O princípio e princípios do caminho

Om Mani Padme Hum — Mantra da compaixão

Sou um praticante muito recente do budismo. Estudante iniciante do Dharma. Não penso que fiz uma escolha em estudar esses princípios de reconciliação com a vida. Isso surgiu da adversidade. O ponto de vista do Dharma se baseia no conceito das 4 nobres verdades ensinadas pelo Buda Sakyamuni. A primeira verdade enuncia que todos vivenciamos o sofrimento. Todos, homens e animais, seres sencientes, que experienciam Dhuka (sofrimento). Entender essa verdade inicial pode te colocar numa posição de empatia e compaixão com os demais seres que encontramos nessa existência. Essa é a grande ideia. Que, compreendendo que todos vivenciam as dores de nascimento, doenças, velhice e morte — nossos ou de outros — possamos cultivar uma compaixão e possamos nos reconciliar com todos. Entender que todos querem a felicidade de alguma forma, forma essa condicionada pelas suas respectivas impressões sobre o que é suspender o sofrimento, é ter uma semente de equilíbrio. Equilíbrio este que vivendo a roda da vida, só conseguiríamos entendendo as ilusões de percepções condicionadas, e tendo a realização incessante que todos temos uma natureza ilimitada, de budas( iluminados);

Partindo dessas ideias, começamos a meditar. Tomamos nossa experiência de cotidiano como objeto de análise, vemos claramente as mudanças — como nada, absolutamente nada, é permanente. Um pequeno lapso de lucidez já nos deixa animados — “caramba, isso faz muito sentido” — e empolgados começamos a testar. O próprio Buda disse “Não tomem o que eu digo como verdade absoluta, testem!”, vemos com olhos mudados essa experimentação da vida ser modificada. Interesses, hábitos e vícios mudam de ângulo. Mais desavisados começam uma avaliação de fora dessa mudança de hábitos… como se ela nunca ocorresse antes! Ela sempre ocorreu, de forma gradual ou súbita, mudamos todos os dias. Nunca somos a mesma identidade, a mesma pessoa, a mesma ideia manifesta. Basta olhar para uma pessoa que participou de uma aula. Assim que essa aula termina, perceba ela ou não, já não é a mesma. Nossa autoimagem começa a mudar, claro, e então surge uma das primeiras armadilhas, no meu ponto de vista.

Adotar uma identidade de “budista” não é nada de especial. É novamente se rotular e agir conforme um script de comportamentos pré-concebidos. Isso tem uma amplitude enorme. Desde atitudes em um nível mais grosseiro até como comportamentos sutis de mente. Externamente as pessoas já imaginam que você se tornará em algum momento uma pessoa dita “zen”, “careta” de fala leve (afetada), tendo uma nova roupagem new-age. Você mesmo pode assimilar dessa forma e começar a se cobrar resoluções, realizações, sobre processos e comportamentos que você teve por décadas e agora, repentinamente, os rejeita numa arrogância materialista muito equivocada. E se você não o faz, por si próprio, os outros o fazem, cobrando/julgando uma leveza de ser quando o tal “budista” se irrita, fuma ou tem atitudes não condizentes com essa identidade de alguém evoluído.

No meu atual momento de prática me um constante debate com essas identidades. Por algum tempo me cobrei — especialmente em momentos de grande irritação, ou quando fumo um cigarro ( sim, eu ainda me engano que cigarro alivia a ansiedade) nos meus deslizes uma mudança forçada, quando ainda não havia tido a realização dessas ilusões/obstáculos que preciso pacificar pra então atingir uma equanimidade. Acredito que estou chegando num momento de início da auto-compreensão e reconciliação. Analiso e testo se me reconciliar comigo, ser mais compreensivo, vou poder ter realizações positivas e, de alguma forma, compartilhar isso com mais pessoas. Busco cessar debates inúteis com as experiências. Debates inúteis são os que não visam uma evolução. Aliás, tenho buscado conversas positivas internamente e externamente, com pessoas que buscam o mesmo objetivo de lucidez, e tendo compaixão nos meus deslizes. Esse caminho não é pré-existente. Ele é construído a medida que andamos, é individual, e não necessariamente seu destino é semelhante ao do outro. Em benefício de todos ao redor, pela construção de um mundo mais compreensivo e carinhoso com todos, se mudamos nossa paisagem interna e, pelo menos, tomamos consciência de nossas atitudes automáticas, começamos a quebrar esse grande ciclo de reações que vivemos.

Atualmente tenho buscado meditar e perceber minhas atitudes. Não sou um monge ou um iluminado que encontrou uma grande verdade, porém qualquer passo adiante vejo um pouco mais distante a experiência humana como um potencial enorme de compartilhar. Com a motivação de ser útil e poder aliviar um pouco os fardos que existem sobre todos, espero continuar estudando mais, e a cada aula que tiver com mestres — internos e externos — buscarei fazer com que essas (inevitáveis) mudanças sejam boas, e que em algum momento eu possa transbordar esses benefícios com todos que eu venha a encontrar.