Ódio que nos cega

Terça-feira. 15 de Novembro de 2016. Goiânia. O filho, Guilherme, fazia parte de movimentos sociais, envolvido nas ocupações das escolas contra a PEC 241, entre outros protestos, e tinha intenção de ir à uma reintegração de posse em uma escola. Porém, Alexandre, o pai, não concordava com o modo de pensar do garoto e o proibiu de ir. O estudante não aceitou a proibição e resolveu ir assim mesmo. Contrariado, Alexandre foi atrás do garoto, assassinou-o e depois suicidou-se. Parece história de filme, mas é realidade.

Engana-se quem pensa que este foi apenas um caso isolado. Olhando para o momento em que vivemos, é uma tendência que o país está seguindo após a situação acalorada que se formou com o impeachment de Dilma Rousseff. Dessa vez, a agressão virou assassinato, a opressão não foi contra um coxinha/petralha, foi contra um filho. Em meio a tantas discussões sobre o caso, ouvi pessoas dizerem que uma pessoa que faz algo assim com seu filho deve ter problema. Até pode ter, mas de onde será que ele veio? É preciso analisar o contexto, a intolerância está em nível extremo e a paciência já quase não existe. Talvez o ponto a ser discutido seja a raiva que todo cidadão sente hoje em dia.

O pai, cego de ódio, passou por cima do laço de parentesco que tinha com aquele manifestante, aquele “vagabundo” que não queria estudar e só pensava em ocupar escola. Alexandre esqueceu do garotinho que viu crescer, dos planos que todo pai tem ao ter um filho e deve ter caído em si somente minutos depois de ver Guilherme baleado no chão, quando se viu sem outra alternativa para a mente abalada e para o sentimento de culpa que não fosse um suicídio. Vendo esse caso, me lembrei do filme “Relatos Selvagens” e me permito colocar aqui a sinopse do mesmo: “Diante de uma realidade crua e imprevisível, os personagens deste filme caminham sobre a linha tênue que separa a civilização da barbárie.” Cidadãos comuns, após serem levados à um grande nível de estresse mesclado com sensações de injustiças, realizam atos bárbaros uns contra os outros.

Ocupação de escolas ao redor do Brasil em sinal de protesto

É importante dizer o quanto a oposição é benéfica para uma democracia, pois qualquer partido, pessoa ou instituição que permaneça muito tempo no poder, sem ser questionada, fiscalizada, acaba por, no mínimo, relaxando; portanto, oposição não tem que ser vista como um inimigo a ser aniquilado. O inimigo não é quem está pensando diferente de mim, é aquele que está nos dividindo e espalhando o ódio entre nós. Talvez, se Alexandre tivesse optado pelo diálogo à proibição, o desfecho fosse outro e Guilherme ainda estaria vivo.