Felicidade não tem sobrenome

Ou o caminhoneiro perdido na Marginal

Diego Brígido
Aug 9, 2017 · 4 min read

Trânsito típico de final de expediente na Marginal Pinheiros. Olavo não conseguiu sair mais cedo, como havia programado, e podia prever o que o esperava naquela sexta-feira quente de janeiro. O calor não o incomodava, já havia acionado a função Sibéria da sua nova Hyundai e os flocos de neve começavam a se formar no teto do carro. Dia tenso, fechamento de mês, tempos difíceis. E a cobertura recém financiada, a casa de Paraty, o barco de Paraty, a Hyundai, o seguro da Hyundai, a lista de material escolar dos gêmeos. Olavo estava tão envolto naquela nuvem de problemas de recém-rico que nem se deu conta do caminhão de Joca, destoando no emaranhado de carros na Marginal. Quando percebeu estava quase beijando a traseira daquela geringonça de 20 metros, que rebolava desajeitada como que se exibindo para o Rio Pinheiros, que seguia ao lado num ritmo lento de segunda-feira baiana.

- Mas o que esse idiota está fazendo? A essa hora na Marginal? — berrava, enquanto as mãos massacravam a buzina nova e já tão judiada.

Joca estava perdido. Havia comprado o caminhão com o lucro da última safra de milho, para incrementar a parca renda da casa. Sabia que precisava chegar ao Porto de Santos, mas desconhecia os horários permitidos para trafegar em São Paulo.

Quando finalmente Olavo conseguiu emparelhar o carro junto à cabine da geringonça de Joca, não poupou palavrões.

-Tá perdido, arrombado?

-To sim sinhô, moço, pra que lado fica o porto?

-Pro lado do seu cu, debochado.

-Eu preciso chegar em Santos. No Porto de Santos.

-E eu preciso chegar em casa, derrubar uma garrafa de wiskey, enquanto finalizo a merda de um relatório. Mas se todo caminhoneiro burro e arrombado resolver trafegar pela Marginal às seis da tarde, nem eu e nem ninguém consegue chegar em casa antes da porra do Willian Wack dar boa noite.

-O moço tá alterado — Joca tentava acalmar os nervos de Olavo — mas é fácil de entendê, principalmente se enfrenta esse trânsito todo dia. Deve de irritá mesmo. E esse Willian? É seu vizinho?

-Debochado, filho da puta. Devia respeitar quem trabalha o dia inteiro e ainda precisa enfrentar esse trânsito pra chegar em casa.

Joca desligou o ventilador fixado no painel do caminhão, pois o barulho fazia com que precisasse gritar e ele não era de falar alto. Na paz da roça, ninguém precisa berrar.

-Eu também tô trabaiando moço, ou o moço já viu alguém dirigindo caminhão por diversão? Comecei agora com esse negócio, que é pra garanti o pão da criança que minha Eleonora está esperando. Parece que é moleque. E se for, vai poder herdá esse caminhão. Eu nem comecei a pagar, mas até o menino ficar de maior, já tá pago. Preciso levar esse milho pro Porto, moço, mas com esse trânsito vou perder o horário de descarregá.

O discurso leve de Joca não desarmou Olavo, que olhava com olhar de deboche para aquela geringonça fedendo a farelo.

-Com esse calor você vai embarcar pamonha em Santos, isso sim. Esse horário não pode circular caminhão pela marginal e você está fodendo o trânsito e a minha vida, caipira dos infernos.

-Pois é, eu descobri isso de horário quando já tava preso aqui no meio, moço.

-E? — indagou Olavo, como se fosse possível o outro tirar o caminhão do meio do congestionamento.

-E que to achando até graça esse monte de carro colorido parado e todo mundo buzinando como se a buzina fizesse os bicho avuá.

Durante toda a conversa, mal conseguiram avançar dez metros na pista.

-Será que teve algum acidente moço — perguntou Joca, enquanto Olavo buscava uma nova playlist no IPhone, sincronizado com o kit multimídia do carro.

-De onde você vem tem quantos carros, ô caipira?

-Joca… É meu nome. E o do moço? De onde eu venho deve de ter uma meia dúzia de carros, nenhum como o do moço, claro, que eu e os cumpadi só usa na emergência ou pra buscá mantimento na venda do seo Tomé. O resto é trator. E agora tem meu caminhão, que a molecada todinha quer andar, como se fosse de brincadeira.

-Olavo. Meu nome é Olavo de Alcântara Cavalcante. E nem nas minhas piores divagações, com todo o meu currículo, diretor de multinacional, eu imaginei que fosse algum dia perder tempo discutindo com um matuto analfabeto no meio da Marginal. Maldita sexta que não acaba.

-Óia, eu não entendi meia porção do que o moço disse, tirando a parte do matuto. Mas uma coisa eu falo pro moço, lá de onde venho, nesse bucadinho de prosa que deixou ocê irritado, nós já tinha enrolado um cigarro de paia, dado uns trago numa branquinha e tocado três moda de viola. De onde eu venho, nós não tem esse nome comprido, mas pra ser feliz lá basta chamar pelo primeiro nome. Ou de cumpadi. A propósito, o moço qué comprá um caminhão?

-Enfia essa geringonça no rabo — bradou Olavo.

Diego Brígido

Jornalista. Editor de Revista. Inquieto. Aquariano. Inquieto mais uma vez. E aquariano mais uma vez.

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