O sotaque e a desnaturalização

Quando eu era criança achava muito engraçado quando ouvia o sotaque de alguém de fora da minha cidade, mas ficava indignado quando alguém insinuava que eu também tinha sotaque.

Depois que cresci e fui “estrangeiro” em outras regiões nas quais as crianças também riam do meu sotaque, tive a oportunidade de perceber que a dificuldade de notar o próprio sotaque estava em passar a maior parte do tempo cercado por pessoas que falavam igual a mim.

Enquanto eu vivia na “bolha” minha cabeça maquinava a ideia de que aquele jeito de falar era o “natural” e o forasteiro era engraçado justamente por ser diferente. Se eu me indignava quando diziam que eu tinha sotaque era porque na minha cabeça isso implicava que eu também falava “errado”.

O sotaque é um aspecto cultural muito bom para nos ajudar a refletir sobre outras coisas que estão embrenhadas em nossa cultura.

Nossa cultura nos fornece um jeito de estar no mundo, porém, como essa assimilação ocorre de forma quase imperceptível, a gente passa a ver aquele jeito de agir como o mais correto, como o único possível, etc.

Em sociologia isso é chamado de “naturalização”, ou seja, perceber determinado traço cultural como algo que ocorre naturalmente.

Desnaturalizar por sua vez é perceber que algo que até então eu julgava parte da natureza de todos os seres humanos é na realidade parte da minha cultura.

Porém, essa desnaturalização não é algo tão simples.

As sociedades mais tradicionais tinham uma distribuição de poder bem mais hierarquizada e por força do hábito foram “naturalizando” diversos privilégios que na realidade eram culturais.

As sociedades modernas passaram por uma série de mudanças e grupos que no passado remoto eram considerados hierarquicamente inferiores e portanto não tinham direito a se expressarem, hoje tem direito a criticarem quando sentem que estão sendo destratados.

Mas, infelizmente, como o hábito cultural que está sendo criticado é visto por muitos como parte da natureza, ao invés da crítica gerar reflexão, ela gera raiva, pois não passa de “mimimi” que está tornando a sociedade mais chata, gerando divisões, etc.

Neste ponto, privilégios são iguais a sotaque, é muito difícil perceber que se é um privilegiado, bem como é difícil perceber que se tem sotaque.

Por isso é mais fácil dizer que o negro que reclama do racismo é culpado de criar o “ódio entre as raças”, do que desnaturalizar seus privilégios e perceber que eles são heranças de uma época em que os brancos se orgulhavam de sua superioridade.

A desnaturalização não produz uma mudança cultural. Quando desnaturalizei o meu sotaque não comecei a falar diferente. Mas ainda sim a desnaturalização ajuda, pois traz mais lucidez sobre as diferenças, impedindo que um traço cultural seja usado como régua pra dizer que a cultura dos outros é certa ou errada.

Da mesma maneira, desnaturalizar o próprio privilégio não vai tornar uma pessoa menos privilegiada, porém, pode ser a diferença entre ela entender a luta do outro como algo pertinente ou como um simples “mimimi”.

Para ser uma pessoa melhor não basta ter um bom coração, é preciso também se livrar daqueles pensamentos que automaticamente dividem as pessoas em “nós, os certinhos” e “eles, os errados” e isso vale para todos que desejam um mundo mais ético, tanto para quem luta contra a injustiça, quanto para quem lucra com ela, ainda que sem se dar conta.