Próspero, asséptico e high-tech

Cleyton Cubitt

(coluna do Ada na revista TPM, publicada da edição de dezembro/2015)

Existe todo um universo de pessoas especializadas em observar o que a nossa cultura produz para fazer conexões com contextos maiores, como a moda, design e comportamento. Esse pessoal você já conhece, são caçadores de tendência que funcionam como tradutores do mundo em tempo real. São eles que dão nome ao nossos gostos recém-adquiridos e que apontam o nosso olhar em direções teoricamente relevantes. Mas existem também aqueles que caçam o que ainda está por vir, esses são conhecidos como futuristas. Em linhas gerais, tentam prever o futuro (mais ou menos remoto) da humanidade com uma abordagem científica. A ideia é entender o que provavelmente permanecerá em nossas vidas e o que poderá mudar nos próximos 5, 50 ou 500 anos. Trata-se de um campo de estudo relativamente jovem, com um conjunto peculiar de estudiosos sem uma formação específica e com uma combinação de competências suficientemente boa para provar minimamente seus chutes. Alguns vêm da academia, da indústria e outros, de empresas de tecnologia.

Eis o que você precisa saber sobre eles:

Quem está estudando o seu futuro (e vendendo isso para empresas) são, com raras excessões, homens brancos e norte-americanos da classe média/alta acima dos 50 anos.

É um campo de estudo órfão de outras representações étnicas, culturais, econômicas e de gênero. Por que isso deveria incomodar você? Bom, porque para fazer parte desse clube parece ser suficiente observar para onde a tecnologia e o consumo estão caminhando com uma lente otimista. Acontece que, na maioria das vezes, a tecnologia é previsível. Os seres humanos, nem tanto. Ao não incluir vozes femininas e de outras minorias nestes estudos, ignoramos as questões com as quais eles têm de lidar, e de repente o discurso passa a pertencer àqueles que não precisam batalhar por muita coisa. O problema é que quem está financiando o seu futuro ouve e aposta neste porvir próspero, asséptico e high-tech.

Enquanto isso, esquecemos de pensar nos contextos menos tangíveis e mais sutis, como mudanças sociais mais transformadoras, novas estruturas familiares e afetivas, impactos culturais de longo prazo e a construção de modelos econômicos baseados em outras coisas que não o dinheiro. Será que a tecnologia pode nos ajudar a amar mais? Será que a internet pode reinventar o capitalismo? Quando um só tipo de pessoa está envolvido em fazer certas perguntas, deixamos de lado vários outros cenários onde procurar respostas. Só que convenhamos; estamos vendo governos, economias, sistemas e recursos colapsarem um atrás do outro. Parece estúpido excluir a opinião de quem precisa lutar diariamente, seja pela razão que for, nas decisões sobre os próximos passos da humanidade.

*obrigada Fernanda Obregon pela inspiração ;)