Um espectro ronda o comunismo?

Diego Lopes
Aug 26, 2017 · 4 min read

Crítica ao texto “Pós-modernismo: câncer reformista ser combatido nas fileiras do PCdoB”

Circula nas redes sociais, sobretudo em grupos de esquerda, um texto escrito por Pedro Luiz, doutorando em Geologia Ambiental e militante do PCdoB, intitulado “Pós-modernismo: câncer reformista ser combatido nas fileiras do PCdoB”. Ao longo do texto, o autor tece algumas críticas a respeito dos efeitos da pós-modernidade nos movimentos sociais, e também faz duras críticas aos seus colegas militantes do partido que se manifestam a partir das identidades individuais e ‘esquecem’ da luta de classes.

No entanto, gostaria de usar este espaço para fazer alguns apontamentos sobre o texto no lugar de extensos comentários no Facebook.

Vamos começar pelo começo. O título do texto indica um alerta. Por que? O autor dá as próprias cartas: não quer que o PCdoB se reinvente, mas que se preserve a “essência comunista” e se mantenha certa “unidade ideológica”. Ademais, câncer indica algo estranho, nocivo ao corpo humano, que deve ser eliminado para que as funções biológicas mantenham a vida. Pensamentos pós-modernos indicam algo estranho, nocivo ao marxismo-leninismo, que deve ser combatido para que a unidade partidária faça a revolução.

A identidade do sujeito pós-moderno é definida historicamente e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu coerente”. A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. (HALL, p.13)

Então, partindo deste ponto de vista, que militante hoje quer se submeter a uma estrutura hierárquica de poder que visa estabelecer ‘unidade’ como forma de combater a burguesia? Digamos que esta política seja implementada, o combate ao “câncer pós-moderno” poderia justificar a expulsão de membros?

No primeiro parágrafo do texto, o autor dispara:

“Infelizmente, o PCdoB não foge à regra, tendo hoje muitos militantes que se identificam muito mais com esta vertente de cunho pequeno burguês do que com o marxismo-leninismo.”

A questão é que a busca pelas grandes revoluções não faz mais sentido no mundo contemporâneo, em virtude do deslocamento do sujeito e a fragmentação de sentidos.

Neste trecho, concordo em partes:

“Achar que o racismo, a homofobia e o machismo (entre outros) serão superados simplesmente pela boa vontade do capital financeiro através de bundaços, saraus, twitaços e coisas do tipo, é um equívoco grave”

De fato, algumas ações parecem não levar a lugar algum. Ainda falta certa politização e preparo quando o assunto é racismo, homofobia e machismo. Porém, como disse anteriormente, Pedro Luiz quer o retorno a “essência” do comunismo, aquele que se preocupa com a luta operária contra a burguesia. Me parece problemático pensar no retorno as raízes, uma vez que as condições sócio-econômicas mudaram muito desde a formulação do projeto comunista há quase dois séculos atrás.

O movimento em voga agora são as resistências às opressões que se manifestam em diferentes relações de poder, são mais próximas do sujeito e imediatas.

São lutas “imediatas” por duas razões. Em tais lutas, criticam-se as instâncias de poder que lhes são mais próximas, aquelas que exercem sua ação sobre os indivíduos. Elas não objetivam o “inimigo mor”, mas o inimigo imediato. Nem esperam encontrar uma solução para os seus problemas no futuro (isto é, liberações, revoluções, fim da luta de classes). Em relação a uma escala teórica de explicação ou uma ordem revolucionária que polariza o historiador, são lutas anárquicas. (FOUCAULT, O Sujeito e o Poder, não datado p.234)

Em um ponto do texto de Pedro, devo concordar com o autor: a negação da política é um perigo. Entretanto, fica ambíguo a via defendida pelo autor: se a saída é política, como derrubar a burguesia? Pela democracia, nos espaços de representatividade no legislativo e executivo? Ou pela tomada do poder do Estado pela via revolucionária como aconteceu em outubro de 1917 na Rússia? Questões em aberto.

Fundadores do PCdoB em 1922: o perfil da “essência”?

Em relação a negação do Partido por movimentos fracionados, a impressão que temos é que o autor não visualiza o contexto que essas lutas são travadas e suas nuances. Tomemos como exemplo os movimentos feministas. Lutam contra as diversas formas opressão na sociedade patriarcal e machista, porque são homens que historicamente e socialmente determinam o papel da mulher. Elas combatem as técnicas de poder, não somente uma instituição. Em outras palavras, não é imperativo ter o Partido “como direção única das ações”, pois são lutas descentralizadas e transversais (microfísica do poder). Portanto, com o perdão da redundância, o Partido é uma “parte” desta história, não mais ocupa a centralidade das lutas. O discurso de combate ao “pós-modernismo” nas fileiras comunistas parece indicar, na realidade, a negação em dividir o protagonismo pelas mudanças na sociedade, a crise de identidade comunista tradicional (homem, operário, revolucionário) e a impossibilidade de conviver com o diferente.

Lançamento do Coletivo LGBT do PCdoB em 2011: o perfil contemporâneo.

Por fim, caso a movimentação contra o “câncer ideológico” tenha mais destaque nos documentos e instâncias do PCdoB, como sugerido pelo autor, arrisco em prever que esta caça as bruxas vai afastar muita gente e anunciar a decadência do partido. Faço um apelo aos amigos que fazem parte do partido: não deixem isso acontecer, se manifestem e reivindiquem uma nova forma de condução política.

)
Diego Lopes

Written by

Estudante de Relações Internacionais, na reta final.

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