Como tentei diminuir o meu tempo de tela: um experimento real

(coluna publicada no Ada, em abril de 2018)

Eu ganhei o meu primeiro celular aos 16 anos de idade e desde então nunca fiquei mais de 5 dias ou 1 quilômetro distante de um. São quase 20 anos convivendo diariamente com um aparelho tecnológico de forma íntima: sempre ao alcance da mão e perto do corpo.

Recentemente, comecei a me interessar por estudar mais a fundo o tal FOMO (sigla para Fear Of Missing Out ou, em bom português, medo de perder alguma coisa). Mais especificamente para entender porque o assunto não é levado mais a sério. E, com isso, passei a observar os meus próprios padrões. FOMO, para quem não sabe, é a chamada “ausência inquietante” que a internet e as redes sociais nos causam, aquela sensação de estar sempre perdendo algo incrível. Fizemos um post dedicado a isso no nosso Dicionário de Tecnologia.

Eu me considero uma pessoa muito conectada. Estou online desde que acordo até a hora de ir dormir, sou ativa em pelo menos três redes sociais, converso com dezenas de pessoas diariamente e desligo grande parte das notificações porque elas são como uma avalanche. Não lembro a última vez em que tive um WhatsApp, email ou inbox de Facebook zerados. O meu celular dorme ao lado da cama e é a primeira e a última coisa que vejo no dia. Transito entre no mínimo três telas de forma randômica, às vezes até simultânea. Além do meu smartphone, também tenho um laptop, um tablet e uma smart TV, que, apesar de terem usos diferentes, aumentam consideravelmente o meu tempo de tela. Demorei a aceitar essa gigantesca ficha que me caiu recentemente, mas sou sim viciada em Internet.

meu primeiro iPad ❤

Comecei então em uma jornada para, primeiro, descobrir quanto tempo de fato eu passo online e onde eu distribuo a minha atenção. Então quis entender o quanto desse tempo é consumido por falta de falta de foco meu, e o quanto é reflexo de uma tecnologia desenhada à perfeição para gerar adicção. Dependência mesmo. Depois pesquisei técnicas, dicas de especialistas, teorias energéticas e aulas de mestres budistas sobre como se libertar dessa dependência. Foi importante me informar e entender o contexto como um todo, mas eu só consegui diminuir um pouco do meu tempo de tela com a ajuda de ferramentas tecnológicas (que ironia) e outras mudanças de hábito offline. E não, não está sendo fácil, mas foi e é necessário.

Tudo o que vou sugerir a seguir eu já testei, mas nem tudo deu certo. Acho que cada um tem um calcanhar de aquiles, mas eu já vejo alguns progressos por aqui. Espero que te ajude.

Como diminuir o tempo de tela

No laptop

O meu maior gargalo de tempo no computador é a Internet, óbvio, que eu uso no nagevador Chrome. Antigamente eu abria 25, 30, 50 abas em 3 ou 4 janelas diferentes e deixava um monte de links lá para ~ ler depois. De tempos em tempos o computador travava e eu perdia tudo que tinha guardado. De uns tempos para cá o Chrome passou a lembrar das abas fechadas repentinamente, o que te permite abrir tuuudo de novo de uma só vez. A verdade é que muitas vezes nem lembrava do que se tratava aquele link, nem porque eu tinha guardado.

Além de prejudicial para máquina, o excesso de abas abertas é tóxico para a mente, que pula de um assunto para o outro sem se concentrar em nada, só respondendo como um macaco dopado às notificações. Gmail, Facebook, WhatsApp Web, Slack. Repete. Gmail, Facebook, WhatsApp… Um loop desesperador.

Seja o seu próprio carrasco

Duas ferramentas combinadas me ajudaram muito nesse processo. Na verdade, duas extensões do Google Chrome, que são ferramentas que te ajudam a customizar o seu jeito de navegar na Internet.

