
Texto original em inglês no site do The New York Times.
“Quando eu estava na Inglaterra no começo de outubro, dei uma entrevista para a revista Empire. Fui perguntado sobre os filmes da Marvel. Respondi. Disse que tentei assistir a alguns dele e que, para mim, eles parecem estar mais próximos de serem parques temáticos do que filmes, pelo menos da forma como entrei em contato e amei filmes por toda minha vida. E disse, no final, que não acho que isso seja cinema.
Algumas pessoas têm me atacado por conta da última parte da minha resposta, como se ela fosse um insulto, ou uma evidência de ódio que eu teria pela Marvel. Se alguém tem o direito de caracterizar minhas palavras nessa perspectiva, nada me resta senão intervir.”
Concordo, Martin. Deixar o debate mais explícito e diplomático é salutar. No entanto, acho que podemos também falar sobre a primeira parte da sua resposta. Ela ajuda a entender as diferentes linhas de raciocínios que seguimos. Ela denuncia que além de uma dose elitismo intelectual, há um bom tanto de conflito de gerações. Você pode não conseguir embarcar no frenesi coletivo que os filmes da Marvel causam, mas isso não o torna menos válido do que suas próprias experiências pessoais. Há coisas que comovem as novas gerações que não causam bom impacto nos veteranos. Com você, são os filmes da Marvel. Comigo, tem uma listinha de coisas também: youtubers, cosplayers,… A diferença é que acho positivo o crescimento de eventos que giram em torno desses hábitos dos xóvens. Eu quero mais que tenha uma caralhada de CCXP e similares. (Só não me esperem ver por lá, a não ser que esteja presente no recinto para conseguir munição para a guerra contra os boletos da vida adulta.)
“Muitos filmes de franquia são feitos por pessoas de competência e talento artísticos consideráveis. Dá para ver na tela. A verdade é que os filmes em si não me interessam por causa do meu gosto pessoal e do meu temperamento. Sei que, se fosse mais jovem, se tivesse envelhecido mais para frente, eu talvez me animasse com esses filmes e talvez até mesmo quisesse fazer um deles. Mas eu cresci quando cresci e desenvolvi um sentido sobre filmes — do que eles são e do que podem ser — que está tão distante do Universo Marvel como nós estamos aqui na Terra longe de Alpha Centauri.
Para mim, para os cineastas que amo e respeito, para meus amigos que começaram a fazer filmes na mesma época que eu; cinema tinha a ver com revelação — estética, emocional e espiritual. Tinha a ver com personagens — a complexidade das pessoas, suas contradições e às vezes suas naturezas paradoxais, como eles podem se ferir, se amar e repentinamente ficar frente a frente com eles mesmos.”
Então, deixa eu te contar um bagulho. Em alguns filmes dessa safra, dá pra ter um tanto disso aí também. Acho mesmo que tu não consegue ver essas qualidades porque é preciso estar acostumado com a pirotecnia que vem junto. A jornada do vilão de Pantera Negra, por exemplo, é um arco dramático bem interessante de se testemunhar. Tem contradições ali, do personagem e de nós mesmos.
“Tinha a ver com confrontar o inesperado desfilar na tela e na vida que ali era dramatizada e interpretada, e expandir o significado do que era possível naquela forma de arte.
Isso era fundamental para a gente: era uma forma de arte. Havia debates sobre isso naquela época, então a gente se levantou pelo cinema como algo igual à literatura, música ou dança. E a gente chegou à conclusão de que a arte pode estar em diversos lugares e em muitas formas — em Capacete de Aço, de Sam Fuller; Persona, de Ingmar Bergman; Dançando nas Nuvens, de Gene Kelly e Stanley Donen; em Scorpio Rising, de Kenneth Anger; em Viver a Vida, de Jean-Luc Godard; e Os Assassinos, de Don Siegel.”
Taí uma lista de exemplos de inegável importância cinematográfica. Claro que não conheço o curta citado no meio. Mesmo assim, posso dizer que em sua época, esses filmes não tiveram o alcance que os filmes da Marvel têm. Naquela época, não existia muito bem a ideia de blockbuster, mas é possível fazer uma aproximação com outros nomes. O mais expressivo dele é Alfred Hitchcock, como você mesmo abordará. Na época, os filmes citados por você já eram elogiados. É o que acontece hoje com outros realizadores. Assim, podemos mais adiante combinar um café para conversar sobre como o cinema feito por essa geração que você cita conversa com o que hoje fazem Denis Villeneuve, James Gray, etc. Para ficar apenas aí na América do Norte. (Sonhar ainda é tax free, né?) Por isso, sigamos em frente.
