Todo camburão tem um pouco de Navio Negreiro

Durante o espetáculo é contado a história de Natanael, uma espécie de anti-herói que nasce na periferia, vive inserido num sistema de opressão e violência e, aos 18 anos, resolve entrar pra PM.

Logo no início, fui surpreendido com a ousadia da turma. Para representar um baile de favela, os atores começaram a se despir diante do público. Incrédulo em ver seus corpos nus, tamanha foi minha surpresa ao ver um pênis gigante entrar em cena. O mesmo se entrelaçava entre os atores em uma espécie de suruba teatral. Eu simplesmente não esperava por isso, haha. E acredito que algumas pessoas realmente ficaram incomodadas, embora eu ache isso uma bobagem, afinal, qual o real problema de copos nus? Cheguei até mesmo a escutar um terrível “aff, não achei que fosse isso”.

Sobre a questão da utilização de objetos na interação com os atores, destacam-se a estrutura que serviu de suporte para elevar a mãe de Natanael lá no alto (O objeto vermelho na imagem acima), e os “bonecos de ventríloquo”, usados para representar a infância de preconceitos raciais submetidos a Natanael.

A parte musical também foi muito bem construída, com rimas certeiras e críticas de cunho social ao “sistema”.

Durante a apresentação, o público também era convidado a participar de forma passiva e ativa. Em vários momentos, a plateia tinha que se levantar e as cadeiras eram movidas para dar passagem aos atores, que vez ou outra saiam de cena e entravam novamente de várias direções. Em uma dessas entradas, pingos de água eram agitados com uma folha em uma tigela e eram carinhosamente jogados nos espectadores. Em outro momento, placas de “culpado” ou “inocente” eram distribuídas ao público, com o objetivo de se criar um juri popular e definir o destino carcerário de Natanael, após o mesmo ter cometido um crime como PM.

Entre momentos dramáticos, estatísticas reais de violência e mortes relacionadas aos negros, houve espaço também para a comédia, que embora mais presente no terceiro ato da peça, encerra de forma satisfatória a chamada “tragédia afra”, sem deixar claro quem é o culpado da história, e a respeitar a complexidade do tema.

PS — Em minha pesquisa para escrever esse texto, descobri que o acessório com que jogam água benta nas pessoas se chama aspersório.

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