tenho troco pra dois

W.Y. Porque as moedas que tenho enquanto escrevo são de vocês.

Novembro foi assim…Dois amigos se foram e eu nem pude dizer adeus. Na verdade sei bem que outros também partirão sem dizer adeus. Sei que a vida não alisa, como diz minha mãe. Também sei que não sou imortal, ainda que meus vinte e poucos insistam em me dizer que sou. Somos todos vulneráveis, como naquela imagem clichêzona que circula pela internet: “somos instantes”. Às vezes me questiono sobre o que eu tenho feito ou deixado de fazer, meus excessos, minhas faltas…tempo perdido!

Tempo. Indecifrável, imutável, incontrolável. Qualquer uma das minhas traduções pessoais se adequará na tradução de qualquer outro ser humano. Trabalhamos tanto, corremos atrás daquilo que não levaremos, então levaremos exatamente o quê? Ou o que deixaremos? Investimentos na bolsa, ações valiosas, fortunas ou um “pézinho de meia” da faculdade dos filhos, dividendos para toda a família. Toda.

Nós não clamamos por dinheiro, na verdade há a necessidade por tê-lo, há a ambição por tê-lo mais, até mais do que qualquer coisa ou pessoa. Podemos viver nossas vidas correndo atrás daquilo que não ficará, acredite. O dinheiro também passa. Mas onde o tempo entra na disputa desleal contra os bens e as coisas?

A minha resposta esteve exatamente quando encontrei dois amigos, cada qual em sua nova casa amadeirada e perfeitamente envernizada, com belas flores, coroas e dedicatórias do tipo “sinceras-tarde-demais”.

Por muito acabamos ficando com pouco-quase-nada. A sociedade vai lhe chamar de mente pequena, sem ambição. Isso já é tema para outra carta.

Na verdade, esses amigos não viveram o bastante pra construir riquezas, bens, heranças e tenho certeza que também não deixaram dívidas. Talvez deixaram um video-game, camisas de futebol, coisas antigas e muito amor. Deixaram seus sorrisos cheios de juventude para trás, um propositalmente e o outro por circunstâncias ruins que a vida traz, ambos deixaram. Fica a lembrança e a lição. A lembrança? Certamente seus sorrisos e cada fase da minha vida que passei ao lado deles. A lição? Dizer adeus não amenizaria a despedida e a dor que ela traz, sendo eterna ou não. Dizer adeus não é bom. Não nascemos para dizer adeus à quem amamos.

O tempo é a nossa moeda. A vida que vivemos e somos chamados para viver nessa terra é pautada nesse tempo que insiste em não parar e não querer voltar para as pessoas e lugares. É esse tempo que corre junto com aqueles que amontoam coisas, num amontoado de gente coisada.

Eu quero deixar de herança para os meus amigos os meus próprios amigos. Quero deixar sorrisos e momentos, choros e consolos, brigas e perdão, quero deixar histórias, verdades, mentiras, mistérios, lembranças! Quero deixar a minha mais valiosa moeda, que o Criador me concedeu, quero deixar o meu tempo às pessoas que amo e aprender a amar aquelas que Ele me chamou para amar.

Mas preciso aprender primeiro…sei que o tempo passa o bastante para me deixar velho, mas ainda aprendendo.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. Fernando Pessoa

Obrigado por ter compartilhado parte de suas riquezas comigo, Wands e Yan. Nunca os esquecerei.

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