Não vou te abandonar

Todo e qualquer ser humano de bem detesta uma fila. E eu, como tal, não sou diferente. Independente para que é a fila, ela é chata. Desde que descobri a maravilha do internet banking parei com minhas visitas quase diárias às casas lotéricas. Hoje, porém, o protocolo foi quebrado. Como um bom inocente pensei: “Vou acordar cedo e vou logo lá para fugir da fila”. Me enganei, claro. Cheguei pouco antes das 9h na lotérica do bairro e saí de lá por volta das 10h30. Entretanto, tal demora fez este texto aparecer.

Moro em um bairro de subúrbio e todo mundo sabe como as coisas funcionam por aqui. E a principal característica delas é não ter regras. Ninguém respeita o espaço do outro. Você é chamado no guichê para o atendimento e junto contigo, colada, vem a pessoa que está atrás de você na fila. Praticamente duas pessoas na boca do caixa. Pois bem. Ao chegar na lotérica encostei-me na parede do lado de fora — a fila dava a volta na esquina — e surgiu uma senhora.

Lá pelas tantas, um grupo de mulheres se formou atrás de mim. Conversa vai, conversa vem, e como não tinha nada para fazer comecei a prestar atenção no que elas falavam. A senhora, então, disse:

- Na minha casa tem Sky e é uma benção de Deus. Eu coloco para gravar minhas novelas, consigo parar, avançar, voltar… isso é divino! Divido o ponto com meu filho.

As outras senhoras endossaram o coro de que o receptor que grava seus programas favoritos é obra do cara lá de cima.

A certa altura do papo uma delas se despede e diz que precisa ir ao posto de saúde que fica do outro lado da rua e comenta:

- Eu não gosto do Valdecy — o vereador local que reformou e dá expediente no posto -, mas ele deixou o posto bonitinho e eu sempre vou dar para ele.

- O que é isso, mulher? — Exclamou a senhora central do texto. — Que putaria é essa? — Fiz uma cara de espanto com a pergunta.

- Dou meu voto, mulher — respondeu a outra senhora no meio de muitos risos. — Só o voto e olhe lá! Não tô dando as outras coisas nem pro meu marido.

A fila não andava. A senhora, então, voltou a falar e entrou no principal tema do dia.

- Essa aí pelo menos tem marido. Separei do meu tem três anos… aquele filho da puta. Já tá com outra mulher e quer ter filho… aquele galinha. Pelo menos tenho meu filho. Vocês devem conhecer ele.

E então a senhora resumiu toda a vida do filho na esperança de que uma das suas colegas de papo o reconhecessem. Ninguém reconheceu.

- Daqui a pouco ele chega de moto aqui para me buscar e eu apresento ele para vocês. Mas vou te contar, menina… esse meu filho nunca falou palavrão perto de mim. Eu falo palavrões do tamanho do Brasil e ele não fala nem um “merda” se cair um troço no chão. Só tenho ele… e ele está querendo morar com uma namorada. Falei para ele: “Filho, fica aqui”. Mas olha só, gente, não é porque a menina é pobre que eu não quero que ele more com ela. Só não quero que ele vá embora.

Fez-se silêncio por alguns segundos.

- Quando ele dorme lá na casa dela eu fico olhando para o quarto dele e me bate uma tristeza… A cama lá toda arrumada…. Sinto saudade até da bagunça. Eu só tenho ele e ele cuida de mim.

Novamente fez-se silêncio. As outras mulheres, provavelmente mães, estavam sentindo a angustia da senhora em perder o filho para a namorada.

- Ele faz tudo por mim. Este ano eu disse que queria viajar no carnaval e fui tomar minha cervejinha em paz. Ele ficou em casa e não viajou. Disse que ficaria à minha disposição caso eu precisasse dele para uma emergência. Amo meu filho.

A fila andou um pouco e eis que chega o rapaz em questão. Obviamente não me virei para vê-lo, mas pude ouvir ele desejar bom dia para as acompanhantes de sua mãe na fila.

- Pois é, filho. Ainda estou aqui. E ainda quero passar na feira para comprar um brócolis para o nosso almoço.

O rapaz lhe fala algumas palavras e volta para a moto.

- Te amo, meu filho. Vai com Deus.

O assunto cessa. Finalmente chega minha vez, sou atendido e volto para casa pensativo. Óbvio que todos nós quando chegamos numa certa idade — ou até antes — temos o desejo de desgarrar da barra da saia e alçar voo solo. Por outro lado, entendemos o quão desesperador isso é para uma mãe, que de uma hora para outra, pode “ser abandonada” pelo filho. E o receio é esse mesmo: de ser abandonada.

Eu mesmo aqui em casa passo por isso. No alto dos meus 30 anos já conversei várias vezes com minha mãe que, assim que pintar a oportunidade, vou tocar minha vida sozinho. E os argumentos dela são sempre os mesmos: “Você vai me abandonar?”, “Que bonito, né? Quando melhorar um pouquinho vai deixar a gente para trás”, “Vai sair e nunca mais vai voltar, né?”. Não adianta dizer que sair é uma necessidade e que quando tudo ficar bom a ideia é ter todo mundo perto de novo. A ideia do abandono parece ser fixa.

Debati esses dias com umas amigas sobre isso e parece que há um consenso com relação ao comportamento das mães. No fundo elas sabem que precisamos e queremos passar por tal experiência, mas é claro que quanto mais puderem retardar isso é elas vão. Não há uma tentativa explícita de te impedir de sair. Há, porém, uma chuva de argumentos — todos pendendo para o contra — para te fazer renunciar tal ideia.

Mas não se preocupe, mãe. Não vou te abandonar.

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