Sobre a polêmica do “Empreendedor de Palco”: O inimigo é outro!

Quando vemos a supervalorização dos palestrantes motivacionais de empreendedorismo, na verdade o grande culpado não é o palestrante. Ele só se beneficia de um vazio causado pelo real culpado: a falta de capacidade do ensino superior de formar empreendedores.

O artigo “Por que a indústria do empreendedorismo de palco irá destruir você” causou uma grande repercussão nas redes sociais ao questionar palestrantes de empreendedorismo que se focam muito em motivar e não tem uma experiência tão profunda em negócios. Não demorou muito (na verdade demorou nada) e no dia seguinte já surgiu um artigo contrário com o título “Por que reclamamos tanto dos palestrantes de empreendedorismo / motivacional?”, mostrando a importância da motivação na hora de empreender e dizendo que quem os critica na verdade está com inveja.

No fundo, o motivo da discussão é que todos queremos evoluir o sistema empreendedor no Brasil. Nesse ponto temos que concordar que as palestras motivacionais são importantes como “primeiro passo”. E isso que gera toda confusão. Um conteúdo motivacional é bom, mas como primeiro passo. Porém, acaba se tornando um “fim em si”. Os palestrantes motivacionais viram gurus completos, que “sabem” de ponta a ponta como fazer um negócio. Assim, em vez de apenas entusiastas motivadores eles acabam atuando na formação de empreendedores.

Essa super-valoriazação desse tipo de palestrante, nada mais é do que um reflexo da capacidade mínima que as universidades têm de formar os profissionais que nosso mundo atual demanda.

As faculdades há muito tempo ficaram na zona de conforto de “imprimir diplomas” para as pessoas colocarem no currículo. Quando alguém precisa de fato empreender com uma empresa ou até em sua carreira há poucas alternativas e o que aparece acaba sendo super-valorizado.

Nós estamos caminhando para uma realidade que é necessária uma nova formação, formato e conteúdo. Nos Estados Unidos, isso está bem mais claro e com certeza irá refletir em nossa realidade nos próximos anos.

Para citar só alguns exemplos, em 2014 o documentário “Ivory Tower” chamou a atenção do público ao criticar duramente o ensino superior americano, com grande foco para Harvard. Há alguns anos Peter Thiel, um super-empreendedor que entre outras coisas participou da criação do Pay Pal, investiu no UnCollege, uma organização que oferece programas em que as pessoas desenvolvam sua própria educação sem depender de uma universidade. Essa semana uma professora do MIT, Christine Ortiz, abandonou essa renomada instituição para criar uma univerdade que não terá sala de aula. Toda semana surge algum projeto tentando resolver esse que é um dos maiores entraves da atualidade.

Temos hoje fomentadores do empreendedorismo que têm um papel importante. Mas faltam pessoas e modelos para formar empreendedores de fato. O grande gargalo para isso é o atual ensino superior que não vai evoluir, só pode ser superado por inovação. Quando isso acontecer, ficará muito mais consistente o caminho para alguém empreender e nosso mundo dará um salto para o futuro.

Diego Monteiro Co-fundador o Scup, uma plataforma de mídia social que depois foi adquirida pela Sprinklr, e a Via6, uma rede social baseada no Brasil que recebeu capital-semente. Também publicou um livro no Brasil sobre métricas para mídias sociais, Monitoramento e métricas de mídias sociais: do estagiário ao CEO.