A atitude humanista

(ou uma possível contribuição do novo humanismo para este momento histórico)

Diante deste momento de crise e percebendo como os debates se tornam estéreis em situações de polarização social, ando com a sensação de que os discursos que tenho ouvido por aí estão empenhados mais em apagar incêndios e resolver situações pontuais, do que nos ajudarem a seguir em frente.

Já há algum tempo que estou na busca por um outro caminho. E outro dia, ao estudar um pequeno livro do Edward Said chamado “Humanismo e Crítica Democrática”, vi um debate que me levou a olhar com mais atenção para um outro humanismo, o Novo Humanismo de Silo. Said não fala do mesmo humanismo do qual eu era militante, mas sim das aulas de humanismo lá dos EUA, algo mais ou menos parecido com nossas aulas de literatura aqui no Brasil, porém a situação que ele se debruça nestes seus escritos da virada do século XX é muito parecida com a questão na qual Silo, Puleda e outros haviam se debruçado há algumas décadas atrás.

Nos EUA quando uma pessoa entra na universidade realiza uma formação em humanismo de um ou dois anos na qual vai tomar contato com um cânone literário, ou seja, com os textos considerados essenciais para a formação de um homem erudito. Fazia muito sentido para alguém do século XIX que a bíblia, Shakeaspere, Platão e Virgílio eram um cânone bom o bastante para qualquer homem do planeta, porém, na virada do século XX este cânone se tornou algo extremamente defasado, pois boa parte dos alunos que Said se deparara em suas aulas não eram ocidentais (e ele próprio, cabe lembrar, era palestino). Desta maneira, ao longo do século XX o humanismo de que trata Said foi se transformando em um palco de disputas entre aqueles que querem mantar o cânone intocado e aqueles que querem atualizá-lo. Em paralelo a isso outras correntes foram se agrupando em torno de outros tópicos, tais como os estudos de identidade, gênero, etc. pondo em cheque até mesmo a noção da possibilidade de existir um único cânone bom o suficiente para todas as culturas humanas. Said neste livro sugere que o humanismo abra mão de de ditar quem merece estar no cânone e ao invés disso sugere que este humanismo se reinvente e descubra qual contribuição pode dar em um mundo multicultural. Desta maneira ele propõe que ferramentas como a filologia e a literatura comparada desenvolvam instrumental para fazer uma interface entre as várias culturas, traduzindo conceitos de uma para outra, etc.

Ora, embora o humanismo de que fala Silo não seja apenas a literatura, sua proposta é muito próxima à de Said. Tivemos no ocidente lá no fim do medievo um humanismo que buscava estabelecer um ideal de homem a ser seguido e tivemos nos séculos seguintes uma série de pensadores que se debruçaram sobre as atitudes que deveria ter este homem. Porém, no século XX, surgiu um anti-humanismo filosófico questionando que humanismo era aquele que desprezava a diversidade, que insistia em plena autonomia do homem, mesmo com a psicologia e a sociologia demonstrando que o homem não era mestre nem de sua própria subjetividade. Entre os humanistas surgiram longos debates, vários pensadores diferentes tentando estabelecer qual ideal de ser humano seria mais verdadeiro, etc. E é nesse ponto que surge a proposta de Silo. Ao falar em novo humanismo ele deixa de lado todo o debate filosófico, seu intesse não é provar que o ideal de homem A ou B são válidos, ou ainda que não é possível falar em ideal de homem, como sugerem os anti-humanistas. O que Silo faz é encontrar uma atitude que aparece em diferentes culturas e que marca um posicionamento de abertura diante do outro, a isso ele chama de “atitude humanista”. E por isso usa o termo “novo humanismo”. Frente a um mundo com culturas tão diversas, ao invés de seguirmos em uma discussão estéril de criar um ideal de homem universal, ele encontra uma ligação entre culturas tão diferentes, sem ter pretensão alguma que elas sejam negadas em sua própria essência.

Bom, isso me leva diretamente ao cerne daquilo que quero tratar aqui. Estamos em um período de aparente polarização. A direita tenta vender a agenda do estado mínimo e do livre mercado como a única solução capaz de salvar o mundo. A esquerda por sua vez, embora esteja sem imagem a futuro, possui uma atitude reativa para tentar preservar os direitos sociais conquistados(mais no papel que na realidade) nas lutas dos anos 1980. Porém, digo aparente, pois as duas visões de mundo são faces de uma mesma moeda. Ambas disputam pela hegemonia de qual agenda deve ser universalizada para toda a sociedade.

Esta disputa é tributária de uma visão de mundo modernista, na qual se acreditava que a soma da técnica com a intencionalidade humana seria capaz de varrer os velhos problenas(todos frutos da ignorância) e criar um mundo novo. O modernismo venceu a guerra, porém o novo mundo que fundaram seguiu cheio de problemas e hoje há cúpulas brigando pela hegemonia de realizarem uma agenda que faz cada vez menos sentido.

E é nesse ponto que digo que o novo humanismo pode contribuir para este momento. Já há uma intensa movimentação fora deste olhar modernista. Uma série de grupos contra-hegemônicos pululam o tempo inteiro. Coletivos que possuem uma visão refinada sobre questões muito localizadas (ou visão de camponês como dizíamos no MH), agrupamentos em torno de identidades cada vez mais especializadas (p. ex.: feminismo negro, transgêneros não-binários, etc.) e uma série de outros movimentos que vão ganhando forma e discutindo entre os seus outras maneiras de estar no mundo que foram deixadas de fora pelas grandes panacéias modernistas.

Este espírito modernista não é algo que está solto pelo mundo, ele vive em nós. De vez em quando eu me pego falando em tecer uma nova “imagem a futuro” universal capaz de mobilizar toda a sociedade em uma só direção! Porém, eu estou registrando uma necessidade muito grande de desapegar desta ideia de querer deixar o mundo “à minha imagem e semelhança” e aprender a genuinamente valorizar esta diversidade de ideias, crenças e identidades que já estão aí.

E penso eu que a Atitude Humanista talvez seja uma condição pré-dialogal que permitirá um diálogo genuíno entre aqueles que sonham com um mundo melhor. Antes que pareça que eu esteja transportando as ideias do “livre mercado” para o mundo político e social, vou aclarar que a atitude humanista é acima de tudo uma ética que nos leva a olhar para o “outro” e respeitá-lo em sua essência, mesmo quando divergimos de suas ideias.

Portanto mais do que uma estratégia social, ou uma técnica revolucionária, estou falando aqui em difundir este olhar de que o princípio de toda ação deve ser uma cálida abertura para o outro. A não-violência conjugada à uma atitude humanista é isso. Eu vou enfrentar o conflito, mas sem perder de vista o outro.

Enfim, no novo humanismo fala-se de uma sincronia entre a transformação pessoal e social. E eu tenho refletido muito sobre isso, pois tenho reconhecido em minhas próprias ações uma atitude de fechamento para o outro. E notar esta incoerência tem me feito refletir bastante sobre aquilo que quero e não quero para o futuro, tanto em minha vida pessoal quanto em minhas ações sociais.