Releitura

Quando o pé sujo veste uma meia nova

Diego Brígido
Aug 9, 2017 · 3 min read

Ângelo já era o terceiro cozinheiro daquela biboca em menos de seis meses. Mas ele era diferente dos anteriores, cursava gastronomia e gostava de ser chamado de Chef.

- Onde já se viu, nunca derramou uma gota de suor em cima de um ovo frito e se acha melhor que nóis só porque usa essa touca toda mal-ajambrada — resmungava Zito, enquanto raspava o resto de gordura do dia anterior grudado na chapa.

- Deixa o menino, velho reclamão. Ainda está iludido com o começo da profissão.

- Profissão? Desde quando esquentar o umbigo no fogão e esfriar na pia é profissão? Logo ele aprende que o vocabulário de boteco não é essas palavra do estrangeiro que ele usa. O idioma aqui é bucho, farinha e bife de fígado.

- Cozinheiro novo nessa espelunca? — interrompeu Wilson, que escutava a conversa entre Zito e Nena, sentado no balcão da lanchonete.

- É chef! — ironizou Zito

- Estudante de culinária — complementou Nena

- Gastronomia! O menino vai na universidade pra aprendê a cozinháe quer ensinar dois macacos véios, que nasceram na cozinha.

- E o que houve com o anterior? — perguntou o cliente.

- Desistiu, como os outros. Conta pro doutô, Nena.

- Quem consegue cozinhar nessa imundice, doutor?

Até Nena, que era a tolerância personificada não tinha mais estômago e paciência para aquela nojeira toda.

- Suponho que sêo Januário não vá ficar muito satisfeito quando souber do tipo de conversa que os funcionários dele têm em frente aos clientes — provocou Wilson em tom sarcástico, enquanto passava um guardanapo no balcão onde comeria.

- E desde quando a falta de higiene desse pé sujo é novidade pra alguém — se irritou Zito, que além de comandar a chapa, tinha que lavar a louça, servir cliente, varrer o chão e limpar todo o resto.

- Olha a cor do fundo do seu copo doutor — disse Nena, que, logo em seguida apontou para a porta sinalizando que sêo Januário chegava com o protegido Ângelo.

- Bom dia, sêo Wilson.

- Bom dia, sêo Januário. Soube que está de cozinheiro novo.

- É chef! — gritou Zito, enquanto passava na chapa o habitual pão com requeijão do cliente.

- Sim, esse é o chef Ângelo. Ele é gastrono, de faculdade.

- É gastrônomo, sêo Januário, mas ainda não me formei.

- E pra que o senhor contratou um chef se essa espelunca vive vazia?

- Ora, o menino vai trazer mais clientes. Clientes refinados. Ele sabe fazer umas coisas diferentes, com uns nomes bacanas — defendeu Nena.

- Esquisitas. Umas coisas esquisitas, com uns nomes esquisitos — voltou a interromper Zito, ao jogar com as mãos ainda molhadas da louça, o pão quente no prato de Wilson.

- Já temos uma nova proposta de cardápio, vamos lançar na próxima semana — contou Ângelo em tom cheio de pompa.

- O menino sabe o que faz e vocês dois apenas obedeçam o chef gastrônimo — ordenou Januário.

- Pode me contar, por exemplo, o que serviremos de segunda-feira ao invés do virado à paulista? — provocou Zito.

- Pra segunda teremos consumê de miúdos com ervas finas, no azeite, que acompanha um risoto de feijão branco com linguiça.

- Entendeu ignorante — gargalhou Nena na direção de Zito

- Entendi que ele tirou a buchada de quinta e jogou pra segunda. E deu uns nome esquisito pra coisa.

- É releitura — bradou Januário, todo orgulhoso da nova contratação.

Diego Brígido
Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade