Comentando “Batman vs Superman”
O filme, infelizmente, é ruim. Não o completo lixo que muitos vem falando que ele é, mas ruim.


Esse texto poderá conter spoilers… mas acho que nada demais.
Fui assistir Batman vs Superman querendo gostar do filme. Gosto bastante dos dois personagens e vê-los contracenando na telona é sim um grande evento. Porém, não conseguia deixar de ficar com um pé atrás e o motivo principal era Homem de Aço (2013), o filme que serve como prequel desse. Se Zack Snyder, diretor, teve dificuldades nesse filme, temia por ele não conseguir segurar a barra de um filme tão ambicioso quanto Batman vs Superman.
Por sinal, ambicioso é uma boa definição para esse filme. Ele não só pretende recontar um dos maiores conflitos da cultura pop, como ele também precisa servir como introdução de novos personagens, em especial a Mulher Maravilha, além de ter que criar os sedimentos do que virá a se tornar o futuro filme da Liga da Justiça. Não é pouca coisa não.
Entretanto, toda essa ambição viria a ser demais.
Enxergando as qualidades


Embora o filme tenha muitos defeitos, eu sempre prefiro começar por suas qualidades. Por sinal, esse filme mostrou suas qualidades justamente em aspectos que muitos acreditavam que seriam seus piores.
A começar pela Mulher Maravilha. Sua presença foi envolta de muita controvérsia desde que foi anunciada. A escolha de Gal Gadot para o papel foi seguida de duras críticas à sua forma física “nada amazônica” e por aí vai. O que vimos na tela, no entanto, foi simplesmente o contrário do que todos pregavam: uma Mulher Maravilha BAD ASS, porradeira, que sabe que é fuderosa e que rouba a cena quando aparece, mesmo estando ao lado de dois personagens de peso!
Continuando no quesito caracterização, tenho que citar o Batman de Ben Affleck. Igualmente acompanhado de críticas quando anunciado, se mostrou a melhor encarnação do Morcego que já vi até hoje no cinema. Um Batman mais velho, mais cínico, menos crente na humanidade, descontente com 20 anos de luta ao crime que pouco adiantaram para reduzi-lo. Um personagem mais denso que acabou me despertando muita vontade de conhecê-lo melhor. Infelizmente, assim como a Mulher Maravilha, sofre com um roteiro sem foco e com uma direção cheia de falhas.
Ainda preciso reconhecer que, embora ache o personagem Superman dessa franquia uma verdadeira porcaria (mais disso daqui a pouco), Henry Cavill é, plasticamente falando, o melhor Superman que já tivemos.
Quando esse trio se junta no terceiro ato para enfrentar o Apocalipse — que mais parece um Troll saído do universo de Senhor dos Anéis — temos o verdadeiro auge do filme. Uma luta que funciona, que mostra cada herói como único, com suas qualidades e defeitos, agindo em conjunto para enfrentar uma ameaça maior. Posso arriscar dizer até que esses três, nesse momento, funcionaram melhor do que os Vingadores em A Era de Ultron (2015), mas aí é entrar em território crossovista desnecessariamente.
O grande problema disso tudo é que num filme cujo título é Batman vs Superman, era esperado que o clímax fosse a luta entre os dois ícones, mas… bem, acho que agora é uma boa hora para entrarmos na parte onde falamos das (muitas) partes em que o filme falha.
Sofrendo com os defeitos


É difícil ficar apontando dedos e dizer quem errou em um filme tão grande como esse. Seria fácil dizer que a culpa é do Zack Snyder, mas acredito que ele não esteja sozinho nessa, embora tenha grande parte da culpa. Foi um conjunto de cagadas provocados pelo diretor, produtores, roteiristas e editores. Vamos a algumas delas…
Começando pela visão macro da coisa, o filme parece uma colagem de três filmes independentes. Um é o filme do Batman vs Superman, outro é o filme da Mulher Maravilha e o terceiro é o filme da origem da Liga da Justiça contra o Apocalipse e cada um deles apresenta problemas ao serem espremidos em apenas um.
Começando por Batman vs Superman, que deveria ser o grande plot do filme e acabou assumindo um papel menor frente a luta contra o Apocalipse que abordarei daqui a pouco. O filme falha, desde o começo, em estabelecer os motivos pelos quais Batman odeia o Superman e porque o Superman odeia o Batman.
O lado do Batman seria compreensível se ele fosse um amador, mas não um cara com recursos infinitos, inteligente, forte e com 20 anos de estrada combatendo as mais diversas ameaças. Ele age como um cãozinho assustado frente a mísera possibilidade de um dia o Superman se virar contra a raça humana e parte pro ataque para eliminar o “mal em potencial” de uma só vez, sem dar chance alguma para ele.
O lado do Superman é ainda pior. Ele vê o Batman, um cara que (novamente) dedicou 20 anos de sua vida para combater o crime de Gotham como uma ameaça pois ele é um justiceiro que se coloca acima da lei. Essa motivação seria minimamente compreensível se o Batman fosse algo que tivesse aparecido agora, não um cara que já tava na ativa quando o Superman ainda tava preocupado com espinhas no rosto! Pra piorar, a discussão inicial do filme e que bizarramente é esquecida no decorrer do mesmo é a pergunta de “se a humanidade precisa de um Superman” justamente por ele ser um ser poderoso que não responde a ninguém e… wait for it… está acima da lei! Santa hipocrisia, Bat… quer dizer… Superman!
Porém, se já tava ruim os dois caras que vão brigar não terem uma motivação decente para o mesmo, fica ainda pior quando descobrimos que Lex Luthor está por trás de tudo isso. Seja provocando um massacre no Oriente Médio para que a imprensa coloque a culpa no Superman — algo que eu ainda estou tentando entender por que eles fariam já que no local estava uma repórter mega famosa e conceituada chamada Lois Lane que parece não convencer a ninguém que sua versão dos fatos e a prova de que rolou um tiroteio ali são mais relevantes do que boatos de boca a boca — para manipular o Batman fazendo crescer sua fixação infantil nessa “ameaça” ou ao colocar o Superman no risível conflito de “ou você vai lá e mata o Batman pra mostrar que você é realmente um monstro pro mundo ou eu vou matar a sua mãe”. Parece até que o Superman não tem visão de raio x, visão de calor, mega velocidade, super força e super audição para conseguir localizar facilmente a sua mãe (curiosamente encontrada em questão de segundos pelo Alfred posteriormente). Mas né…
Se essa brincadeira não estivesse triste demais por si só, pra piorar ainda temos as motivações do Lex Luthor para odiar o Superman envolverem ele apanhar do lado somado com uma pitadinha dele ser um doido varrido psicótico e… só. Faz sentido? Pra mim não, mas beleza. Menos sentido ainda fazem os planos dele para chegar ao fim, mas não esperava nada menos dessa versão Gênio Maluco do Mal do personagem.
Quando finalmente chegamos na parte da luta, ela também decepciona. Desde o começo, onde nenhum dos personagens (especialmente o Superman) pensou em ter um diálogo, preferindo ambos partir pra ignorância de uma vez; passando pela luta em si que, ao invés de ser épica e memorável, acabou como um massacre unilateral regado a kriptonita onde o Batman só fez descer o cacete no Superman sem piedade; e que termina porque o Batman descobre que o nome da mãe do Superman também é Martha… … … … … é…
Pior que isso só a mudança de piores inimigos para melhores amigos depois dessa revelação bombástica! Que roteiro, amigos, que roteiro!


