Please and thank you

(coluna do Ada na revista TPM, publicada da edição de agosto/2016)

Quantas perguntas você já fez ao Google em toda a sua vida? Hoje, mais de 40 mil buscas são feitas por segundo na ferramenta, o que se traduz em 3,5 bilhões de perguntas por dia ou 1,2 trilhão ao ano. Algumas delas com certeza são suas, mas a gente aposta que em nenhuma das vezes te ocorreu dizer “por favor” ou “obrigada” pelo link alcançado ao gigante da Internet. Certo?

Então imagine o ataque de amor que tivemos ao ouvir falar de May Ashworth, vovó inglesa de 86 anos, que pergunta coisas ao Google como se estivesse conversando com pessoas que estão lá para tirar suas dúvidas: com “por favor e “obrigada a cada nova busca. Além de derreter nossos corações, May nos botou para pensar em como a tecnologia está começando a nublar a fronteira do que é “certo” ou não fazer com uma máquina.

Vovô May tem netos, que talvez já tenham tirado um sarro com a cara da Siri numa tarde entediante de chuva ou usado o Google Now para criar alguma resposta engraçada. “Siri, sua burra! Siri, quem soltou os cachorros? Siri, você sabe mesmo contar?”: cansamos de ouvir frases assim de crianças por aí, mas você não vê nenhuma mãe por perto dizendo “meu filho, não foi assim que te criei!”.

É claro que os nossos pais não agradeciam à lista telefônica por encontrar o número de um chaveiro, mas não é estranho maltratar uma ferramenta humanizada na voz de uma mulher — com nome, personalidade e senso de humor — de forma gratuita? Especialistas chamam isso de “gap de empatia”, um fenômeno que acontece quando nos deparamos com interfaces que se comunicam conosco. Surge então uma dificuldade de enxergar a perspectiva programática do serviço, da máquina, do robô, e conectar isso com os modos que a sociedade nos ensinou a ter.

Estudos já mostraram que quanto mais humanizada for a tecnologia mais empatia sentimos, ainda mais em situações de risco para a máquina: um japonês maluco foi preso no ano passado por chutar um Pepper, um robô fofinho, até a “morte” durante um acesso de raiva. As pessoas o trataram como se ele tivesse cuspido em um panda albino recém-nascido.

Muitas vezes não entendemos como o sistema funciona, mas simpatizamos com a forma que ele nos trata, mas isso não necessariamente nos conecta à máquina emocionalmente. Assistentes domésticos, como o Amazon Echo, por exemplo, têm tudo para ser uma grande escola de pequenos ditadores. Personificado na voz de Alexa, o sistema só entende comandos claros e diretos, criando padrões de comunicação autoritários nas crianças, grandes fãs deste tipo de tecnologia.

Cognitivamente, é difícil sacar como uma criança percebe a diferença entre ser educado com um humano e mal educado com uma máquina, que também “conversa” com ela. Ao contrário dos gestos que tiveram que aprender (numa velocidade assustadora) para mexer em um iPad, crianças não precisam de uma nova linguagem para lidar com assistentes pessoais e robôs. É só imitar os seus pais no tom assertivo.

Quanto isso influenciará o comportamento infantil na sociedade ainda não sabemos, mas por via das dúvidas, porque não um updatezinho no sistema, algo que nos obrigue a ser um pouco mais educados com as máquinas? Quem sabe uma Siri empoderada não ajude as crianças a lidar melhor com o futuro e fazer dos modos educados da dona May a norma, e não a exceção.