Aniversário

Fernando Dias
Sep 8, 2018 · 6 min read

Essa semana foi meu aniversário. Na véspera, minha esposa e eu, exaustos da longa viagem, sentamos à mesa comendo pipoca e olhando a nossa vista incrível da janela da sala. Apagamos todas as luzes de casa pra poder ver as da cidade, ao longe.

Nesse momento, no silêncio, no escuro, comecei a pensar sobre o ano que começaria no dia seguinte, em qual seria a narrativa desse 33o ano, e lembrei de uma poesia do Rainer Maria Rilke sobre a qual meditei muito no ano que se encerrava. Procurei no Google pra lê-la e compartilhar com minha esposa — o texto original é em alemão — mas por acaso caí em uma tradução para o alemão de outra poesia, do David Whyte. Acasos talvez não existam, eu pensei, e fui ler a original, em inglês.

When your eyes are tired
the world is tired also.

When your vision has gone,
no part of the world can find you.

Time to go into the dark
where the night has eyes
to recognize its own.

There you can be sure
you are not beyond love.

The dark will be your home
tonight.

The night will give you a horizon
further than you can see.

You must learn one thing.
The world was made to be free in.

Give up all the other worlds
except the one to which you belong.

Sometimes it takes darkness and the sweet
confinement of your aloneness
to learn

anything or anyone
that does not bring you alive

is too small for you.

— Sweet Darkness, David Whyte


Quando seus olhos estão cansados
o mundo está cansado também.

Quando sua visão se vai,
nenhuma narrativa do mundo pode encontrar você.

Hora de retirar-se para a escuridão
onde a noite tem olhos
pra reconhecer seus semelhantes.

Lá você pode ter certeza
de que você não é estranho ao amor.

A escuridão será seu retiro
nesta noite.

A noite vai mostrar a você um horizonte
maior do que você pode ver.

Você precisa entender uma coisa.
O mundo foi feito para receber um você livre.

Abandone todos os outros mundos
exceto aquele ao qual você pertence.

Às vezes é necessário escuridão e o doce
retiro de sua solidão
pra aprender

Que qualquer momento ou pessoa
que não faz você se sentir mais vivo

é pequeno demais pra você.

— Doce Escuridão, David Whyte, tradução livre minha


“A noite vai mostrar a você um horizonte / maior do que você pode ver.” Esse verso me prendeu, e me fez parar e pensar que realmente talvez não existam os acasos. Ainda estou meditando sobre ela, e será um exercício longo, mas compartilho algumas coisas que já se me surgiram.

Numa primeira leitura, o poema fala diretamente com minha natureza introspectiva inserida em um mundo onde a extroversão é recompensada e esperada. Introvertidos não são necessariamente tímidos, mas preferem o silêncio aos sons, a solitude ao social, o mundo interno ao mundo externo. Ter que estar inserido num meio desenhado para a extroversão é bastante cansativo para um introvertido, há um dispêndio de energia muito grande para performar em meio a barulho e agitação e pessoas.

Mas isso não significa que os extrovertidos não precisam desse momento consigo mesmos, e talvez até mais.

“Quando seus olhos estão cansados, / o mundo está cansado também.” A recarga das energias se dão ao fim do dia, ou em rituais solitários no início dele, e em pausas durante o dia. Mas o antídoto pra esse tipo de cansaço não é o descanso, mas a wholeheartedness, a entrega de um coração sinceramente engajado na atividade. Nós todos temos uma visão sobre o nosso mundo, e quando estamos animados, tudo ao nosso redor parece ou animado ou rendido à nossa animação; se estamos tristes, nada parece nos animar; se estamos irritados, qualquer coisa alimenta o sentimento. Quando não vemos sentido na nossa jornada, nosso mundo também se arrasta com passos cansados. Se não conseguimos enxergar pra onde estamos indo, ou se não vemos sentido no caminho, nós não vamos conversar com o nosso mundo de uma maneira autêntica, sincera. “Quando sua visão se vai, / nenhuma narrativa do mundo pode encontrar você.”

David dá a resposta pra quando nos encontramos nesse ponto: “Hora de retirar-se para a escuridão / onde a noite tem olhos / pra reconhecer seus semelhantes.” A escuridão, o escuro, é muito rejeitado por nós como algo ruim, negativo. Mas é absolutamente natural, como a noite e o sono são. E da mesma maneira que precisamos do sono pra restaurar nosso cansaço físico, precisamos nos retirar do agito e do convívio pra podermos recuperar nosso contato com nós mesmos. Precisamos nos conectar com nosso autêntico, com nossa expressão mais sincera de quem nós somos. A noite consegue respeitar a necessidade de introspecção, de silêncio, de isolamento.

“Lá você pode ter certeza / de que você não é estranho ao amor.” No seu íntimo, na sua forma mais autêntica, você não é nem incapaz de receber amor nem de dar amor. De todas as definições sobre o oque seja o amor, a Carta de São Paulo aos Coríntios continua sendo, pra mim, a melhor:

O amor é paciente, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.

Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;

Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;

Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;

Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.

1 Coríntios 13, 4–12

Se conseguirmos ler esses versos direcionados a nós mesmos, veremos o que estou querendo dizer; no nosso mais autêntico, quando nossa conversa com nós mesmos é sincera, não vamos ter qualquer juízo de valor sobre nós mesmos, e qualquer expectativa do que deveríamos ser ou conseguir cai por terra. Mas não conseguimos ter essa conversa no dia, no agito. “A escuridão será seu retiro / nesta noite.” E então teremos a dimensão de quem somos, e isso será absolutamente libertador pra nós e pra tudo que podemos fazer e conseguir no mundo, porque será focado e direcionado. “A noite vai mostrar a você um horizonte / maior do que você pode ver.”

“Você precisa entender uma coisa”, nos diz nosso eu mais íntimo. “O mundo foi feito para receber um você livre.” Livre de pré-conceitos sobre como devemos ser, parecer, agir, amar; do que devemos ter, conseguir, alcançar. Nossa conversa com o mundo só será produtiva quando estivermos livres das expectativas que outros e nós mesmos nos colocamos, e passamos a estar abertos pra viver com autenticidade. “Abandone todos os outros mundos
/ exceto aquele ao qual você pertence.”

Um Brinde aos Loucos, propaganda da Apple

Às vezes é necessário escuridão e o doce
retiro de sua solidão
pra aprender

Que qualquer momento ou pessoa
que não faz você se sentir mais vivo

é pequeno demais pra você.

David não fala em “se sentir mais feliz”, mas “mais vivo”; qualquer coisa que não esteja alinhado com uma vida eudaemônica, uma vida que valha a pena ser vivida, “é pequeno demais pra você.” Mas só entendemos isso quando estamos livres, quando conseguimos recuperar nossa visão. E passamos a não mais aceitar que sejamos diminuídos pelas circunstâncias, mas ganhamos energia em batalhar por circunstâncias melhores pra uma vida que valha a pena ser vivida.

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