Uma delas é o Window Tab Limiter, que te proíbe de abrir mais de X abas e janelas por navegação. Na verdade é você que define esse limite, então meio que não faz sentido roubar no jogo. Minha dica é: escolha um número muito mais baixo do que você está acostumado e vá testando. O meu limite é de no máximo 10 abas simultâneas. Parece uma bobagem, mas depois de um tempo você começa a controlar melhor a distração e a agradecer por ter menos poluição visual na tela do seu laptop.

Outra dica boa é o AutoControle, uma extensão do Chrome que fica analisando a sua navegação e registra os seus acessos online, gerando informação sobre onde está o seu ralo de tempo. É um pouco assustador. Funciona assim: no ícone da extensão (na barra do Chrome, à direita) você vê há quanto tempo está naquela página. Além disso, ele te mostra um relatório de todos os sites visitados no dia com o respectivo tempo de navegação. Mas a ferramenta mágica mesmo, para quem é junkie como eu, é o temporizador. Ele permite que você configure um bloqueio de sites que você mesma escolhe baseado em tempo de navegação e intervalo de tempo.

Confesso que devo a minha tese de mestrado a estas duas ferramentas. Sem elas nunca teria conseguido terminar. Durante um curto período de tempo eu usei outra extensão do Chrome chamada Pomodoro Timer, que diz respeito à técnica que muitas pessoas amam: 25 minutos de foco total, 5 minutos de descando e intervalos maiores de 1 em 1 hora. Para mim não rolou, mas a extensão é ótima.

No celular

Eu comecei a fazer as contas de quanto tempo da minha vida eu estaria dedicando ao meu smartphone daqui até o fim da vida baseada no meu consumo atual, mas parei na metade com medo do resultado. Eu achava que perdia, no máximo, 1,5 hora no celular por dia. Um amigo comentou que achava muito pouco, e eu baixei um app chamado Moment (infelizmente só para iPhone por enquanto) para descobrir. Usei por uma semana e a cada dia ficava mais chocada. A minha média é de 4,5 horas diárias, com dias em que cheguei a mais de 6. É muita vida. Já cheguei a pegar o telefone na mão CEM VEZES ao longo de um dia. Foi por isso, inclusive, que as fabricantes criaram esse recurso de mostar as notificações na tela mesmo quando ela está apagada, chamada por várias empresas de Always On Display. Segundo as empresas, uma pessoa checa o celular 150 vezes por dia.

O app mostra estatísticas claras sobre o seu tempo de tela. Foto: Captura de tela.

Fiquei encantada com a versão paga do Moment já de cara, mas quis testar um pouco mais a versão gratuita para ter certeza. São R$12,90 por mês ou R$49,90 para a versão família, que inclui vários dispositivos. Depois de 10 dias medindo meu comportamento no celular, comprei um mês de premium e me apaixonei. O app te ajuda a estabelecer metas imediatas, a curto, médio e longo prazo.

Você também pode customizar alertas e avisos do seu limite diário ou até se forçar a ficar offline por um tempo (a tela fica bloqueada para você mesma!). O sistema também te manda alertas de tempos em tempos, para te lembrar que há vida lá fora e que você já passou tempo demais no Instagram. Os desenvolvedores do aplicativo garantem que as pessoas conseguem diminuir pelo menos uma hora por dia de tela usando o app. O programa é de detox mesmo, com coaching e ferramentas psicológicas super legais para te ajudar no meio do caminho. Ele te pergunta “será que você não está só entediado? Que tal regar as suas plantas?”❤

Na verdade o app só me mostrou o que eu já sabia, mas nunca tinha medido. Registrar foi importante para entender que esses hábitos poderiam se tornar um problema de verdade. Sempre tive alguns cuidados básicos, mesmo pré-detox, que não custa nada lembrar.

