Eu voto no…
O pior das eleições não são os eleitos, é o eleitor. Sempre o eleitor, pois é este quem decide. O que quero dizer em nada diz respeito aos partidos ou candidatos. Está restrito apenas aos que, orgulhosamente, exercem a cidadania: nós.
Minha avaliação final sobre esta primeira etapa do processo eleitoral que estamos vivenciando é a de desapontamento. Nessa decisão, não há segundo turno. Esse desapontamento não é como o daquele que vê, pela primeira vez, surpresa desagradável, mas o desapontamento daquele que confirma fatos negativos. Eu explico.
As pessoas levantaram suas bandeiras, colaram adesivos, literalmente vestiram a camiseta e usaram sua faceta militante. Acreditam estarem lutando por causas justas. Todas bem intencionadas. Todas felizes pela liberdade de poderem decidir o futuro da nação. Alguns até se dizem (musiquinha triunfal aqui, por favor) os “libertadores” (!), os justiceiros da nação! De fato, um contexto muito bonito de se pensar. É o momento de um povo fazer o bem pelo bem. E o melhor ainda está por vir: cada um pode decidir como achar melhor. Todavia, aí encontramos um pequeno problema. A liberdade de que gozamos é diretamente proporcional ao desrespeito que destilamos.
Nos últimos tempos tive a oportunidade de participar de algumas conversas a respeito de nossa política com pessoas das mais diversas opiniões e visões sobre o certo e o errado. Sobre o que foi bom ou ruim em nossa história política. Pude, também, ser apenas um observador atencioso. Confesso, de peito aberto, que saio mais confuso deste cenário; não consegui aprender tanto quanto gostaria. Talvez, o desejo latente em todos aqueles que eu tentei dialogar — o diálogo que é quase tão raro quanto o alinhamento dos planetas — é sempre o mesmo: o bem-estar coletivo. Um altruísmo de dar inveja à Madre Teresa de Calcutá. Mas o que não conseguimos, nestes últimos dias, foi esconder, do mundo que nos cerca, nossos outros desejos individuais. Desejos que são costurados ao longo do tempo de vida de cada um por meio da experiência própria, das crenças, dos objetivos que motivam a sair da cama a cada dia, e da esperança por dias melhores. Acredito que este — o conjunto de desejos — é o motivo fundamental para nossa derrota enquanto povo. É triste deduzir que não estamos aprendendo, ao desfrutar da famigerada democracia, a construir uma realidade positivamente progressista. Me parece que não sabemos identificar o que é argumento e o que é agressão. Não sabemos aceitar a divergência como direito de opinião. A divergência é tratada como burrice alheia. A opinião do outro, uma afronta ao “meu mundo ideal.” É engraçado… estamos sempre carregando um pedestal em nossa bagagem, assim como sempre estamos dispostos a nos elevarmos por meio dele e, lá do alto, observar o mar de tolos que nos cercam. Assim, estamos distantes e navegamos opostamente. Assim deixamos de ver seres humanos e, automaticamente, o que temos são aliados e inimigos. É aí que defendemos com unhas e dentes nossa convicção doa a quem doer. Maquiavel ri. O mundo está coberto de príncipes dispostos a tudo pela vitória. Não, não parece engraçado. Já não é tão altruísta. Não tão democrático.
A sensação que fica, pra mim, é que apenas aguçamos nossa incapacidade de buscar o entendimento. Não espero a unanimidade, apenas a cordialidade entre os opostos. Afinal, contra quem e pelo quê estamos lutando mesmo? Eu queria saber responder essa, só que esta é difícil. Nestes dias que passei lendo, ouvindo e observando as posições e movimentos políticos, arrisco dizer que, nos embates das ideias, todos têm sua razão, mas ninguém tem a verdade. Talvez nos falte um pouco mais de cuidado com o conhecimento que deixou seus rastros em nossa história. Talvez, o que precisamos não seja um mesmo ponto de chegada — isso seria pedir demais -, mas um mesmo ponto de partida e, deste lugar, identificar onde foi que erramos e nos separamos. De que modo chegamos até aqui…
Demorei muito tempo para ter real interesse pela política. Sei bem pouco sobre esta maltratada anciã e não quero ser injusto no que direi, mas preciso ser sincero: ela é ranzinza, interesseira e dotada de tantos pré-conceitos que fica muito difícil querer aprofundar o relacionamento. Que chato.
Um amigo meu diz que sou pessimista. Eu discordo e digo que sou realista. Divergências! Divergências!