O Frio

São 3:00 horas, o vento frio bate em minha janela deixando passar na pequena fresta um suspiro de inverno da madrugada, eu pego o cobertor e levo até o rosto dando graças ao céus por ter esse pequena , mas salvadora fonte de calor que me faz continuar quente, pego-me pensando quantas pessoas devem estar sofrendo lá fora, sem o mesmo privilégio que estou desfrutando, mendigos , crianças de rua, homens e mulheres jogadas a sua sorte , por uma família desajustada , por algum vicio que levou ao limite econômico e social servindo a rua como última parada para seu triste infortúnio , ou por alguém que a vida tristemente mostrou sua face mais cruel jogando a pessoa ao seu limite psicológico, lembro de uma conversa que tive com um amigo que há muito não está entre nós , e como o frio pode esfriar muito mais que a nossa pele.

Na escola fazemos amizades que duram anos, algumas muito mais que imaginamos, outras caem no vórtice de tempo entre a escola e a vida adulta, uma dessas amizades que a vida não me deixa esquecer foi feita neste intervalo, João (nome fictício) era assim como eu um jovem de 12 anos a época,frenquetava o mesmo colégio que eu e por possuímos gostos parecidos foi inevitável que nos tornássemos amigos, jogavamos futebol,conversávamos sobre os desenhos que assistimos na televisão e das inúmeras meninas que ficávamos apaixonados numa época que pra nossa mente juvenil era extremamente difícil até conversar com uma menina sem o gaguejo nos mostrar a inexperiência que tínhamos, éramos jovens com uma vida toda pela frente até um vento frio obscurecer sua vida.

A mãe de João sempre foi doente, lembro que ao ir na casa dele ela sempre me perguntava se estava a vontade num esforço descomunal ao tentar esconder a sua tosse e respiração ofegante a cada palavra proferida, perguntei uma vez pra ele se sabia a doença que ela tinha e se era grave, no que me disse que ela fazia tratamento quase que diário e que o pai dele sempre dizia pra não se preocupar que era só uma gripe muito forte, ao longo do ano sempre que íamos na casa dele jogar videogame via o aspecto cansado dela, e a educação que pra mim se tornou marca dela, ao fazer todo um esforço só pra saber se eu estava a vontade em sua casa , cada ida a casa de João era um lembrete que eu tornava em abraço ao chegar em casa e ver minha mãe saudável.

Certo dia, ao chegar na escola não encontramos João no local aonde costumavamos nos reunir na sala de aula, pra entre uma bronca e outra da professora conversarmos sobre o último episódio de Dragon Ball, após o terceiro dia de seu sumiço, resolvemos ir na sua casa pra saber o que estava acontecendo, e ao chegar lá nos deparamos com seu pai com uma expressão sombria, e ao perguntamos de seu filho prontamente o chamou numa expressão sem vontade, ao ver meu amigo, não o reconheci,o amigo que eu acostumei a correr nas brincadeiras de escola deu lugar a um menino de expressão fúnebre,com olhar pra baixo e com olhos marejados , perguntamos o que havia acontecido e com a voz falhando ele nos contou como sua mãe há dois dias atrás, no meio da madrugada teve um mal estar( que eu viria a saber anos mais tarde ser um ataque cardíaco), e ela havia sido enterrada no dia anterior, ao saber disso nem eu e nem nenhum outro amigo teve sequer uma reação, éramos crianças a morte para nós só existia em desenhos nos quais o protagonista viria a ser ressuscitado alguns capítulos mais a frente, dizemos a ele nossos pêsames ou o máximo que conseguíamos pra crianças de 12 anos, e que a gente iria esperar ele voltar a escola pra conversarmos melhor.

Isso nunca aconteceu.

Após algumas semanas, João voltou a escola, mas ele nunca foi o mesmo,não conseguia mais brincar,não conseguia mais assistir a aula e era sempre motivo de pena pra alguns professores que conheciam a sua história , ou raiva para aqueles que achavam que era as primeiras ações de rebeldia de uma adolescência que estava começando, nós amigos sempre tentávamos conversar com ele sobre qualquer coisa que não fosse sua mãe, mas parávamos na falta de resposta que qualquer assunto parava ao encontrá-lo .Em uma dessas tentativas ele me revelou que seu pai estava-o levando em um psicólogo e que havia dito que ele estava com depressão (essa foi a primeira vez que ouvi essa palavra),curioso sobre isso perguntei o que era depressão e ele me respondeu que era uma sensação estranha,um vazio,um frio interior que consome toda a vontade que ele tinha pra fazer qualquer coisa,e que restava somente a vontade de ficar deitado e dormindo o máximo de tempo que conseguia, na minha inocência disse que isso era preguiça, e ele num tom soturno disse que o pai dele havia dito a mesma coisa,foi a primeira e última vez que conversei com João sobre a sua depressão.E uma das últimas vezes que pude falar com ele.

Por suas faltas e incapacidade de se concentrar nas aulas repetiu a 6 série, o grupo de amigos o qual fazia parte seguiu em frente e incapaz de melhorar de seu estado psicológico se afundou em um oceano solitário, nunca mais o vi na escola e descobri que o seu pai havia o tirado por algum tempo pra que se dedicasse ao tratamento psicológico, alguns anos mais tarde soube que nunca superou, voltou a escola por algum tempo chegando a se formar , mas logo após isso, seu pai também se foi,e esse golpe foi muito duro, e ao chegar em casa pegou a arma que o pai deixava escondido e acabou com a sua breve existência, ao descobrir o final de sua história me arrependi do dia que ao falar comigo sobre sua doença eu na minha inexperiência não pude ajudar, acreditando que fosse apenas uma tristeza temporária, uma doença que com alguns medicamentos já o faria correr no intervalo atrás de uma bola como sempre fazíamos, desta forma descobri que existem mais de um tipo de frio, que nem sempre o cobertor vai ser o suficiente, mas que de alguma forma temos que manter acesso a chama de nossa existência quente em nosso peito.

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