Meus cuidados para ter menos tempo de tela:

  • organizo os meus aplicativos em pastas, deixando quase nada fora delas. Quando estou buscando distração levo mais tempo para chegar em algum lugar e às vezes desisto no meio do caminho;
  • só autorizo notificações de coisas realmente importantes (like de Instagram não é importante para mim, por exemplo);
  • uso o critério “eu poderia receber esta informação daqui 3 horas?” para definir o que é importante ou não;
  • de tempos em tempos apago o app do Facebook e do Instagram, de propósito. Sei que não consigo viver sem eles, mas o fato de ter que baixá-los de novo cada vez que quero usar me ajuda a reconsiderar quanto tempo deveria passar neles;
  • uma vez quebrei toda a tela do meu celular e deixei como estava por semanas, foi incrível porque não tinha vontade nem de olhar para ele;
  • seja no WhatsApp ou em qualquer outro mensageiro, costumo deixar toques de notificação diferentes para pessoas “VIP” (sócias, companheiro, família), assim sei que não é mais uma mensagem naquele grupo que não vejo há dias;
  • quando não tenho coragem de sair, silencio sem dó grupos de WhatsApp por um ano;
  • tento deixar apenas os apps ferramentais à vista, como Uber, Maps e Spotify, e costumo esconder o resto em outras telas;
  • sempre durmo com o modo “não perturbe” ligado;
  • na minha época de iPhone fazia questão de não levar carregador quando trabalhava fora de casa: quando acabasse, era o fim.
  • em presença de outras pessoas num papo mais próximo, sempre deixo o celular virado para baixo e no silencioso. Afinal, a pessoa não tem obrigação de ser interrompida pelo seu match no Happn, né?
  • testei uma só vez e achei bom: deixar o seu telefone inteiro em uma escala de cinza. Parece bobagem, mas o vermelho da notificação e as bordas brilhantes do logo do seu jogo preferido chamam a nossa atenção.
  • Quem aguenta passar muito tempo olhando esse mundo cinza? Foto: Captura de tela

Contribuições de leitora

Uma de nossas leitoras recomendou duas ferramentas super legais:

Rescue Time

Ele instala uma extensão no chrome e também um programa no background que analisa o que você está fazendo.
Eu também tenho bastante fomo, e para quem trabalha no computador às vezes é difícil não entrar num buraco negro quando deveria estar fazendo outra coisa. Esse programa mede quanto tempo fiquei fazendo algo produtivo Vs. quanto tempo fiquei enrolando.

Kill News Feed

(Um plugin para Google Chrome que ) Faz o Facebook não mostrar o feed quando entro nele.

Fugindo de outras telas

Apesar de usar muito menos, tenho um iPad que uso basicamente para ler e para assistir séries e videos de YouTube quando estou sozinha. Quando tenho companhia uso a minha TV combinada com o Google Chromecast, um aparelhinho parecido com a Apple TV que manda videos do meu celular ou computador para a telona.

Com este iPad fiz uma escolha consciente de não instalar aplicativos com timelines ou que me permitissem conversar com pessoas, como o Gmail, Slack e Facebook. Instalei o Pinterest para ser uma fonte de diversão e de fato é legal: ver belas imagens em uma tela maior é bom momento de estudo e relaxamento. Não me vicia tanto assim.

Sinto que lido com esse vício há muito tempo sem dar nome aos bois, mas acho que os meus avanços não são exatamente proporcionais aos meus esforços. A verdade é que os aplicativos, smartphones, jogos e programas que usamos são pensados para criar um loop de dependência tecnológica, porque o mercado se baseia em números que só medem quantidade, e não qualidade de conexão. Saber disso é importante porque assim podemos enxergar os sinais das ciladas digitais o mais rápido possível e agir sobre elas, antes que se transformem em péssimos hábitos.

Ok, mas isso quer dizer que eu estou salva do meu vício? Claro que não. Acho que ainda é um caminho longo e não-linear, porque acredito que em alguns anos todas as coisas que fazemos hoje em um celular vão estar distribuídas em outros espaços ao nosso redor (e aí o bicho vai pegar de verdade!), mas olhar para a forma de usar a tecnologia é importante para saber o que nos tira do prumo.

Se você tiver outras dicas, comente aqui e vamos melhorando esta lista juntas.