A moça da vida
Ou a moça e a vida

Aquela moça era exatamente o que as pessoas costumam chamar de uma moça da vida. Ela era inteira da vida e a vida era todinha só dela. Uma moça cheia de vida. A moça e a vida. A vida da moça.
A moça vivia a vida com o fervor de quem só tinha aquela vida. E ela só tinha aquela vida, a vida dela. Era a vida da moça e a moça que era da vida. Muita vida para ser vivida. Aquela moça, sim, entendia da vida.
E quando veio o mundo e tentou lhe tirar a vida — e foram algumas as tentativas — a moça mostrou a que veio na vida. Ela veio viver. Cada segundo da vida. A moça e a vida.
Não fora fácil a vida da moça. Mas ela jamais perdeu o amor pela vida. E quando vinha o mundo de novo pregar uma peça, a moça tomava-lhe a posse da vida. Era a vida da moça.
Então o destino dengoso, querendo trazer um agrado para a vida da moça, brindou o seu ventre com mais uma vida. A moça da vida tinha agora duas vidas: a sua vida e a vida do ventre. Eram agora, a moça, Mateus e a vida.
