Deuses Americanos — Se você rezar, eles virão

O quê? Não acredita em Deus?

Então analise as jogadas que você pode fazer e os respectivos resultados: se você não acreditar, e Ele de fato não existir, você não ganhará nada — exceto a satisfação de tripudiar sobre os carolas. Mas se Ele existir, você estará condenado ao fogo do inferno por toda eternidade. Por outro lado, se você acreditar, e Ele não existir, você não perderá nada — exceto a satisfação de poder levar uma vida de embriaguez, sexo sem fins de procriação e outros tantos pecados. Mas se Ele de fato existir, você será agraciado com uma passagem para o paraíso, onde viverá em Sua glória por toda eternidade. Ou seja, você pode optar por uma chance de ir à falência ou de quebrar a banca. E aí, onde quer colocar suas fichas? A resposta é óbvia, certo?

Errado.

Esse argumento é famoso e tem nome — chama-se Aposta de Pascal, em homenagem ao matemático francês Blaise Pascal, que primeiro o formulou (sem a ironia empregada acima, obviamente), no século 17. No contexto da época, em que a religião permeava todos os aspectos da vida europeia, fazia sentido que um homem da ciência tentasse se valer dela (no caso, a teoria das probabilidades) para advogar em prol da fé.

Blaise Pascal

O único problema é que a aposta é uma grande trapaça.

Pascal esconde uma carta importante — a possibilidade de que quaisquer outras divindades existam. Quando se leva esse fato em consideração, a coisa muda de figura: o jogador que escolher acreditar no Deus cristão estará se arriscando a perder muito mais do que apenas os prazeres mundanos.

Fui criado em um lar católico e sempre me incomodei com o caráter exclusivista da Igreja, partilhado por outras religiões. Se o objetivo é realmente amar o próximo e se tornar uma pessoa melhor, que diferença faz se você crê em Jeová, Alá, Brahma, Zeus ou Monstro de Espaguete Voador? Se há mesmo um criador, ele é tão mesquinho e egocêntrico a ponto de exigir crédito, reconhecimento? Será que toda aquela conversa de “espalhar a palavra” não passa de artifício imperialista de papas e reis?

Neil Gaiman

A ficção, sempre ela, oferece respostas bem mais interessantes.

Os deuses se alimentam de nossas preces, rituais e sacrifícios, e deles tiram seu poder. Essa é a premissa de Deuses Americanos, do inglês Neil Gaiman. Publicado originalmente em 2001 (a primeira edição brasileira saiu no ano seguinte), o romance acompanha o presidiário Shadow, que, às vésperas de ganhar liberdade condicional, recebe uma notícia que lhe tira o chão e acaba colocando-o em uma viagem pelos Estados Unidos ao lado de um velho misterioso chamado Wednesday. Pelo caminho, ele encontra homens e mulheres que revelam ser divindades nórdicas, eslavas, africanas, egípcias e hindus, entre outras, além de criaturas mitológicas, como leprechauns e kobolds.

Bem, não exatamente.

Tais entidades são apresentadas como produto direto de nossa fé. Por exemplo, quando Essie Tregowan, uma imigrante da Cornualha, chega à América do Norte no século 18, trazendo consigo a prática de deixar oferendas para os piskies, esses seres mágicos do folclore inglês passam a existir também no Novo Mundo — ou melhor, são encarnações deles, independentes das contrapartes originais que ficaram no Velho Continente.

E da mesma forma que a crença materializa e nutre, a falta dela pode enfraquecer e até matar os velhos deuses, que hoje enfrentam o declínio da fé nas antigas tradições, ao mesmo tempo em que testemunham a ascensão de novas divindades criadas por nossa obsessão com a tevê, a internet e o mercado — algo que pode ser lido como referência ao embate entre cultura e massificação.

Neil Gaiman — Deuses Americanos
Interpretações à parte, as grandes virtudes de Gaiman são o esmero com que constrói cada uma das personificações divinas e a engenhosidade do enredo. Além da história principal, que retrata a jornada de Shadow e sua participação na “guerra santa” que está por vir, há subtramas igualmente envolventes, como o relacionamento entre o protagonista e sua esposa, Laura, e o segredo de Lakeside.

Alguns capítulos também são encerrados com narrativas a respeito de deuses, que não necessariamente se conectam diretamente à trama. Elas funcionam mais como pequenos contos inseridos ao longo do livro — o episódio do comerciante árabe em Nova York é o que mais se destaca.

Essas, aliás, são algumas das características que tornam bastante promissora a série de TV do canal Starz, com estreia prometida para 2017. Claro, o principal atrativo é a oportunidade de ver o romance levado à telinha, e a escolha do elenco traz grandes acertos — Ian McShane como Wednesday, Crispin Glover como o senhor World e Peter Stormare como Czernobog são alguns. Mas o formato permite ir além do que é descrito nas páginas, explorando personagens secundários como a prostituta Bilquis e os novos deuses — por que desperdiçar Gillian Anderson, escalada para viver a encarnação da tevê, Media, em uns poucos episódios?

Ian McShane no set de Deuses Americanos

O próprio Gaiman já havia percebido o potencial de expansão do universo — incluído na compilação Coisas Frágeis (2008), o conto O Monarca do Vale mostra Shadow em outra aventura, dessa vez na Escócia; já o romance Os Filhos de Anansi (2005) é uma espécie de spin-off, estrelado pelos rebentos de um dos velhos deuses, o senhor Nancy. Isso sem falar na há muito prometida continuação de Deuses Americanos.

Só nos resta rezar para que a população divina cresça em breve.

O quê? Não acredita nos deuses?


Escrito por Daniel John Furuno
Publicado em Jovem Nerd