SOBRE RAFAEL BRAGA E A ESQUERDA SOCIALISTA

Rafael Braga é negro, morador da Vila Cruzeiro e catador de latinhas. Foi o único condenado das manifestações de 2013, mesmo sem ter participado da mesma. Após uma série de absurdos judiciais, atropelando qualquer entendimento sobre “estado democrático de direito” não só continua preso, mas com acusações ainda mais graves.

O fato da Anistia Internacional ter sido (com muitas sobras) a instituição que mais lutou pela libertação de Rafael diz muito sobre as atuais organizações de esquerda. Diz primeiro, sobre o afastamento, falta de inserção, entendimento, de como se organizam nesses locais, onde “direitos humanos” é uma expressão que pouco faz sentido. Entender o que significa proletariado, mas não entender o abismo objetivo e subjetivo existente entre os setores médios e a periferia não ajuda muito. A análise da realidade brasileira não está escrita em livros russos do início do século XX. “Análise concreta da realidade concreta”, parece que não entendemos o real significado disso.

Consequência desse primeiro fato, temos o segundo: a composição social da organizações da esquerda. A situação piora ainda mais quando a situação das direções. Uma simples pergunta: qual organização socialista hoje, que tem uma composição pelo menos paritária, entre mulheres e negras(os)? Que tem a maior parte de sua base organizativa dos setores mais explorados do proletariado? Em que setores sociais são os trabalhos mais relevantes? Quais que são realmente democráticas internamente e não tratam qualquer divergência política como “desvio pequeno burguês” ou coisa que o valha?

É verdade que mesmo que uma organização política tenha essas caracterísitcas não significa que sempre terá acertos políticos, ou mesmo uma estratégia que de solução para a exploração do conjunto da classe trabalhadora. Mas não ter isso afasta e muito desses objetivos. Não basta reconhecer essas imensas debilidades, isso algumas organizações já fazem até (pelo menos parte de suas bases). O reconhecimento é o primeiro passo, mas precisa ir além. Precisa-se de um projeto concreto para que a mudança não fique apenas em palavras de ordem vazias.

O fato de um caso tão brutal como o de Rafael Braga não ter tido uma batalha visceral, por parte dessas organizações, por sua liberdade é um sintoma grave. Vidas estão sendo estraçalhadas e a esquerda pode ter um papel fundamental na organização destes setores, e na luta por uma sociedade completamente diferente, política, social e economicamente falando. Mas é preciso dar o primeiro passo. É isso ou continuar nessa marginalidade assustadora, sem poder fazer nada.

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