalhas de árvore” que o pé de mangas soltava junto daqueles troços verdes pequenos. Não me esqueço da humidade que a árvore produzia naquele quintal e das várias pipas que ela capturou e eu não fiz questão de pegar, as pipas dos garotos da C-9, Sudoeste. Não me esqueço de ver minha vó andando e limpando as lamúrias produzidas pelo pé de mangas gigante. Era como se ela soubesse que seria cortada.

Vó, lembra do Totó? Aquele cachorrinho fazia jus e honrava o nome dos Pinschers do mundo inteiro. Chato, não. Era quase um cachorro vindo de SEDEX10 direto das trevas, mas era meu amigo, meu grande amigo que me acompanhou durante toda a minha infância desde o meu nascimento. Presente que perdi aos 11 e deixei de acreditar em cachorros-amigos. Vó, como você correu atrás daquela peste e como aquela peste correu de você! Hahaha!

Vó, lembro que um dia te acertei uma bolada no rosto, brincando de chute a gol com o Bob (RIP BOB) e fazíamos do portão o nosso gol, “eu goleiro, bob atacante — eu atacante, bob goleiro”. Eu chutei uma bola e você veio correndo pra cima de mim, furiosa! Que saudade de te ver correr, vó!

Vó, esses dias estava vendo uma filmagem sua, naquela câmera de mão da mamãe. Alto Paraíso, há uns 10 anos atrás, eu com 16 e você, andando pra cima e pra baixo, subindo as montanhas pra gente chegar às cachoeiras e ainda por cima vestida de maiô! Um verdadeiro milagre, Dona Yolanda.

Acho que tudo que eu escrevi acima são fragmentos do HD do meu coração, na memória, surgindo enquanto eu escrevia. Deixo registrado aqui alguns momentos em que te vi andando e bem… não faz muito tempo, mas eu queria te ver completa aí dentro do seu novo lar.

Mas Vó, eu estava aqui meditando… pensando a respeito do seu novo lar. Sim, sua próxima casa não terá sido reformada, nem terá tido pés de manga, mas já estava pronta: A Casa Pronta(partindo do ponto de vista da irresistível graça calvinista) lhe esperando sem cachorrinhos “atentados” e boladas no rosto.

Essa é a nossa redenção, Vó. Sua casa, tenho certeza, será linda! Por tantos bolos, tantos omeletes e “carninhas de panela” feitos com amor! Que mãos e tamanha disposição para agradar sua comida falava ao meu paladar. Sei que isso não leva ninguém pra “Casa Pronta”. Sei também da sua devoção ao nosso Eterno e é isso exatamente que a levará pra lá.

Vó, não é que sou incrédulo, nem que não acredito em milagres… não que eu também seja o santo milagreiro ou o Sr. Fé (não sou), mas lá na Casa Pronta não haverá cadeira de rodas. Lá você vai poder correr, não das boladas ou por cachoeiras, mas pela plenitude, pela redenção que nos fará não sentirmos nada de ruim, eternamente!

Não se preocupe, vó…

Estamos vendo lampejos do que realmente queríamos enquanto nessa vida ,limitada pela morte. Não enxergamos o outro lado da montanha, essa intangível montanha que responde pelo nome: eternidade.

A sua eternidade será correndo, dançando, cantando e sorrindo. Todos os bons gerúndios possíveis pra uma senhora de 70 e poucos estarão lá esperando alguém que, do outro lado da montanha, não terá idade, não terá Parkinson, não terá de fazer omeletes gostosos e nem bolinhos de baunilha docinhos (uma pena), mas se encherão de um novo ar os teus pulmões, não mais migalhas de tempo numa casa reformada, mas banquetes servidos na mesa do rei em sua Casa Pronta.

Dona

Vó, acredite no que eu ultimamente luto para não acreditar, mas sei quem me marcou, sei quem forjou minha armadura, sei também que ele é o dono dos dois lados dessa Montanha Intangível, esse meu lado tangível reluta, desconfia… mas quando ouço algo como ouvi hoje, penso imediatamente no maior caça-problemas de todos os tempos, penso no Grande Dia e nas grandes promessas que temos reservadas por Ele. Enfim, acredite, acredito.

Vó, esse é um prelúdio de algo que sei que está por vir… ou por ir. Sei da sua ida, sei que o Pai logo te chamará para dormir e descansar… sei que o outro lado da montanha está por chegar… e quer saber? Vou chorar muito sua ida, já temo não tê-la por perto, não ter a minha mãezinha velhinha comigo. Foi tão bom tê-la aqui em nossa casa por 3 meses e meio, nas manhãs quase “madrugosas” vê-la com aquele casaquinho e com o cobertor de lã vermelho que você tanto adora… sorrindo, cortando os galhinhos das plantas… que como você me ensinou: “atrapalham e fazem com que as outras não cresçam, Felipinho”. Ô, vó!

Mãos de quem serviu.

Escrevo por medo, um medo descomunal, um lamento sem dor presente.

Escrevo para a Dona Yolanda, a Yolanda mais linda da minha vida e a minha Dona enquanto criança, a cuidadora exemplar que tanto andou pra me buscar na creche, que tanto viajou pra sustentar nossa família e que tanto nos ama.

Escrevo pra minha avó, minha Yolanda… escrevo também pro Pai me deixar passar mais tempo desse lado da montanha com a minha Yolanda.

“Os cegos enxergam, os mancos caminham, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as Boas Novas estão sendo pregadas aos pobres” Mateus 11:5

“Maybe you’re the same as me we see things they’ll never see you and I
were gonna live forever
Noel Gallagher.

Vó, nunca se esqueça… “Nós viveremos para sempre” por intermédio daquele que nos trouxe a paz, o filho do seu amor.

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