“Ou nos filmes de Alfred Hitchcock — acho que dá para dizer que Hitchcock é uma franquia em si próprio. Ou que ele era a nossa franquia. Cada filme novo do Hitchcock era um evento. Entrar em uma sala lotada naqueles cinemas antigos para ver Janela Indiscreta era uma experiência extraordinária: era um evento criado pela química entre a plateia e o filme em si, e era de arrepiar.
Desse jeito, certos filmes de Hitchcock também são parques temáticos. Penso em Pacto Sinistro, no qual o clímax literalmente acontece em uma roda gigante em um parque de diversões; e Psicose, que vi na sessão da meia-noite na noite de estreia, uma experiência que nunca esquecerei. As pessoas iam ali para serem surpreendidas e emocionadas, e não ficavam decepcionadas.
Sessenta ou setenta anos depois, ainda assistimos esses filmes e ficamos maravilhados. Mas é pelas emoções e surpresas que retornamos a eles? Acho que não. As cenas grandiosas em Intriga Internacional são impressionantes, mas, sem as emoções dolorosas no centro da história ou sem o absoluto senso de perdido no personagem de Cary Grant, seriam apenas uma sucessão de composições e cortes elegantes e dinâmicos.”
Isso só o tempo dirá. Acredito que sim. O senso de perdido em Steve Rogers em Capitão América: Soldado Invernal seria um comparativo. Os filmes de super-heróis, como terror, fantasia e ficção científicos, são gêneros gosto de chamar de limítrofes. São formatos que permitem exagerar premissas e chegar a ensaios dramáticos descolados da realidade. Como o caso de Rogers, que tenta se adaptar em um mundo que o ultrapassou. Não tem referências culturais recentes, o sistema que sempre defendeu mostrou-se corrupto e coloca em xeque sua visão romantizada do mundo. Para completar, seu melhor amigo que julgava morto retorna como vilão. Acho uma mistura bacana de conflitos.
“O clímax de Pacto Sinistro é um feito, mas é a relação entre os dois personagens principais e a performance profundamente desconcertante de Robert Walker que ressoa até agora.”
Ou o olhar de Gavião Arqueiro ao literalmente presenciar a família desaparecer diante de seus olhos.
“Alguns dizem que os filmes de Hitchcock têm uma mesmice, e isso talvez seja verdade — e o próprio Hitchcock refletia sobre isso. Mas a mesmice das franquias de hoje é outra coisa. Muitos elementos que definem o que conheço como cinema estão presentes nos filmes da Marvel. O que não está ali é revelação, mistério ou perigo emocional genuíno. Nada está em risco. Os filmes são feitos para satisfazer um conjunto específico de demandas, e são desenhados como variações para um número finito de temas.”
Posso te garantir que pouca gente suspeitava que Homem de Ferro iria morrer (olha o risco emocional aí). E vamos definir o sentido de “finito”? Amizade, família, trabalho em equipe, reconhecer suas fraquezas, ética científica, os desafios diante da sofisticação das inteligências artificiais,… alguns temas que podemos vislumbrar que coletei rapidamente aqui. Garanto que a lista continua.
“Eles são sequências no nome, mas em espírito são refilmagens, e tudo ali é oficialmente sancionado porque não dá para ser de outro jeito. Essa é a natureza das franquias cinematográficas modernas: pesquisa de mercado, teste de plateia, vetos, modificações, revetos e remodificações até que esteja pronto para consumo.”
Quando você coloca centenas de milhões de dinheiros na roda, precisa de algum tipo de controle de investimento, meu irmão! Os limites disso aí a gente pode discutir naquele café. O reinado absoluto dos produtores executivos sem qualquer ousadia e conhecimento sobre o material-base fizeram a gente esperar mais de uma década por versões decentes de Wolverine e Deadpool na tela grande, por exemplo. Por outro lado, posso te garantir que aquela carta branca que sua galera recebeu na época da Nova Hollywood me incomoda bastante. Filmes caros que deram prejuízo, gravações que normalmente estouravam o número de diárias, orçamentos igualmente estourados,… aquilo não se sustenta, rapaz!
“Outra forma de abordagem é dizer que os filmes da Marvel são tudo que os filmes de Paul Thomas Anderson ou Claire Denis ou Spike Lee ou Ari Aster ou Kathryn Bigelow ou Wes Anderson não são. Quando vejo um filme de qualquer um desses cineastas, sei que verei algo totalmente novo e serei levado para áreas de experiência inesperadas ou até inomináveis. Meu entendimento do que é possível em contação de histórias com imagens em movimento e sons será expandida.”
