Chega na repartição às 08 horas e 17 minutos de uma terça-feira ensolarada. Atrasou-se por que a esposa dormiu demais. Teve que fazer seu próprio café da manhã. Ligou a cafeteira, preparou seu sanduíche: duas fatias de pão integral e ricota temperada. Segue a dieta prescrita pela nutricionista. Ao menos na primeira refeição; Cortou o mamão, retirou suas sementes e optou por não colocar ‘linhaça’ (esse item de fundamental importância na dieta da classe média brasileira), já está cagando demais. 
Toma banho. Põe sua camisa branca, calça social preta, sapatos pretos. Olha pra baixo e vê o desgaste dos calçados: a fivela já está solta há um tempo (sua esposa já falou inúmeras vezes que precisava de um par de sapatos novos; a maior parte do tempo ignora a esposa); Tem um carro na garagem, mas não o usa devido ao medo do trânsito. Ou dos ‘tomadores de conta’ do centro. Ou de ousar. Medo. Mesmo assim paga o seguro do veículo sem ter atrasado a fatura uma única vez. 
Entra na repartição, onde é conhecido por todos, querido por poucos. Ninguém o conhece de verdade. Passa as próximas oito horas conversando sobre nada. Costuma pensar que ao sentar naquela cadeira liga o modo automático.
Vai levando a vida no automático. Tem 66 anos, 4 décadas dedicadas a essa repartição. Poderia ter sido grande, inventivo, ousado, optou por ser um burocrata.

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