Não se hospede nesse hotel

(essa crônica contém cenas fortes)

Daqui do lobby do hotel a vida segue seu ritmo. A porta gira e traz outro executivo, gira e leva a moça atrasada, gira de novo e traz a tripulação inteira de algum voo de alguma companhia aérea internacional que segue seu ritmo.

O hotel está em overbooking, o café movimentado e a porta não para de girar. A senhora está irritada com a demora na liberação do apartamento e o casal de alemães incomodado com o excesso de gentilezas do mensageiro. Tudo aqui segue seu ritmo.

Lá fora as coisas estão estranhas, as notícias não são boas. Tem gente do bem sendo morta e gente de bens sendo presa. Gente com os nossos bens sendo presa. E nós, somos presas. Tem muita gente sem trabalho e tem gente sem trabalhar. Tem um bocado de gente com trabalho sem trabalhar.

Aqui no lobby cada sofá fala uma língua e tudo segue seu ritmo. Lá fora, os idiomas distintos guerreiam. Pela paz no mundo. O concierge é gay, usa piercing, terno, gravata e todos o respeitam no hotel. Lá fora, ele pode usar piercing, mas não é recomendável que seja gay. E se for, que seja contido. Uma bicha enrustida.

No bar do hotel, a música é popular brasileira, todos falam baixo e o drink custa cinquenta e dois reais. A noite por aqui segue seu ritmo. Da porta pra fora, o funk já foi a voz de uma gente esquecida que clamava, aos berros, por dignidade e alguma comida. Hoje embala festas regadas a Absolut e alguma droga sintética, dessas que nem chegam na favela.

São mundos diferentes dentro do mesmo planeta. Do mesmo país. Da mesma cidade. Da porta pra dentro. Da porta pra fora. A chuva que assusta o mendigo na rua é linda de ver aqui do lobby. Frio aqui dentro só o meu capuccino. Culpa minha que me distraí com o sujeito que acabou de saltar da cobertura do hotel e se estatelou no chão da avenida chique de São Paulo. Por aqui, nem tudo é o que parece, mas a vida segue seu ritmo.

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