Eu posso garantir que tenho uma boa ideia do que verei quando estreia novo filme de qualquer um dos Andersons aí acima. (Amo o que eles fazem!) Assim como tenho ideia do que virá no próximo filme da Marvel.
“Então, você pode perguntar, qual meu problema? Por que não deixar os filmes de super-heróis e outras franquias em paz? A razão é simples. Em muitos lugares nesse país e pelo mundo, filmes de franquias são a primeira escolha se você quiser ver algo na tela grande. Estamos em um período periclitante para a exibição de filme e temos cada vez menos cinemas independentes. A equação virou e streaming se transformou no principal sistema de entrega. Ainda assim, não conheço nenhum cineasta que não queira conceber seus filmes para a tela grande, para ser projetado para o público em salas de cinema.
Eu me incluo aí, e falo como alguém que acabou de fazer um filme para a Netflix. Essa parceria, e somente ela, permitiu que fizéssemos O Irlandês do jeito que precisávamos, e por essa razão serei sempre grato. Temos um lançamento em cinema, o que é legal. Eu gostaria que o filme passasse em mais telas e por mais tempo? Claro que sim. Mas não importa com quem se faça um filme, a verdade é que as telas da maioria dos multiplexes estão lotadas com filmes de franquia.
Se você me dizer que é apenas uma questão de oferta e demanda e dar às pessoas o que elas querem, vou discordar. É o ovo e a galinha. Se só se oferece um tipo de coisa e infinitamente se vende apenas um tipo de coisa, claro que vão querer mais desse único tipo de coisa.
Você pode argumentar que a gente pode simplesmente ir para casa e ver qualquer coisa que quisermos na Netflix, iTunes ou Hulu. Com certeza. Podemos ver essas coisas em qualquer lugar, exceto na tela grande, exatamente onde o cineasta (ou a cineasta) queria que seu filme fosse visto.”
Concordo de novo. Precisamos taxar essa ocupação massiva. Se um filme quer diminuir drasticamente o cardápio de títulos no circuito, que haja alguma compensação social. Que essa taxação seja direcionada para o cinema independente — da produção à exibição! Agora essa luta contra a consequência de um mal não leva a nada. Tratar os sintomas é paliativo.
“Nos últimos 20 anos, como sabemos, o mercado cinematográfico mudou em todas as frentes. Mas a mudança mais sinistra aconteceu de forma oculta: a crescente eliminação do risco. Muitos filmes hoje são produtos perfeitos manufaturados para consumo imediato. Muitos deles são bem feitos por equipes de indivíduos talentosos. No entanto, eles carecem de algo essencial ao cinema: a visão única de um indivíduo artístico. Porque, óbvio, o indivíduo é o maior fator de risco.
Certamente não estou induzindo que filmes devam ser uma forma de arte subsidiada, ou que eles eram. Quando o sistema dos estúdios de Hollywood ainda vivia bem, a tensão entre artistas e as pessoas que comandavam o negócio era constante e intensa, mas era uma tensão produtiva que nos dava alguns dos melhores filmes já feitos — nas palavras de Bob Dylan, os melhores deles eram ‘heroicos e visionários’.
Hoje, a tensão acabou, ainda existe um pouco no mercado com total indiferença à questão da arte e uma postura diante da história do cinema que é ao mesmo tempo desdenhosa e apropriadora — uma combinação letal. A situação, infelizmente, é que agora tempos dois campos separados: Existe o entretenimento audiovisual mundial e há o cinema. Eles ainda se encontram aqui ou ali, mas é cada vez mais raro. E temo que o domínio financeiro de um deles está sendo usado para marginalizar e até diminuir a ocorrência do outro.
Para todos que sonham em fazer cinema e que estão começando, a situação no momento é brutal e inóspita para a arte. E o simples ato de escrever essas palavras me preenchem de uma tristeza terrível.”
Cara, tô bem concordando contigo (nesse ponto). Sabe quem pode fazer algo? Adivinha? Começa com Martin e termina com Scorsese! Pega 10% do seu salário em O Irlandês e vem produzir um filme aqui no Brasil. Tem uma galera talentosa, com objetivos artísticos bem evidentes e cheia de vontade.
Na hora de exibir em cinema, a gente pode pedir ajuda pros seus amigos da Netflix, ou lança uma pré-venda de ingressos pela internet. Com a importância que você tem pra gente que é cinéfilo, duvido que um filme que seja visto como uma aposta sua não cause interesse.
Agora, se tiver bem impaciente e só quera uma vitrine bacana paras os esforços artísticos sendo feitos agora, tenho outra ideia. Bora montar um festival com essa grana! Conheço até um curador bacana pra te indicar.