Palavras de poeta
Baseado no poema ‘Palavras’ de Manoel de Barros

Poeta têm dessas. Não bastasse o olhar romanceado sobre as tragédias mundalinas, ainda se embobam de inventar palavras. E o leitor, vitimado na obra, fica a tentar entender que diacho aquele emaranhado de inventilidades significa.
Poeta tem dessas. Não bastasse criar significados como quem cria dois de ré e um de sol, vem lá de inventar, sem dó, lugares que nunca existiram, tal qual Cabrobró.
E aí, põe a culpa nas palavras. Como se uma palavra tivesse o poder de conduzir uma obra a contragosto de seu autor. Tem dó! Eis o cenário: um pobre diabo sentado no banco ao lado do velho coreto apreciando o cricrilar do grilo.
Vem o poeta a farfalhar, chamando o banco de assentalho e afirmando uma flauta o grilo tocar. E coloca no pobre inseto a culpa por feridar o silêncio da noite, vez que na verdade é o falastrão que se pôs a declamar.
Poeta tem dessas, ainda afirma que a vizinhança é contra o grilo flautista. Põe, então, na boca do bicho, uma flauta mudista.
Vem o falastrão e põe a culpa na palavra, que chega sorrateira e muda todo. Como se a palavra, por si só, tivesse esse poder. Uma palavra inventada, um poeta inspirado, uma linguagem truncada. Tem dó!
Palavras, de Manoel de Barros
Veio me dizer que eu desestruturo a linguagem. Eu desestruturo a linguagem? Vejamos: eu estou bem sentado num lugar. Vem uma palavra e tira o lugar debaixo de mim. Tira o lugar em que eu estava sentado. Eu não fazia nada para que uma palavra me desalojasse daquele lugar. E eu nem atrapalhava a passagem de ninguém. Ao retirar debaixo de mim o lugar, eu desaprumei. Ali só havia um grilo com sua flauta de couro. O grilo feridava o silencio. Os moradores do lugar se queixam do grilo. Veio uma palavra e retirou o grilo da flauta. Agora eu pergunto: quem desestruturou a linguagem? Fui eu ou foram as palavras? E o lugar que retiraram debaixo de mim? Não era para terem retirado a mim do lugar? Foram as palavras pois que desestruturaram a linguagem. E não eu.
