Iron Maiden e a História (parte 2)

Arte representando o guerreiro escocês William Wallace (Imagem: Reprodução/Derek Riggs)

Dando sequência ao texto publicado há algumas semanas, falarei neste post sobre as músicas lançadas pelo Iron Maiden entre 1990 e 1998 e que, de certo modo, narram algum fato histórico.
 
Em 1990, a banda lançou o mediano disco No Prayer For The Dying que traz logo de cara uma música que, assim como Aces High, trata das batalhas áreas durante a 2° Guerra Mundial. “Tailgunner” tem como ponto de partida o bombardeio em Dresden, na Alemanha, pela RAF e USAAF entre os dias 13 e 15 de fevereiro de 1945. Tal ação dos Aliados dividiu a opinião pública pela brutalidade dos ataques, visto que a cidade encontrava-se desprotegida militarmente e havia muitos civis por lá. O chamado Massacre de Dresden é considerado por muitos um crime de guerra. A canção também faz uma citação ao Enola Gay, o bombardeiro B-29 utilizado no lançamento da primeira bomba atômica — Little Boy — em Hiroshima, no Japão, como última tentativa para pôr fim à guerra.

Trace your way back 50 years
To the glow of Dresden — blood and tears

e

The Enola Gay was my last try
Now that this tailgunner’s gone
No more bombers
Just one big bomb

Outra música presente no Prayer, “Run Silent Run Deep” fala sobre mais um fato ligado à 2° Guerra Mundial (não pode ser!). Nesta canção, a banda discorre sobre as batalhas travadas nos mares durante a guerra, tendo como inspiração a Batalha de Midway, no Pacífico, entre 4 e 7 de junho de 1942, seis meses após o inesperado ataque japonês à base americana de Pearl Harbor.

Chill the hearts of fighting men
In open ocean wondering when?
The lethal silver fish will fly
The boat will shiver-men will die

Dois anos após o lançamento do No Prayer, a Donzela pôs no mercado o clássico Fear Of The Dark. Marcado como o último álbum de Bruce Dickinson junto à banda, este play trouxe uma música sobre a Guerra do Golfo. Em entrevista, Bruce disse que a canção tenta entender como funciona a cabeça de soldado na iminência de ir para front, além de todos os seus medos como, por exemplo, o medo de atirar em estranhos (Afraid To Shoot Strangers — título da música em inglês).

Trying to visualize the horrors 
That will lay ahead
The desert sand mound 
A burial ground

Após turnê mundial promovendo o Fear Of The Dark, Bruce Dickinson pediu o boné, deixando a banda, e em seu lugar entrou o desconhecido Blaze Bayley. A queda de produção das músicas — tento no quesito melodia quanto letra — é visível no período em que Bayley esteve à frente da banda. Com o novo vocalista a banda lançou dois discos: The X-Factor (1995) e Virtual XI (1998).

“Blood On The World’s Hands”, presente no disco The X-Factor, fala sobre a Guerra da Bósnia. A contextualização desta canção é um pouco extensa. Como sabemos, a Bósnia fazia parte do Reino da Iugoslávia — ou simplesmente Iugoslávia — junto com Croácia, Macedônia, Montenegro, Eslovênia, Sérvia e as províncias do Kosovo e Voivodina. Após a morte de Josip Broz Tito, que uniu as republicas e províncias, em 1980, Croácia, Eslovênia e Macedônia proclamaram independência. Por outro lado, Sérvia e Montenegro uniram-se para formar a República Federal da Iugoslávia em 1991.

No ano seguinte, a Bósnia também quis buscar sua independência e aí começou o conflito. Os sérvios que habitavam o país eram contra a independência e se juntaram aos croatas. O fato de bósnios serem, na maioria, muçulmanos, e sérvios e croatas serem católicos foi o estopim para a guerra.

A letra da música cita a inércia do mundo (entenda como grandes potências) com relação aos acontecimentos na Bósnia e critica a ONU, que havia prometido proteger o país, mas nada fez. Em três anos anos de guerra cerca de 200 mil pessoas foram mortas até que, em 1995, foi assinado um acordo nos EUA que pôs fim ao conflito.

Curiosidade: A mesma ONU convidou Bruce Dickinson, àquela época ex-vocalista da banda, para um show solo na cidade de Sarajevo em 1994. Tal show histórico deu vida ao documentário Scream For Me Sarajevo, lançado em 2016.

Brutality and aggression
Tomorrow another lesson
Expecting another air raid
Praying for a geaserfire

Em 1998 a banda lançou o TENEBROSO Virtual XI, mas com alguns lampejos de boas músicas. Um deles é The Clansman, que fala sobre o guerreiro escocês William Wallace (1272–1305). Wallace liderou seus conterrâneos contra os desmandos do rei inglês Eduardo I. Em 1304 Wallace foi capturado por John Mentieth, torturado e executado de forma cruel. Após sua morte, seu corpo foi esquartejado e enviado para pontos da Inglaterra. Sua cabeça ficou exposta na Ponte de Londres numa forma de alertar aos “traidores” o que eles poderiam sofrer caso conspirassem contra a Inglaterra.

A letra é calcada na luta pela liberdade que Wallace defendia.

Nota: Como o disco foi lançado em 1998, é possível afirmar que a música pegou carona no estrondoso sucesso cinematográfico Braveheart (Coração Valente) estrelado por Mel Gibson — no papel, claro, de William Wallace- e lançado em 1995.

And I swear to defend
And we’ll fight to the end
And I swear that I’ll never
Be taken alive

Fechando este mesmo álbum, o Iron Maiden fez uma espécie de mea-culpa em Como Estais Amigo. A letra é uma homenagem aos argentinos mortos pelos ingleses durante a Guerra das Malvinas em 1982. Vale ressaltar que mais uma vez a ONU não soube gerir a crise entre as duas nações e evitado o número elevado de mortos no conflito.

Números totais dos 75 dias de guerra: 649 soldados argentinos mortos, 255 ingleses e 3 civis.

Curiosidade: Por conta desse conflito a banda deixou de tremular a bandeira britânica em solo argentino durante a execução de The Trooper. Em 2001, como é possível ver em vídeos no Youtube, Bruce Dickinson tentou trazer de volta esse momento ao show e foi extremamente vaiado pelo público.

Inside the scream is silent
Inside it must remain
No victory no vanquished
Only horror only pain

E assim encerra-se mais uma parte deste texto. A ideia inicial era concluí-lo em apenas duas partes, mas com o retorno de Bruce Dickinson à banda em 1999, os temas históricos voltaram em peso para os discos da Donzela com letras mais complexas como em Brighter Than A Thousand Suns, que fala sobre a criação da Bomba Atômica; Montségur, que narra de forma sombria o massacre dos Cátaros pelos Templários; e Paschendale, que fala sobre a importante Batalha de Ypres, na Bélgica, durante a 1° Guerra Mundial.