A comunicação é arma, basta saber usar

Fotografia meramente ilustrativa e autoral
“Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição.”
Racionais, MC’s

Confesso que esse trecho da música do Racionais me remete direto a jornalismo como metáfora. Fazendo um paralelo: a bala é nosso conteúdo e o alvo é quem a gente quiser. Por sinal, ontem eu impedi uma agressão usando uma câmera.

Fui fazer uma pauta de Fotojornalismo no Mercado Público, mas antes passei na SMIC que fica no segundo andar e avisei que iria tirar fotos do espaço. Não queria pedir autorização, mas achei que seria de “bom tom” avisar e falar que era estudante de jornalismo.

Engano meu. No que eu saio da sala percebo o pessoal ativando a escuta do rádio e avisando a segurança do local. Pronto. Não ouvi o que foi dito, mas depois disso por onde eu passava era intimidado com os olhares em relação a câmera e em qualquer lugar que eu ia tinha algum segurança. Talvez eu seja bonito demais, mas acho que não era o caso.

Alguns dos seguranças olhavam com curiosidade para a câmera, outros simplesmente encaravam no olho e tentavam me intimidar. Desses eu bati até foto, não queria esquecer esse encontro marcante, gostaria que fosse especial para ambos.

O recado de alguns era bem claro: tu não é bem vindo. Porém, dane-se o lugar é público e já era. A covardia que eles procuravam nasce da culpa e isso eu não carrego comigo, não como jornalista. A intimidação de olhares atravessados seguiu.

Quando estou indo embora, uma figura na saída do mercado me chama atenção. Era um senhor negro com poucos dentes na boca e de um peso considerável que discursava textos bíblicos, como: “Os homens estão perdidos, é uma vida de desgraça”. Enquanto eu achava exótico e observava, o mozão que me intimidou durante as fotos estava na minha frente e comentou com o colega: “Tá vindo pra mim, vai ter que ser eu?”. Segurando o cassetete ele dividia o olhar entre a câmera e o religioso inconveniente.

Não tive dúvidas, peguei a câmera e segurei dentro da mochila. Comecei a rir do tom cômico da situação e esperei a reação do segurança que acariciava o cassetete ansioso, na expectativa de usá-lo. Parecia um adolescente na puberdade: nervoso, inseguro e autoafirmativo. Me encarava enquanto passava mão no instrumento de trabalho.

Felizmente o tiozinho projeto de pastor cansou e saiu da porta do Mercado Público. Foi pregar para o outro lado, sem que ninguém desse a menor atenção. Observei o segurança aliviado, mas triste porque tinha perdido a oportunidade do dia. Vi em seus olhos a tristeza do amor não correspondido. O andarilho religioso tinha partido o seu coração.

Enfim, ontem o pau não comeu e quem bateu foi a câmera.

Foto meramente ilustrativa e autoral.

Obs: foto meramente ilustrativa, não quero prejudicar o segurança, muito menos responsabilizar uma única pessoa. Se ele teve essa reação é por ser instruído para isso. O texto é só um retrato da minha realidade: ninguém gosta de estudante de jornalismo/jornalista em lugar público.