como me esquecer se conheci?

Dias assim.
Aug 25, 2017 · 4 min read

As chamadas influências ajudam o artista a fixar sua originalidade íntima. São, na verdade, afinidades eletivas descobertas de uma genealogia espiritual.

Só nos influência aquilo que já está em nós mesmos. (Lêdo Ivo, 1924)

A citação de Lêdo Ivo (jornalista e poeta ex-membro da Academia Brasileira de Letras) supõe incertezas dentro de nós — respondidas dentro de nós mesmos, frase essa classicamente válida para dias em que a dúvida parece pairar na mente daqueles que insistentemente tentam lutar frente de batalhas vãs.

Marginal Pinheiros

É intrigante pensar, hipoteticamente, que tudo aquilo que eu goste possa ser fruto daquilo que alguém gostou antes de mim, mas que dentro de mim algo já gostava. Lêdo, nos mostra que é humano e faz parte do plano de ser humano.

Essa frase me fez recordar de uma eternidade passada, não vivida por mim, mas, de modo lúdico e real, dentro de um funil que nos escopa ao paradoxal, uma promessa da qual não me lembro. Me apego no que ouço, começo a viver e praticar involuntariamente algo que não sei, por fé, por não saber que tenho dentro de mim a essência do até então desconhecido sopro de vida.

Então, desconheço o encontro que marcaram para mim às escuras, uma reserva feita numa mesa para dois, eu e Ele. Disseram-me que marcaram meu nome antes mesmo de eu nascer, para um encontro com o inefável.

Antes de entrar pro tal jantar com o inefável, ouço os passos de um garçom, um adulto de aparentemente 33 anos, de aparência estranha, acho que era nordestino. Perguntei o que tinha pra pedir pra ir “beliscando”, enquanto eu esperava o encontro. Me respondeu que teria pão e vinho para me servir, eu, com fome e sem saber ao certo quando comeria, aceitei. Me fartei com muito vinho e muito pão, comi-os com tamanha fome, desproporcionalmente, quanto mais comia e bebia, mais sentia fome e sede. O garçom tinha um jeito descontraído, uma conversa firme e ao mesmo tempo tão convidativa, um tanto persuasivo, mas também muito arisco… Sorriu para mim e ironicamente disse: “Quase não comeu do meu pão e bebeu do meu vinho né, Senhor Felipe?” — Eu, desconcertado e com medo do preço, perguntei quanto ficaria esse couvert de entrada… Ele, sorrindo novamente balançou a cabeça e disse: “Senhor Felipe, não lhe custará nada”. Eu, intrigado, o questionei o porquê do absurdo de não cobrar o meu couvert, uma vez que comi bastante e também o questionei do porquê de ficar me chamando de senhor toda hora… Ele, num tom mais sério, porém muito sóbrio e claro me respondeu: “Senhor Felipe, não me questione acerca do motivo pela qual não cobrei o pão e o vinho, isso faz parte de minha essência, quanto a te chamar de Senhor, eu estou aqui para servi-lo primeiramente, somente estou cumprindo o que me foi ordenado pelo inefável”.

Um grande absurdo, começo a estranhar, primeiro me chamam para um encontro a dois que foi marcado antes de eu nascer, depois um garçom que não cobra o que serve, me farto de vinho e pão e continuo com sede, continuo com fome…

Continuo com fome.

Somos então despertados para o novo que já existia dentro de nós. Concernentes a arte e o que ela afeta em nosso corpo e alma, somos os receptores com prazo de validade, dos vários terabytes que receberemos enquanto vemos, ouvimos, sentimos, tocamos e cheiramos… em nossa finitude.

Continuo com sede.

Mas… em nossa tricotomia, uma parte ainda não entendeu o que faz limitada dentro de um corpo finito. Existe ainda, uma lacuna existencial dentro de nós que coincidentemente, tem o tamanho do infinito e necessita diariamente ser preenchida daquilo que ainda não conhecemos, mas sabemos que existe.

Em nossa genealogia espiritual na frase de Lêdo, numa visão espiritual, precisamos, assim como fazemos com os nossos sentidos, constantemente buscar e aguçar a nossa originalidade bem fixada.

Mas onde está a originalidade bem fixada para aquela parte dentro de nós que ainda não entendeu o que é o infinito? É estranho como sentir saudade do que nunca viveu ou do que, por acaso, está dentro de nós e não sabemos. Ainda tenho lacunas…

Necessito de pão e vinho…

O garçom.

De repente, uma luz mais forte que o sol brilhou sem que eu esperasse…e então o garçom retornou sorrindo e me chamou pelo nome:

“Felipe? O seu SENHOR o espera para o jantar que já está posto na mesa” (…)


Texto escrito em homenagem a todas aquelas pessoas que influenciam ou influenciaram na fixação da originalidade eletiva, por meio das diversas artes e conceitos tangíveis que formam em mim o que sei de mim e do que aprecio como arte.

Aquele que sonda o íntimo do meu ser, agradeço-o porque visita a minha finitude por intermédio do Espírito, e me sonda, amando-me quando menos mereço. Desconhecendo a sua infinitude soprada dentro de mim e assombrosa graça com que me alcançou, me resta prazerosamente aceitar de modo gratuito o pão e o vinho trazidos pelo maior garçom de todos os tempos. Me resta querer ainda mais buscar aquilo que inconscientemente eu desconheço dentro de mim, que só encontro em Ti. E a maior graça? Ver que já estava plantado por Ti, ali, bem dentro de mim a tua infinitude.

Parafraseando Lêdo:

“Só nos influência aquilo que já está em nós mesmos”.

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    Um cara recém nascido todos os dias.

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