Dia dos Pais
Durante a enxurrada de mensagens sobre o dia dos pais, só me vinha uma poesia na cabeça, “Poema em Linha Reta,” do Álvaro de Campos.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
— Poema em Linha Reta, Álvaro de Campos
E então lembrei do meu pai.
Interessante que quando somos crianças, é importante que nossos pais sejam impenetráveis, infalíveis. Isso nos dá segurança, e é fundamental, como disse Freud, que uma criança se sinta segura pelo seu pai.
Mas hoje, eu mesmo pai, “tantas vezes reles, vil”, olho a quantidade de mensagens e parabéns e penso,
“Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.”
E depois de tantos anos, de tantas vivências, meu pai novamente me deixa seguro. Não porque ele não leva porrada, mas porque hoje eu sei as porradas que ele levou. Hoje podemos falar sobre as angustias, as dúvidas, os medos, e na sua fraqueza, ele me dá segurança de não estar sozinho, vil, assustado, em um mar de semideuses.
Não que seja fraco; ao contrário, de todas as vidas que eu conheço, a dele é das mais retas, e a barra pela qual eu me mensuro é muito alta graças a ele.
“Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!”
E eu sei hoje, eu mesmo pai, como é bom ter alguém que te olhe como o mais forte, o melhor, e me encho de lágrimas de agradecimento em entender o quanto ele abriu mão pra, mais uma vez, me deixar seguro.
Descer do panteão não é fácil, não é bom, mas você ter feito isso me acolheu de volta pra humanidade e, assim, você ficou cada vez maior aos meus olhos.
Obrigado por mais essa, Cleiton Dias.
Eu amo você, pai.

