A Dois Passos de Casa

Há muito que não vinha a Buenos Aires. Última vez havia sido ainda menino. Desde já, me maravilhava com a beleza dos rostos e corpos alongados e belos das moças. Sendo esse o padrão que os meus olhos procuravam, a Argentina era um paraíso, mesmo para um menino que mal tinha barba a despontar pelo rosto. As ruas largas e o país inteiro pequeno, uma mania de grandeza nos monumentos, prédios, cemitérios e personalidades locais contrastavam com o tamanho continental do meu país decadente. Pelo menos era o que passava pelo misto de memória e anseio do que havia por vir.

O imaginário de anos e anos esperando o dia que respiraria os bons ares argentinos, se construíra a partir de uma natureza inquieta, destemida e desprovida de lar. Agora, morava há poucas horas dali. As desculpas para não fazer visitas vinham se esgotando e, por outro lado, as razões para vir há muito que aumentavam. Podia, por exemplo, como amante do cinema, dizer que vinha em busca da terra que ainda fazia bons filmes todo ano, algo bem diferente do que se propagandeia pela minha terra. Não que faltem bons exemplos brasileiros, mas hoje é preciso entrar em becos, subir morros e caçar por algo que valha a pena sentar duas longas horas numa sala escura e, entregar-se sem reservas a uma história despretensiosa. As similaridades entre os dois cinemas, o nosso e o hermano se limitam ao espaço geográfico, na repetição ostensiva de caras conhecidas e o bom e velho contraste sepulcral da pobreza e riqueza. De resto, o mundo deles parece mais encantador, sério e respeitoso com a inteligência do espectador. Muito dessas imagens, porém, foram esmaecendo a partir do momento em que pus o pé fora do avião.

Sempre fui muito de caminhar pelos espaços desconhecidos ao invés de escolher sentar-me diante de um mundo acelerado. Observador não-passivo. A gente parecia saída de um filme de Almodóvar, um filme que tivesse ficado exposto às intempéries do tempo e perdido sua essência máxima, das cores vibrantes vermelhas. Esta gente era pálida, magra, alta e com os cabelos ressequidos. Era também mais ríspida que os paulistas ocupados com aquele rumo inabalável que tomam nas avenidas e por isso se batem sem pedir desculpas. Agora já não sei bem o que vim fazer aqui. Não avisei a conhecidos, não gosto da juventude barulhenta das boates, não gosto do sotaque e não como carne.

O primeiro dia passei enfurnado num hostel qualquer. Se muito, troquei umas duas palavras com os passantes no saguão até o anoitecer. Momento em que o bar abriria. O momento mais esperado de todo dia. Nunca entendi a complexa relação entre as pessoas e as bebidas. Para alguns, é necessário estar na presença de outros para beber. Com frequência marcam e se encontram com incontáveis saideiras, mas beber sozinho é coisa de alcoólatra. Aquela velha imagem dum homem que mal pode se manter de pé e fixar os olhos sobre o próprio copo. Eu fico com outro uso da bebida. Eu bebo. Gosto de sentir o líquido ardente e as nuances de cada vinho, cerveja, ou uísque. Faço isso em pouquíssima quantidade, tomo exatos seis drinks por semana. Vario apenas do gênero fermentado ao destilado. Aos olhares maldosos, sou um beberrão, enquanto outros sujeitos que bebem ocasionalmente uma grade de cerveja com os amigos não o são, eles pensam. Numa viagem, a despeito do peso que se leva na mala, o peso da culpa, do medo e vergonha inexiste. Então, sozinho, como estava, sentei-me ao balcão e pedi meia garrafa de vinho.

Muitos acreditam que o valor de uma viagem está relacionado a uma sacolinha chamada cultura e que nela se colocam os itens que formos colecionando, nos tornando cada vez mais cultos, tendo visitado o maior número de monumentos inúteis, um maior número de países no menor tempo possível. Aos meus olhos, não vejo um acúmulo de cultura como se acumula dinheiro. O que vejo é o olho do outro. Uma aura cativante que se alimenta do movimento. Quanto mais nos movimentamos por este pequeno planeta, mais cor e mais relevância se dá a esta aura que nos acompanha. É por isso, acho, que podemos ter uma personalidade diametralmente oposta fora de casa. Não seria capaz de interagir com estranhos, abordar figuras interessantes. Na verdade, nenhuma dessas ações é fruto de uma coragem singular criada por uma sensação de anonimato no exterior, senão o poder inescapável dos tentáculos solares. O poder da aura.

Eis, que sem fazer nada diferente, apenas bebendo sozinho num bar qualquer de um outro país, dois olhos me encaravam. Já disse que sou fissurado por olhos? Talvez o fato de repetir a palavra seis vezes tenha me denunciado. Pois bem, olhos pretos. Dois abismos cerrados como se sorrissem maliciosamente. A boca pequena é que despistava com um toque de seriedade. Mas fato é que me olhava sem aqueles malditos disfarces. Munido de álcool e aura de viagem encarei de volta e chamei-a para perto de mim. Daniela. Se apresentou, mexendo levemente os cabelos castanhos com a ponta dos dedos. Pedi uma taça para a moça. Disse-lhe que era do Brasil e os lábios cederam à admiração antes oculta. Achou que era espanhol. Dizer ser brasileiro é um tanto afrodisíaco. Testei em alguns lugares do planeta. Infalível. Não demorou muito e Daniela me convenceu de irmos a uma boate. E em sã consciência com o asco que tenho já mencionado, fui. Ela era daquelas moças locais fissuradas em turistas. Basta um olhar para se reconhecer no espelho.

As vezes o mundo dá pistas de quão pequeno realmente é. Aquela boate tinha uma banda que convidava pessoas aleatórias a cantar. Candidatei-me. Chegou a minha vez, subi ao palco e lhes disse qual era a música. Uma de Ella Fitzgerald. Não perdi de vista a moça que me trouxera, mas percebi uma animação súbita de um grupo inteiro de meninas como se minha fama de cantor de chuveiro me precedesse. No meio do grupo, um rostinho conhecido. Inacreditável, mas era. Assim, sem avisar, numa boate aleatória, lá estava ela. Uma amiga que havia ido morar na Argentina uns anos antes.

Desci do palco, peguei uma bebida sem perder as moças de vista e meus pés me levaram num caminho próprio. Um vento frio bate no rosto, os carros passam rareados na larga avenida e o som é abafado atrás de mim no fechar da porta. Acendi um cigarro e fui-me embora para casa.