Amor crônico
Ou o amor não é pra crônica

Amor não é pra crônica, amor é pra poesia. Amor é bicho inventado e quem inventa é poeta. Cronista não. A crônica fala da mulher que não morreu de amor. Mas pensava que ia. A poesia vai lá e mata a donzela de amor. Pobrezinha.
Morreu de amor como quem morre em brasas: sofrendo lentamente, diria o poeta, porque, afinal, o amor é fogo que arde sem se ver. O cronista contava: foi à janela para se atirar e se apaixonou perdidamente pelo pôr do sol. Casou-se com o pôr do sol, ainda que contrariando o raiar da lua.
O amor na crônica é corriqueiro, é pano de fundo, vale mesmo o que os amantes fazem dele. Gato, sapato, bicha, sapata. Taí o amor na crônica. Se o poeta inventou o amor, o cronista inventou o terror. E pensando bem, às vezes eles são a mesma coisa. Numa e noutra.
Esta não é uma crônica de desamor, ao contrário, é uma ode ao amor no coração dos amantes e não nas palavras sofrejantes. Esta é uma crônica a Quintana, que em seu Bilhete dizia, se tu me amas, ama-me baixinho, não o grites de cima dos telhados, deixa em paz os passarinhos.
O amor na crônica é assim, ele passeia na Rocinha, rebola no Leblon, trai no Meyer e é aplaudido no Arpoador. O amor da crônica é leve, ao menos, o deve ser. O amor crônico, por vezes tem nome e sobrenome e por outras, se disfarça na boca de puta. Ama, corre, chora, luta. É o amor do dia-a-dia, aquele da nossa vida, da vida dele, da vida dela, não das telenovelas.
Ah, o amor. Quem ama sabe que amor de crônica é o melhor amor que há, porque ele dura só até o momento em que a crônica terminar. O amor poeta não morre nunca, ainda que mate a mocinha.
Assim, já dizia o camarada Quintana, se me queres, enfim, tem que ser bem devagarinho, amada, que a vida é breve, e o amor mais breve ainda. Num mundo de apaixonados, até que era realista, mas afinal, era Mário poeta ou cronista?