Já do “filme” da Mulher Maravilha pouco vemos e isso é um problema por si só. Ela está lá cuidando dos negócios dela, em uma missão que nada envolve o Batman e o Superman, ela só, coincidentemente, acaba esbarrando com eles em alguns momentos do filme e, só se junta — de maneira épica e fuderosa, como mencionei lá no início — aos dois no terceiro ato porque não tinha muita opção. Sua participação e presença são dignas de elogios, mas fica mais parecendo uma participação especial do que um elemento relevante ao filme.
Por sinal, já emendando no terceiro ato do filme, a luta contra o Apocalipse, não tenho muito o que reclamar dela em si… tirando a aparência Troll do monstrengo, como mencionei no início do texto. Só fico triste por causa do seu imediatismo. Ela está ali só para fazer os heróis se juntarem em uma luta épica no final do filme. Um motivo justo até, mas que se tivesse sido aproveitado num filme solo, acredito que teria ficado melhor e não tão “as pressas” como pareceu ao mostrar que o monstro se originou de um curso intensivo de geração de kriptonianos que o Luthor teve na nave alienígena falecido Zod.
Para fechar o arco de incompetência do roteiro em estabelecer plots coesos, temos a maneira como Lois Lane é tratada. Sua relevância para a trama é posta como nula. Ela passa metade do filme tentando desvendar a verdade sobre o massacre no deserto, que o resto do filme parece ter deixado pra lá logo depois que aconteceu, sendo que no final, quando ela consegue provar que o Superman não teve, de fato, culpa e que o Luthor está por trás de tudo, ela não faz nada com aquela informação. O Batman descobriu sozinho com suas investigações particulares e o Superman só descobriu que o Luthor era mal quando ele sequestrou a Lois e a jogou de um prédio. Para piorar (e desculpem se eu continuo repetindo isso durante esse texto), não há razão para ela ter ido atrás da lança que ela mesmo jogou num poço de água. Ela não sabia que aquela lança seria efetiva contra o Apocalipse. O que ela de fato sabia é que não serviu pra nada então o roteiro parece que tentou compensar dando alguma relevância artificial e forçada pra ela.
E no final das contas…


Esse filme poderia ter sido bem melhor do que acabou sendo. Dá pra ver que muito da culpa foi da ganância dos responsáveis para compensar o tempo perdido tentando ficar “pau a pau” com sua concorrente direta, a Marvel, e seu universo cinematográfico. Porém, a Warner quis fazer em um filme o que a Marvel demorou cinco pra fazer. Esse filme mesmo, se dividido em três, provavelmente teria resultado em três filmes bem bacanas e conectados. Mas não, tinha que juntar tudo. Tinha que fazer tudo correndo e sem cuidado. O roteiro quebrou, a direção quebrou e a montagem quebrou no processo, mas o importante é botar o filme logo no cinema.
Triste ver Zack Snyder, que em diversos momentos se mostra extremamente competente para construir composições lindas, ângulos de câmera inusitados e interessantes e conduções ousadas e até mesmo poéticas para os acontecimentos, exaurindo suas próprias qualidades ao forçar epicidade em momentos que não precisavam. Quando tudo em um filme é feito para parecer épico e dramático, nada acaba sendo verdadeiramente épico e dramático. Desde ler a manchete de um jornal (ou de alguns jornais) até o primeiro soco do Superman no Batman tudo parece ser lidado com o mesmo tom.
Provavelmente teremos um filme da Liga da Justiça e eu espero, realmente, que muitos dos erros desse filme (e do filme antes dele também) sejam corrigidos. Fico com um gosto amargo ao saber que Zack Snyder provavelmente continuará a frente do projeto. Algumas pessoas deveriam saber a hora de parar, mas acho que Zack não é um desses. Ficarei muito feliz se não ver seu nome associado ao projeto. Se isso acontecer, já será um motivador de mudanças nem toda a produção. Algo que, como pude constatar, tem tudo para ser bem benéfico.
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